Quando o Leicester foi a casa dos maiores goleiros da Inglaterra

O que Gordon Banks e Peter Shilton têm em comum? Grandes goleiros que fizeram história pela seleção da Inglaterra, isso todos sabem. Mas pouca gente se lembra que ambos tiveram passagens importantes por um clube em especial: o Leicester.

O título da Premier League pelo Leicester em 2016 encantou a todos os amantes do futebol. O triunfo de um clube médio em meio a potências milionárias em uma das ligas mais competitivas do planeta já seria suficiente para um roteiro de cinema, porém o Leicester fez mais: recheou sua conquista com trajetórias empolgantes.

Havia o técnico competente -porém desacreditado- Claudio Ranieri; o artilheiro problema Jamie Vardy que vira solução inclusive para o English Team; o voluntarioso N’golo Kanté que transforma-se no paradigma de volante e etc. Em meio a tantas histórias havia também a do goleiro Kasper, que carrega em seu uniforme um sobrenome lendário para a posição na Premier League: Schmeichel.

Embora ser filho de Peter (o grande dinamarquês) envolvesse grande responsabilidade para Kasper, este não era seu único desafio. Assim que tornou-se possível sonhar com a conquista inédita, torcedores, jornalistas e historiadores da bola passaram a especular quem seria o maior goleiro de todos os tempos do Leicester. E eis que se depararam com não apenas bons goleiros, mas sim com duas lendas do arco inglês: Gordon Banks e Peter Shilton.

Gordon, o pioneiro

Banks nasceu em Sheffield em 1937 e jogou por times menores de sua região até vincular-se ao Chesterfield aos 16 anos. Promovido ao time principal em 1959, precisou de apenas seis meses para despertar o interesse dos dirigentes do Leicester, que pagaram sete mil libras pela sua transferência. Teve início uma trajetória de respeito, que culminou com a conquista da primeira Copa da Liga para os Foxes na temporada 1963/64.

O título e as consistentes atuações de Banks chamaram a atenção de sir Alf Ramsey, que o convocou para fazer parte da seleção. Banks foi o goleiro da seleção inglesa que reteve a Jules Rimet em casa -na marra- em 1966, quando foi eleito o melhor goleiro da competição, sofrendo apenas três gols em seis jogos, permanecendo como titular quatro anos depois, no México.

Embora tenha sido campeão mundial na Copa anterior, foi no México que Banks foi reconhecido mundialmente. Dois episódios marcaram a experiência mexicana de Gordon. Primeiro, pela “Defesa do Século”, durante um Brasil x Inglaterra quando recuperou-se a tempo de ir buscar em seu canto oposto uma cabeçada perfeita desferida a queima roupa por um rapaz chamado Pelé. Dias depois, Banks alegou ter se aventurado pelas cervejas locais e contraiu aquilo que na linguagem popular mexicana chamam de “O Mal de Montezuma”: um severo desarranjo intestinal que afeta estrangeiros que se aplicam na culinária local.

Impossibilitado de jogar, viu do trono o seu colega Peter Bonetti do Chelsea ter uma tarde trágica, sofrendo três gols que culminaram na eliminação inglesa frente os alemães, na primeira das muitas vinganças do povo germânico por 1966.

“Mas Peter, você é só um menino” – Gordon e Peter batem papo em meados dos anos 1960

A carreira de Banks na seleção inglesa seria abreviada em 1972, quando perdeu a visão do olho direito por conta de um acidente automobilístico. Até ali havia acumulado 73 presenças e o título da Copa do Mundo de 1966, conquista que não foi suficiente para mantê-lo no posto em seu próprio clube. Durante as partidas preparatórias para o mundial, um jovem de 16 anos nascido e criado em Leicester ocupou o arco na ausência de Banks para não largar tão cedo: Peter Shilton.

Curiosamente, Banks poderia ter sido o goleiro daquele arrasador time do Liverpool dos anos 1970 e 80, mas em 1967, mesmo a pedido de Bill Shankly, o clube se recusou a pagar a alta quantia pedida pelo Leicester, que girava em torno de 50 mil libras, na época. Gordon assinou com o Stoke após meses de litígio com os Foxes, que não lhe deram nem um centavo depois de perder lugar para o emergente e jovem Shilton. Sua estreia foi justamente contra o Leicester em uma vitória por 3-1.

O campeão mundial em 1966 não jogou muito mais tempo que isso em alto nível. Depois de encerrar sua passagem pelo Stoke, em 1973, Banks rodou pelo Cleveland Stokers, pelo Hellenic, Fort Lauderdale Strikers e o St. Patrick’s Athletic, da Irlanda. Como vários outros ídolos da época, passou pelos Estados Unidos para ajudar a projetar o futebol local. Mesmo com Pelé, Cruyff, Best, Carlos Alberto, Beckenbauer e outros gênios, só mesmo nos anos 2000 é que os americanos começaram a respirar o esporte da bola redonda. Mas e Shilton? O que deu, afinal?

Peter, o interminável

Shilton estreou pelo Leicester em 4 de maio de 1966 sob os auspícios de seu ídolo Banks, que assegurou aos dirigentes que poderiam confiar no jovem rapaz enquanto ele estivesse ausente por conta da seleção. E de fato a qualidade e confiança do novato eram impressionantes de tal forma que Manchester United e Arsenal mostraram-se dispostos a leva-lo de Leicester.

A trajetória de Shilton teve destaque para sua longa carreira na seleção, a ausência em Copas dos anos 70 (a Inglaterra não foi em 1974 e 78), os recordes como goleiro velho e o atleta da posição que mais vestiu a camisa da seleção. Obviamente, também ficou marcado por sofrer dois dos gols mais emblemáticos de todos os Mundiais pelos pés (e pela mão) de Diego Maradona em 1986. Tudo de uma vez só.

Peter saiu do Leicester e foi para o Stoke em 1974. Em 1977, assinou com o Nottingham Forest e, veterano, escreveu um capítulo glorioso de sua carreira por clubes, sendo campeão inglês e bicampeão europeu sob o comando de Brian Clough. Engana-se quem pensa que aquele período incrível no Forest era a despedida de Shilton.

Ele ainda defendeu Southampton, Derby County, jogou a Copa de 1990, foi para o Plymouth e depois Wimbledon, Bolton, Coventry, West Ham e Leyton Orient até sua aposentadoria, em 1997, portanto 31 anos após sua estreia como sucessor de Banks. Foram 1005 partidas como profissional por clubes, 125 partidas pela Inglaterra, entre outros números que o colocam seguramente como um dos três maiores arqueiros da história do país.

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