A história do Atlético Tucumán é a cara da Libertadores, para o bem e para o mal

Vestido com o uniforme da seleção argentina, o Atlético Tucumán escreveu por linhas bem tortas uma história incrível na Libertadores. Fora de casa e com atraso, a equipe albiceleste eliminou o El Nacional após uma verdadeira saga envolvendo atrasos e ameaças de W.O. A classificação dos argentinos é um retrato perfeito da bagunça feita pela Conmebol.

A grandeza e a complexidade dos eventos da última terça-feira chamam a atenção. É possível extrair vários pontos de vista diferentes a respeito do que aconteceu nas horas que antecederam o apito inicial para El Nacional x Atlético Tucumán, pela segunda fase da Copa Libertadores. Em casa, o Tucumán segurou um empate por 2-2 e foi para o Equador com a possibilidade de se classificar com uma vitória simples. Foi exatamente isso que aconteceu, mas há um contexto muito difícil de ser ignorado.

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O relato do amigo Leandro Stein é talvez uma das melhores formas de se explicar o que aconteceu em campo no Estádio Atahualpa. O magro placar de 1-0 serviu para o Tucumán celebrar a sobrevivência no torneio, graças a um gol de Zampedri. Vaga garantida, coisa e tal, mas aí existe o porém.

Por mais que seja uma verdadeira façanha flertar com o W.O e chegar atrasado ao estádio como visitante para depois vencer a partida, o Tucumán poderia ter sido mais um clube a entrar para as páginas tristes do futebol, por toda a irresponsabilidade que culminou em tal circunstância.

Inicialmente, ficou claro que o time poderia nem ter chegado a Quito em tempo, pois dirigentes resolveram fazer a viagem no dia da partida. Conforme o tempo passava, o atraso se transformou em um drama real. Constam em relatos que a delegação ficou presa em Guayaquil e deveria ter desembarcado em Quito quatro horas antes do confronto, mas oficiais equatorianos não autorizaram que o avião pousasse no seu destino final. O técnico albiceleste Pablo Lavallén afirmou que foi uma vergonha o que fizeram com os argentinos, que ficaram presos dentro da nave por mais de duas horas sem direito nem ao ar condicionado.

Já nesta quarta-feira, uma declaração do piloto do avião tornou a situação ainda mais nebulosa. Cristian Leitão alega que a nave havia regularizado todo o processo de decolagem e seus planos de voo, e que se alguma documentação não estivesse correta, os jogadores e a comissão técnica jamais teriam embarcado. A história fica ainda mais grotesca quando nos deparamos com o fato (lembrado também por Leandro Stein) de que o El Nacional é uma equipe patrocinada pelas Forças Armadas do Equador, o que pode de fato ter influenciado o atraso e a negativa para pousar em Quito. Preocupações com a segurança são justas e ninguém queria lidar com uma nova tragédia aérea como a da Chapecoense. Mas é estranho saber que estava tudo regularizado e ainda assim o voo não aconteceu no horário previsto.

Não é difícil enxergar além das coincidências neste caso. Se o avião tinha plenas condições de descer em Quito para que o Tucumán fizesse o jogo, por qual razão haveria algum impedimento por parte de autoridades equatorianas? Fato é que o Atlético tinha 45 minutos para chegar ao estádio do jogo, do contrário, seria eliminado da Libertadores. De acordo com o regulamento da competição, após os 45 minutos protocolares de espera, a partida é cancelada e o time presente é considerado o vencedor. Entretanto, o El Nacional concedeu mais 30 minutos extras para que o Tucumán chegasse ao estádio. Horas depois, dirigentes equatorianos esclareceram que a decisão não foi plenamente deles, mas sim em virtude de uma pressão por parte da Conmebol.

A partida nem sequer deveria ter acontecido. E para o Tucumán, chegar em cima da hora sem uniformes (os materiais não foram despachados a tempo) era por si só um ato heroico depois de tantas dificuldades e irresponsabilidades. A bola de neve gerada naquelas horas ficou gigante. O ônibus que transportava o time rasgou as estradas de Quito para entregar os atletas em tempo hábil para a realização do confronto, como já vimos em diversos sucessos do cinema. Exceto que não era ficção.

Como a seleção argentina sub-20 estava na cidade para a disputa do Sul-Americano da categoria, o Atlético entrou em campo vestindo as cores de sua equipe nacional, que nada mais são do que as mesmas do seu próprio uniforme. Outros jogadores precisaram pegar chuteiras emprestadas, expondo a verdadeira várzea a que foram submetidos. Um show de desorganização, mas que foi e deve ser completamente esquecido no futuro quando lembramos do desfecho. Quem esperava uma vitória fácil do El Nacional se chocou com a determinação do Tucumán, que em campo foi valente demais até fazer o gol e se classificar.

Irregular? Sim. Mas não deixa de ser um triunfo na base da raça. Fosse o El Nacional o vencedor, isso seria uma grande frustração para quem viajou tanto em tão pouco tempo. A história provavelmente seria a dos pobres albicelestes que deram o maior duro para jogar e acabaram vencidos pela própria limitação física. Na real, após uma hora e meia de atraso, a bola rolou e tratou de consagrar os argentinos pela vantagem mínima. Felizmente, não tivemos de contar os detalhes de mais um desastre aéreo ou de um acidente rodoviário de grande escala, mas essa série de fatos certamente esteve perto demais de acabar mal.

No fim das contas, ficamos com um recorte tosco de como a Conmebol opera. Em qualquer entidade séria, o Tucumán sequer teria saído de Guayaquil, independente das razões para o atraso. Mas estamos na América do Sul e aqui se pode fazer quase tudo e ainda ganhar um tapinha nas costas dos engravatados que gerem o futebol daqui. Fica para a posteridade o incrível ato de coragem do Tucumán, que segue na Libertadores e sonha com uma estreia na fase de grupos.

Houve até quem estivesse cobrindo o jogo e não conseguisse se desligar do contexto caótico, mas mais do que nunca nos deparamos com a necessidade de exaltar a vitória argentina, contra todos os prognósticos e perrengues. Um triunfo com a cara do futebol sul-americano, para o bem e para o mal.

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