Jorge Mendonça: Quando o gênio se perde em sua humanidade

O talento arrasador fez de Jorge Mendonça um fenômeno no futebol brasileiro dos anos 1970. Os dribles e os gols o colocaram no mesmo nível de grandes craques da época. Mas Jorge teve um fim solitário e triste, diferentemente de outras estrelas.

O que se sabe do futebol é que ele é o grande palco para os gênios que ganham a vida e entram para a história de um esporte em poucos atos. Exceto que, depois da aposentadoria, a segunda vida não é tão generosa com quem não converteu os dribles em riqueza ou um vasto patrimônio.

A história de Jorge Mendonça é, tragicamente, um retrato muito comum para os antigos ídolos da bola. São frequentes os casos de abandono daqueles que não tiveram a sorte de estar sempre em evidência ou que não reuniram condições de manter o padrão de vida quando se afastaram dos gramados. Afinal, nem todos são capazes ou interessados de continuar no futebol como técnicos, auxiliares e dirigentes.

Mendonça, em 1978, contra a Áustria – O meia botou Zico no banco da Seleção /Foto: LANCE

Fora dos campos, Jorge deu tão duro quanto qualquer outro brasileiro anônimo. E de todo o seu esforço e anos dedicados ao trabalho, só restaram o nome e as lembranças. De forma avassaladora, o destino virou para Mendonça em 1982, quando ele vivia grande fase técnica pelo Guarani. Artilheiro do país em 1981, ficou de fora da lista da Copa do Mundo na Espanha.

A ausência tem uma explicação que parece óbvia. Além de ter perdido a vaga para Renato, do São Paulo, Jorge também não se bicava com Telê Santana. A rusga com o técnico se deu em 1979, ainda no Palmeiras, quando o craque foi acusado de não se aplicar na marcação e ser indisciplinado. A realidade é que Jorge não foi o único a ter sido esquecido por Telê por estes motivos.

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A segunda Copa do Mundo de Mendonça teria sido um prêmio para quem tanto enalteceu o futebol arte em sua passagem pelo futebol. Do medíocre time que jogou em 1978 até o maravilhoso esquadrão de 1982 com Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo, Éder, Serginho e outras feras, muita coisa mudou, é verdade. Mas sem tanto esforço, não seria de outro mundo imaginar Mendonça nesta lista. Mas assim foi a vontade de Telê, que indiretamente condenou o seu ex-comandado ao ostracismo. O baque foi tanto que ele nunca mais repetiu as atuações que lhe garantiram reconhecimento.

De 1971 até 1991, quando encerrou sua trajetória de forma deprimente, Jorge viveu altos e baixos na juventude. Saiu do Bangu e foi para o Náutico, onde demonstrou facilidade para balançar as redes. Seduzido pelo Palmeiras, encantou o Brasil com a ginga e um raro poder de decisão. Mendonça era visceral e representou a grande esperança palmeirense depois de Ademir da Guia. De cara, Jorge fez o gol do título paulista de 1976, o último antes da fila de 17 anos. Ficou quatro anos no Palestra Itália e foi da euforia do Estadual ao início de uma longa e tortuosa espera por novos troféus.

Mendonça com o time do Palmeiras campeão paulista em 1976: único título dele no Parque Antárctica

Mendonça não ficou até o fim da fila para saber se o Palmeiras iria ou não se redimir de sua desgraça. Saiu em 1980 para o Vasco, onde também foi contratado para sanar a ausência de um ídolo. Mas não obteve sucesso como o “Novo Roberto Dinamite”. Meses depois foi para o Guarani, em alta, tentando dar ao Bugre o bicampeonato brasileiro. A ótima fase foi um alívio para quem pensava que ele estava saindo do grupo dos principais craques brasileiros na década de 1980.

As linhas tortas desta história levaram Mendonça a um quadro de alcoolismo e depressão. Já aposentado, se separou de sua mulher e perdeu rapidamente os bens. Em menos de dez anos parado, mergulhou na pobreza e se afastou de sua família. Quem conheceu Jorge em suas duas fases garante que ele perdeu a alegria de viver. Forçado a procurar empregos em vários momentos, teve imensa dificuldade em abrir novas portas, uma realidade por demais contrastante com o seu auge, quando era uma atração especial e imprescindível. Uma entrevista ao jornal ‘O Globo’ em 1997 evidenciou o que os mais próximos já sabiam: não restou nada para o homem Jorge Mendonça. Humano que era, não conseguiu uma solução mágica e infalível para se recuperar.

É quase como um alter-ego. De uniforme, conquistou vaga em muitos sonhos de torcedores que voltavam aos melhores dias de suas vidas nas arquibancadas. Sem ele, foi derrotado por infortúnios e durante algum tempo alegou ter sido vítima de um golpe por parte da família de sua ex-mulher. Verdade ou não, Mendonça ficou preso a uma triste sina. Longe dos holofotes, definhou e viveu o outro lado da fama: a pobreza e o esquecimento completo. Vez ou outra alguém fazia uma matéria com ele para retratar o desespero de um homem que teve tudo e naufragou.

Primeiro foi a cerveja, depois a depressão, daí vieram os problemas naturais de alguém que não teve o direito de envelhecer em paz. O último brilho no olhar de Mendonça foi trabalhar com crianças em uma escolinha de futebol no Guarani. O salário bem modesto não incomodava Jorge, mas a rotina e a espiral descendente a que ele foi sujeito não davam sossego. Aos poucos, os efeitos da dependência alcoólica ficavam evidentes.

Problemas de saúde aceleraram o relógio e aos 51 anos, o ex-atleta era o protagonista de um drama irreversível. Sofreu um infarto enquanto se preparava para uma nova aula com os meninos do Guarani. Não voltou mais para ensinar um pouco de sua magia a aqueles garotos. A cerveja foi a sua última companheira.

Quantos outros caras não quiseram deixar seu nome na memória do esporte? Quantos outros não falham no início da estrada e se perdem entre más escolhas ou tragédias particulares? Enquanto nos perguntamos como é que se perde uma fortuna, a trajetória de Mendonça é autoexplicativa. Precisa-se de muito pouco para ir do topo ao fundo de um poço escuro. Essa não é a primeira e nem será a última história do craque que tinha o mundo a seus pés e acabou à margem de tudo que o futebol pode oferecer.

Mendonça não representa só um jogador que se apagou assim que saiu dos gramados. Foi um ser humano comum que por algum tempo viveu se equilibrando entre a linha tênue do sucesso e do fracasso, como todos nós eventualmente estaremos. A corda se rompeu para Mendonça, talvez mais cedo do que a maioria dos ex-atletas que se despedem sem saber o quanto fizeram a alegria das massas.

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