O alto preço que o Corinthians pagou pela parceria com a MSI

O Corinthians viveu altos e baixos em curto espaço de tempo depois de assinar uma parceria obscura com a MSI, um grupo de investimentos desconhecido. A presença do empresário Kia Joorabchian e a injeção de dinheiro fizeram o clube paulista contratar astros como Carlos Tévez e alcançar o título brasileiro de 2005. Mas a conta do sucesso veio rapidamente.

Em 2004 o Corinthians entrou em um das épocas mais controversas de sua história. Começava ali uma parceria com a Media Sports Investment, a MSI, um grupo de investimentos formado por russos e britânicos e representado no Brasil pelo iraniano Kia Joorabchian. Kia, figura central das negociações e da empresa, desde o começo dessa ligação era acusado de ser testa de ferro de Boris Berezovsky, magnata russo tão controverso quanto a parceria.

Pelo contrato firmado (ou ao menos o que foi divulgado) o clube receberia investimentos altíssimos e grandes jogadores, além de ter um estádio construído pela parceira, que por sua vez, lucraria ao negociar os jogadores que se destacassem. Foi mais uma das promessas que o corintiano ouviu em muito tempo sobre a casa nova. Fato que só se concretizou em 2014, com a obra em Itaquera.

Desta forma, em 2005, a MSI trouxe jogadores como Nilmar, Roger, Carlos Alberto e Gustavo Nery, além dos argentinos Sebá Domínguez, Mascherano e Tévez, que se tornou ídolo da torcida mesmo tendo passagem curta pelo clube. Todos eles estavam em alta no mercado naquele momento. Com opositores dentro da diretoria e críticos na imprensa, sem falar na pressão por parte da torcida, o período Corinthians-MSI só trouxe um título ao clube, o Brasileiro de 2005, conquistado de maneira turbulenta após o que talvez tenha sido o maior escândalo de arbitragem do futebol brasileiro, o famoso “Caso Edilson Pereira de Carvalho”.

A manipulação de resultados que tinha uma quadrilha por trás consistiu em fraude de 11 partidas, todas elas anuladas e disputadas novamente. Duas delas eram do Timão, contra Santos e São Paulo. Com essa chance, o Corinthians pôde recuperar pontos fundamentais na luta contra o Inter pela taça.

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Em 2006 a relação que parecia bem sucedida entre a agremiação e o grupo de investimento começou a degringolar, com o Corinthians terminando o Paulistão apenas em sexto lugar, atrás do Noroeste e do São Caetano. Crise mesmo estourou principalmente após a eliminação na Libertadores daquele ano, em pleno Pacaembu, em partida contra o River Plate. A obsessão da torcida com o torneio ganhava tons dramáticos e violentos na noite paulistana.

Ao rever o caso, é possível lembrar também que a imprensa colocava o Alvinegro de Parque São Jorge como um dos favoritos ao título continental, tendo em vista que o time contava com jogadores em ótima fase, como Nilmar, Gustavo Nery, Roger e Carlos Alberto, além de Tévez, um craque consolidado e em estado de graça com a Fiel. Contudo, a derrota para o River agravou ainda mais a disputa interna entre Kia Joorabchian e Alberto Dualib, levando a situação ao limite.

Foi também nessa época que investigações federais apontaram a MSI como suspeita de lavagem de dinheiro, o que fez com que o grupo abandonasse rapidamente o país, deixando o Corinthians com dívidas milionárias. Afundado, sozinho e tendo de arcar com somas referentes a luvas e salários de jogadores, o Timão  rompeu oficialmente o contrato com a parceira no primeiro semestre de 2007, deixando clima de terra arrasada. O fim abrupto da parceria contribuiu demais para o rebaixamento do Corinthians para a Série B naquele mesmo ano, com um elenco bem abaixo da crítica.

A promessa de um novo paraíso e o dinheiro fácil atraíram os dirigentes corintianos para a cilada. E pelo menos no segundo ano da relação, parecia ter sido um excelente negócio. O Corinthians ficou em evidência e na hora de dar o salto maior para se tornar campeão de tudo, a empresa se complicou com a Justiça brasileira e saiu de cena deixando todo o ônus para o clube. Daquele curto período, fica a passagem memorável de Tévez, que se entregou como poucos em campo.

Qualquer “corpo estranho” no futebol, seja um grande patrocinador, um parceiro ou um co-gestor, precisa ter limitados os seus poderes e o acesso ao núcleo de uma agremiação, pois quase sempre seu compromisso maior não é com o time ou com sua torcida, mas com o possível lucro futuro.

O futebol de hoje, mais do que nunca, exige muito dinheiro para a montagem de grandes elencos, mas há que se entender que, acima de tudo, trata-se de uma paixão em nível nacional. Quando se faz um planejamento correto e responsável, o sucesso e o retorno financeiro são consequências. Difícil é basear uma parceria apenas em injeção de dinheiro desmedida mirando títulos e mais títulos. Uma hora a fonte seca e nós já sabemos quem sempre sai perdendo nesta equação.

O que você prefere, amigo torcedor? Ganhar uma taça a cada cinco anos com um trabalho paciente ou ter do dia para a noite um esquadrão recheado de estrelas caríssimas, vencer tudo em três ou quatro anos e depois quebrar?

Autor: Thiago Rocha

Corintiano, revisor publicitário, peladeiro fã do Gamarra, Mauro Galvão e Aldair.

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