Filme sobre o roubo da Jules Rimet é a coisa mais divertida do cinema brasileiro

Foto: Adoro Cinema

História parcialmente verídica sobre o escândalo que mobilizou o Brasil em 1983 virou um filme dos bons. Dirigido por Caito Ortiz, “O Roubo da Taça” traz personagens patetas e uma trama bem interessante. Apesar dos acontecimentos não refletirem completamente a realidade, o filme é uma das coisas mais divertidas do cinema em 2016.

Está no seu Netflix para ser aproveitado a qualquer momento a obra brasileira “O Roubo da Taça”, protagonizada por Paulo Tiefenthaler e Taís Araújo. O filme de 2016 é uma bela releitura dos eventos passados em 1983, quando a taça original da Jules Rimet (do Tri em 1970) foi roubada da sede da CBF no Rio de Janeiro.

Desde o começo, o que mais chama a atenção é a preocupação em reconstruir o cenário da época, com produtos, carros e construções que lembram muito uma viagem no tempo para a década de 1980. O personagem de Peralta, interpretado por Tiefenthaler, se enrola com dívidas com um bicheiro e precisa urgentemente arrumar uma fonte de dinheiro.

O problema para Peralta, um cara dos mais malandros e safos que já se viu, é que poucos estão dispostos a participar de seus esquemas. Sendo assim, pressionado, ele decide com um amigo elaborar um plano para invadir as instalações da CBF para roubar a Taça do Tri. O que acontece depois você só ficará sabendo se assistir ao filme, mas alguns comentários merecem ser feitos além disso.

A burrice de Peralta e Borracha impressiona. Mais do que falar da Taça, um símbolo do período mais bem sucedido do futebol brasileiro, o filme fala sobre um homem em apuros que está disposto a qualquer coisa para sair de uma enrascada. Fosse ele alguém mais esperto ou menos viciado em jogo, a situação seria bem menos perigosa. E certamente bem menos divertida para o público.

O dilema da falta de grana somado a dramas comuns como a obsessão com o carteado e apostas é o que torna a trama tão envolvente. Fato é que a direção não se preocupou em fazer um longa metragem que fosse coerente com a história verdadeira do roubo e dos envolvidos. Mesmo porque, seria um pouco difícil dar o tom de humor que o filme acabou ganhando. É fácil se identificar com Peralta quando ele se pega pensando em como irá gastar todo o dinheiro que ganhou com o roubo.

Em meio aos ladrões, as trapalhadas da própria CBF no armazenamento da taça e o desencontro das informações da polícia, existe o personagem mais forte de todos: o de Dolores, interpretada por Taís Araújo e criada pelos diretores para arredondar o enredo. Uma mulher exuberante e sagaz que sabe tomar as rédeas de uma situação desconfortável. É ela que apoia e segura a barra de Peralta, tornando-se uma cúmplice do roubo e também negociando o valor arrecadado pela peça em conversas com o receptor e ourives argentino.

É uma lenda tipicamente brasileira. Nunca se soube muito bem o que aconteceu com a taça e a versão oficial de tudo dá conta de que Peralta, Bigode e Barbudo (omitido pelo filme) roubaram e venderam o item para o argentino, que diante da falta de compradores, derreteu todo o ouro.

Anos depois, Juan Carlos Hernandez foi preso por tráfico de drogas no Rio, mas nunca cumpriu pena por ter recebido a taça, o que abre precedente para outras interpretações do assunto. Barbudo morreu em 1989, assassinado a tiros em um bar. Peralta morreu em 2003, por problemas cardíacos. Bigode, por sua vez, foi preso em 1984 e condenado a nove anos de detenção.

Difícil não rir com os acessos de palavrões de Peralta ou com o caráter duvidoso de Hernandez. O final, apesar de ter sido inventado pelos roteiristas, foi uma solução sensacional para manter vivo o mistério sobre o paradeiro da taça, tese que até hoje é sustentada em mesas de bar. A polícia, claro, jamais encontrou alguma pista concreta a respeito.

Meses antes do lançamento de “O Roubo da Taça”, a Fifa anunciou a criação de uma força-tarefa para apurar o que aconteceu de verdade com o troféu, fortalecendo a ideia de que a história foi muito mal contada. É de se aplaudir quando alguém consegue contar com tantos detalhes e tão bom humor um evento tão lamentável para o esporte brasileiro. A realidade ainda é melhor do que a ficção.

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