O passado de Luís Enrique como atleta do Real Madrid

Fortemente ligado ao Barcelona pela sua passagem como jogador e hoje técnico, Luis Enrique tem um histórico marcante pelo grande rival dos catalães. Por cinco anos, o meia defendeu o Real Madrid e nunca contou com a simpatia das arquibancadas do Santiago Bernabéu, apesar de ter conquistado títulos nos anos 1990.

O futebol espanhol já conhecia bem a capacidade do meia Luis Enrique em 1991, quando ele conduziu o modesto Sporting Gijón a uma classificação para a Copa Uefa. Versátil, era o artífice de muitos gols e jogadas de efeito. Construiu sua reputação com belos lances de habilidade, controle de bola e garra, muita garra.

Após o seu terceiro ano como profissional, o Real Madrid lhe fez um convite irrecusável. Ele seria um dos pilares da nova equipe madridista que estava se formando para tentar barrar o Dream Team do Barcelona montado por Johan Cruyff. E assim, em 1991, Lucho vestia pela primeira vez a camisa da equipe merengue, ainda que em uma posição diferente da que estava acostumado. O meia central e de muita intensidade foi deslocado para a defesa, como um ala responsável por desafogar o jogo pela direita.

Muito mais modesto do que o timaço dos anos 2000, o Real contava com Míchel, Prosinecki, Hagi, Milla e Gordillo no meio-campo. A concorrência que deveria assustar o novato vindo de Gijón não foi suficiente. Ele jogou 41 das 55 partidas do Real na temporada e marcou cinco gols.

A temporada inaugural de Lucho no Santiago Bernabéu acabou em frustração para o Real, que foi vice-campeão na Liga e na Copa do Rei, em final contra o Atlético. Schuster e Futre marcaram os gols na decisão. Para o jogador, em especial, a improvisação como lateral resultou em um péssimo aproveitamento de suas competências. Foi assim até 1994, quando Jorge Valdano foi nomeado como técnico. Pela Liga, o Barça de Cruyff levou o caneco por apenas um ponto de diferença. Isso não abalou Luis, que foi ainda mais importante na campanha de 1992-93.

As 48 atuações de um Lucho ajudaram o Real a alcançar outra vez o segundo lugar no Espanhol, mas a compensação veio na Copa do Rei, em uma vitória por 2-0 contra o Zaragoza. Enrique ficou de fora, por lesão. Butragueño e Lasa marcaram os gols da vitória. O time parecia no caminho certo para finalmente derrubar o Barça, mas algo se perdeu entre o primeiro e o segundo semestre de 1993.

O Real fracassou em todas as frentes, exceto na Supercopa, que abriu a temporada contra o Barça. Um quarto lugar na Liga, uma campanha de quartas de final na Recopa Uefa e na Copa do Rei colocaram muita pressão no ambiente madridista. Lucho, que jogou 40 vezes em 1993-94, teve uma estatística de gols bem mais modesta, com apenas três, já que estava ocupado demais voltando para marcar.

Um dos gols de Enrique em 1993-94 aconteceu no dérbi contra o Atlético pelas oitavas de final da Copa do Rei. Na fase seguinte, uma surra do Tenerife acabou com o sonho do bicampeonato no torneio. E não foi só isso: o Barcelona enfiou 5-0 nos blanquillos pelo clássico em janeiro de 1994, com show de Romário, piorando ainda mais as coisas para os merengues.

A surra e a vingança

O tempo passava, Lucho buscava mais espaço, mas ainda faltava algo. Com Zamorano inspirado e marcando 28 gols, o Real voou em 1994-95, desbancando o Barça para chegar ao seu 26º título da Liga. A agonia acabava ali. A presença de Brian Laudrup no elenco deu mais maturidade ao plantel comandado por Valdano. Finalmente posicionado como armador no centro do campo, Luis Enrique floresceu como grande craque.

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Laudrup, que estava em campo pelo Barça no 5-0 de 1994, deu aos torcedores do Real o gostinho da vingança por “La Manita” como um verdadeiro maestro. O troco do Real veio na mesma moeda, um ano depois, dentro do Bernabéu, em janeiro de 1995: Zamorano marcou três vezes, enquanto Lucho e Amavisca fecharam a goleada, que certamente coroou a conquista da Liga.

A última temporada de Luis Enrique pelo Real Madrid foi tão melancólica quanto sua saída no meio do ano, em 1996. A chegada de Dejan Petkovic, Freddy Rincón e Juan Esnáider não deu jeito no elenco, que foi abalado por lesões e trocas constantes de técnico. Três comandantes passaram pelo banco: Jorge Valdano, Arsenio Iglesias e Vicente Del Bosque. Nenhum deles deu jeito na casa e o clube ficou apenas em sexto na Liga, caindo nas quartas de final da Liga dos Campeões (para a Juventus) e ficando apenas nas oitavas da Copa do Rei. Tudo errado.

O fim do contrato e a nova vida no Camp Nou

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Para Lucho, a falta de competitividade da equipe e os meros três gols ao longo da temporada serviram de motivação para procurar outro desafio na carreira. Sem ter seu contrato renovado após longas discussões com a diretoria, foi liberado. Só que ninguém esperava que ele fosse para o Barcelona, justo o Barcelona.

Apresentado em junho de 1996 no Camp Nou, o jogador iniciava um novo e curioso período em sua vida. Como a torcida não o aceitou em seus primeiros meses, ele precisou jogar o dobro para conquistar a massa blaugrana. Quando conseguiu, embalou de vez. Em 1996-97, foi autor de 18 gols e superou todos os prognósticos a respeito de seu talento. Sem falar que encontrou nos mesmos torcedores do Barça o conforto que nunca sentiu quando defendia o Real.

Foram oito anos de Barcelona, cinco títulos importantes, um bom tempo como capitão e referência no meio-campo. Vestindo azul e grená ele finalmente pôde encontrar seu melhor futebol, sem o desperdício a que foi submetido em seus primeiros anos de Real Madrid. Alguns rompimentos acabam sendo benéficos em longo prazo, o que prova que ele estava corretíssimo ao virar a casaca em 1996. Mas é claro que os madridistas não pensam desta forma…

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