Noite de Libertadores: O povo se delicia com um bom drama

Atlético Paranaense e Botafogo desafiam a lógica e se classificam na Libertadores. Jogos difíceis fora de casa testaram o coração das duas torcidas. O drama se fez presente no fim da rodada para os brasileiros sobreviventes no torneio, rumo à terceira fase.

Faltou ar, sobrou coragem

Foto: GloboEsporte.com

LEIA TAMBÉM: A história do Atlético Tucumán é a cara da Libertadores, para o bem e para o mal

O Atlético Paranaense fez o que se esperava -e o que podia- para voltar ao Brasil com a vaga para a terceira fase. À espera de Deportivo Capiatá ou Universitario, o Furacão suportou o bombardeio do Millonarios na altitude de Bogotá. O placar foi negativo, mas serviu para levar a decisão para os penais.

De forma dramática, o tempo e o clima colombianos foram tirando o gás dos atleticanos. O começo interessante motivou a torcida com boas chances, mas logo as pernas pesaram e o ar se tornou outro inimigo. Em uma noite de desespero durante quase todos os 90 minutos, o gol solitário de Duque não foi capaz de matar o ímpeto rubro-negro. A jogadaça do volante dos Millos incluiu uma entrada na área com drible seco em Sidclei e um chutaço na gaveta, indefensável para Weverton. Entretanto, o capitão ainda viveria momentos sublimes no El Campín.

Para quem duvidava que Carlos Alberto ainda tinha o que oferecer, uma atuação com raça e responsabilidade fez do camisa 19 o grande destaque de linha pelo lado atleticano. O veterano pode até ter sido criticado por momentos de crise e desleixo na carreira, mas nestes dois jogos pela Libertadores foi uma rocha e soube ser a referência do time na criação.

Enquanto o Millonarios tentava lance após lance furar o bloqueio visitante, Weverton frustrava as ofensivas. A cada defesa, o arqueiro voava alto e fazia o papel de paredão que nós já conhecemos. Restava apresentar toda essa imponência em um palco internacional com a camisa do Atlético. Não restava mais. Se o Furacão chegou vivo até o apito final, foi por culpa do seu guarda-metas, um monstro que sabe crescer em momentos decisivos e que transpira essa paixão da torcida como um legítimo representante de seu povo.

A metade rubro-negra de Curitiba roeu o resto de unhas que ainda sobravam para aguardar as infartantes penalidades. O esforço de se manter no jogo mesmo sem fôlego foi recompensado. Os bravos guerreiros seguraram a ponta de um duelo de alta intensidade psicológica e física. Grafite, o homem gol, apanhou como mala velha do maluco Cadavid, um açougueiro que se achou entre os beques em Bogotá. A doação do artilheiro não veio no balançar das redes, mas sim no sangue deixado no campo. De touca e um dos olhos inchados pelas pancadas recebidas, Grafite decidiu com os outros medalhões na hora crucial.

Weverton fez a sua parte, defendendo um dos chutes. Jonathan, Grafite e Carlos Alberto converteram suas cobranças e viram Núñez carimbar o travessão. Gedoz consolidou a classificação com tranquilidade e calaram El Campín. Não venceu o melhor deste último confronto, mas certamente o que mais soube lidar com suas limitações. Em condições de igualdade, o Atlético teria segurado um empate, mas a altitude desequilibrou demais a balança a favor dos colombianos. Em suma, registre-se o elogio à fibra deste Furacão, que dentro da adversidade se fez forte o bastante para superar esta provação. Que venha o próximo rival.

Duelo de maldições

Rodrigo Pimpão foi o nome do Botafogo em uma verdadeira batalha em Santiago, no Chile. Para eliminar o Colo-Colo, o Fogão de Jair Ventura teve de entregar até a última gota de suor em seu valioso empate por 1-1. Sob enorme pressão, a equipe carioca saiu perdendo para o Cacique e sentiu que o retorno à fase de grupos da Libertadores poderia ser adiada para o ano que vem.

Pesou a falta de Camilo, o armador e grande destaque deste time modesto que encontrou um equilíbrio raro entre tanta bagunça recente. Organizado, determinado e brioso, o Bota não abaixou a cabeça quando levou um gol que poderia ter derrubado seu lado emocional. Um cruzamento na área foi mal afastado e Emerson Silva desviou para a própria meta com muita convicção, um gol de artilheiro, mas do lado errado do campo. A maldição ecoava nos corredores de General Severiano, não era possível que caíssem jogando tão bem, por um detalhe.

O que o futebol foi cruel com o Botafogo em todos estes anos, resolveu devolver com juros. Ainda que seja muito cedo para ter esta reparação, o Glorioso foi resiliente e cresceu para encarar os donos da casa. Não se abalou com a desvantagem, arregaçou as mangas e foi para o combate para matar. Morrer não estava sob cogitação.

E assim, um eletrizante jogo de futebol se transformou em uma questão de honra. O Colo-Colo não acertava o pé e se lembrava que nas últimas seis vezes em que se deparou com brasileiros na Libertadores, sucumbiu. O fantasma entrou na cabeça dos chilenos e destroçou a paz necessária para administrar a vitória. Aos 35 minutos do segundo tempo, ajoelhados, os torcedores alvinegros foram presenteados com mais um capítulo saboroso de sua história. A pressão surtiu efeito e na loucura de uma longa luta de boxe, Rodrigo Pimpão desferiu o golpe fatal na têmpora do Cacique. Uma defesaça de Villar deu rebote para o atacante entrar de frente para a baliza e marcar.

A maldição se esqueceu do Botafogo e trocou de lado, vestindo o alvinegro do Colo-Colo, vítima de uma década desgraçada e inglória, pelo menos em terreno sul-americano. O coletivo do Botafogo falou mais alto em Santiago, como vinha sendo tendência no Brasileirão de 2016. Quando um time tem tanta sinergia, o caminho para o sucesso é mais curto. Montillo, Dudu Cearense, Bruno Silva, Roger, Marcelo e o próprio Emerson Silva foram grandes para se atirar em cada bola, reconhecendo a importância dos lances na área botafoguense.

O tempo jogou contra o Colo-Colo e o Botafogo deitou e rolou no descontrole. Abusou das bolas longas e poderia ter facilmente virado o placar para 2-1. As provocações chilenas não surtiram efeito, foram um tiro no pé. Quem quer guerrear precisa estar pronto para suas baixas. O Colo-Colo não soube se comportar quando viu a vantagem escorrer por entre os dedos. Assim é o futebol, ou costuma ser na maioria dos dias. Passa o Botafogo, dono de um espírito que muita gente gostaria de ver contagiando suas cores.

Agora o Bota aguarda o vencedor do duelo entre Olimpia e Independiente Del Valle, com vantagem equatoriana por 1-0. O jogo de volta é nesta quinta-feira, em Asunción.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *