Os barrancos e a pequena grande torcida do Ecoestádio

Sábado foi dia de dar o pontapé inicial no Campeonato Paranaense de 2017. O Ecoestádio recebeu alguns torcedores para J. Malucelli e Cascavel. O tempo bom ajudou a atrair o público fiel do Jotinha e foi um bom cenário para a partida inaugural do Estadual. Estivemos lá e contamos um pouco sobre a atmosfera do Janguito.

Quem passa pela Rodovia do Café, em Curitiba, nem acha que está diante de um estádio. O shopping ao lado, o Barigui, é que chama a atenção por estar na beira da estrada. As duas entradas (para visitantes e os da casa) é que ajudam a esclarecer a localização para os mais perdidos. Sim, aquele clubinho fechado é um estádio, o Ecoestádio Janguito Malucelli, casa do J. Malucelli, que disputa a primeira divisão do Campeonato Paranaense.

Estava um tanto sol às 16h30, quando cheguei nas imediações. Já tinha visto fotos e lido relatos, mas estar lá é outra coisa. De pronto, me deparei com o barranco ilustre e seus assentos de plástico. Pouca gente fica sentada neles de fato durante a partida. Subindo as escadas, vê-se que o ambiente é tão ecológico quanto o nome diz: os dois coelhos passeando perto do campo e o mato alto entre um assento e outro dão conta de inserir o torcedor em um contexto de futebol um tanto rústico.

Em qualquer dia do ano poderia ser uma pelada comum, mas as placas de publicidade e as cabines de imprensa lembram que não, é um jogo do Paranaense. A primeira rodada coloca frente a frente o Jotinha e o Cascavel. O pessoal começa a chegar, não é aquela loucura de público, só foi quando o Atlético Paranaense mandou jogos no local, antes da reabertura da Arena da Baixada. Inclusive o Furacão até motivou a instalação de refletores e arquibancadas móveis (os refletores continuam lá).

Uma pergunta surge antes mesmo do começo do jogo. Por que um clube pequeno e de empresa como o J. Malucelli teria torcida? Quer dizer, além dos funcionários da firma, quem teria interesse em assistir estes jogos perdidos? Um aficionado ou outro por futebol paranaense, e só, não mais que dez pessoas e a imprensa, tirando, claro, os familiares de atletas e dirigentes. Eis que chega uma parte das torcidas (sim, existe mais de uma), fazendo barulho, trazendo um bumbo e uma faixa com o seu nome. A outra, que eu felizmente já conhecia por outros motivos sociais, chegou em cima da hora, com a bola já rolando.

Pergunto a Ivan Araújo, dias depois, por que é que ele escolheu o Jotinha. Nascido em Teresina, veio morar em Curitiba antes mesmo de completar um ano e não se sentiu tão acolhido pelas torcidas de Coritiba, Atlético e Paraná. A família nordestina e flamenguista compõe um plano de fundo curioso para a sociedade curitibana. Não é exatamente uma combinação comum para a cidade, mas talvez por isso mesmo é que a história seja tão interessante.

A “Jovem Jota”, uma das torcidas do clube ao lado da “Maluceloucos”, nasceu mais ou menos na mesma pegada que Ivan. Os cinco fundadores eram de famílias de outros estados. Mesmo que o Jotinha não possua identificação com imigrantes, o time pareceu a única alternativa destes torcedores para se misturar no cenário do futebol paranaense. Quem vive de futebol pode até não ser fanático por um dos times daqui, mas continuar acompanhando de alguma forma, mesmo que como expectador, preenche uma lacuna na alma, aquele vazio que é não poder ver o próprio time em ação ali no gramado.

Outros integrantes da Jovem Jota nem são necessariamente imigrantes. Uns torcem para o Coritiba, outros para o Atlético, mas doam um pouco de seu tempo para estar ali com o Jotinha. A maioria é composta por estudantes, o que tornou a proposta de cantar em apoio à equipe uma questão basicamente política. Cantos bem humorados e sem as tradições preconceituosas ao redor do Brasil chamam a atenção logo de cara.

Bem unidos lutemos, para chegar à final. E então nós seremos campeões do Estadual“, entoaram os meninos, em uma versão futebolística da canção “A Internacional”, famoso hino socialista. Depois, um pouco mais de devoção: “O Jotinha será abençoado, porque o senhor vai derramar o seu amor, derrama senhor, derrama senhor, derrama sobre o Jota seu amor“.

Há paródias para todos os gostos. E então, de repente, você se vê em uma grande ironia. Este pequeno grupo, assumidamente de esquerda, torcendo para um clube-empresa pertencente à família mais rica da cidade, que dirá do estado. Coube ao Jotinha, como intruso na história do trio de ferro curitibano, ser o refúgio de algumas das práticas abomináveis de torcidas organizadas, como a violência e as relações obscuras com práticas criminosas. Pelo menos para o pessoal da Jovem Jota, estar ali apoiando o time dos Malucelli é uma forma de viver o futebol como não seria possível nos estádios mais tradicionais. Tudo isso sem ter a voz perdida entre o barulho das maiores organizadas do estado.

Claro que é muito mais bonito e completo estar em uma Arena da Baixada ou um Couto Pereira lotado em dia de decisão, mas marcar presença entre os poucos representantes da Jovem Jota e tentar emplacar cantos criativos entre os xingamentos aos  adversários tem seu valor. Logicamente que cornetamos qualquer cara de aurinegro que tocasse na bola, xingamos o juiz, azucrinamos o goleiro rival, mas nada disso da forma tosca que as grandes utilizam para este princípio.

Evidentemente, essa postura diferenciada não impediu que integrantes da outra torcida lamentavelmente se propusessem a gritar “bicha” durante tiros de meta ou “fulano viado” para tal jogador do Cascavel. É um longo trabalho até convencer este pessoal de que se trata de um comportamento ultrapassado e execrável, mas alguns deles simplesmente não se importam e continuam perpetuando essas idiotices. Felizmente, dois ou três não representam a maioria dos que apoiam o Jotinha em cada partida.

O jogo

A pequena grande torcida do Jotinha é a força que o time recebe durante os 90 minutos. Cada um tem seu grito particular, como o lateral Cristóvão, que “é dibrador”. Vez ou outra, Cristóvão se empolga com o incentivo e realmente parte para driblar adversários. É um showman. Assim como Getterson, o “Gettgol”, que quase assinou com o São Paulo no ano passado, mas acabou vetado por ter histórico de tuitar coisas que só um corintiano fanático diria. O atacante passou alguns meses no FC Dallas e retornou ao Jotinha. Foram dele os dois primeiros gols contra o Cascavel, no sábado, em uma atuação sublime.

O terceiro foi de Tomás, meia com passagens pelo Botafogo, que durante todo o primeiro tempo dominou as ações no setor e chutou duas bolas na trave, além de levar a galera à loucura com fintas e passes milimétricos. Não à toa, é o camisa 10 e o grande artífice das ofensivas do Jotinha. Revelado pela base do Atlético, ele está em sua terceira passagem pelo clube. “Tomás pega a bola, o Tomás deita e rola, e só dá Tomás”, cantavam.

Com um a zero no placar a favor do time da casa, a irreverência começou a aparecer. Gritos de “Jota líder!” aqueceram o clima para o hilário “Vou torcer pro Jota fumando fino, e o Mundial é o meu caminho!” É impossível não rir quando isso acontece. Até os Beatles foram homenageados com o “Na, na, na, na-na-na-na, na-na-na-na, Jotaaaa!“. Parece torcida de time grande, mas são só 10 ou 15 caras nessa missão todo fim de semana em que o Ecoestádio abre as portas para o futebol.

No fim das contas, o ambiente só foi hostil para os jogadores do Cascavel, como manda o figurino. A torcida visitante, que estava em pequeno número e ali do outro lado, viu o jogo completamente despreocupada e sem qualquer incômodo ou ofensa, que dirá qualquer ameaça de violência. Em um mundo ideal, é assim que deve ser, seja no Ecoestádio ou no Maracanã.

Quando não se tem uma torcida oficial, estas 10 ou 15 vozes enfatizam que o futebol não se limita aos grandes públicos ou aos duelos entre forças tradicionais. Não muito longe da Serie A do Brasileirão existe uma forma alternativa de curtir o que o esporte pode oferecer e é tão interessante quanto sentar o traseiro nas novas e caras arenas ao redor do país.

Ali no Ecoestádio, ficar no barranco é o único jeito. E é bem sincero, apesar dos pernilongos que atormentam e deixam as marcas na pele. Não dava para esperar outra coisa no meio do mato. Se você por um acaso tiver a ideia de conhecer o local, vá de calças e mangas longas. Ou leve um repelente. Mas vale a pena.

Um pensamento em “Os barrancos e a pequena grande torcida do Ecoestádio”

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