O último Milan “faz-me rir” antes do super time de Berlusconi

Quando uma equipe grande monta um elenco decepcionante ou faz uma campanha abaixo da expectativa, há a possibilidade de que esta geração fique marcada na história como uma das piores. Evitando possíveis injustiças, mas analisando friamente, o Milan montou uma baba antes de entrar na Era Berlusconi. O time de 1985-86 foi bem bizarro e teve problemas extra-campo.

A montanha russa a que o Milan foi submetido nos anos 1980 é digna de estudo. Afinal, no começo da década, o clube esteve envolvido no escândalo do Totonero, foi rebaixado e voltou rapidamente à elite. No entanto, como o nível de competitividade aumentou bastante naquela década, graças ao forte investimento financeiro nos clubes e a presença de astros mundiais, os rossoneri patinaram um pouco até a chegada do magnata Silvio Berlusconi.

Depois do retorno à Serie A, em 1983, foram quatro campanhas meia-boca por parte do Diavolo. Em 1984, o técnico Nils Liedholm ficou responsável por tentar reconduzir o time às glórias. Um ano antes, o sueco comandou a Roma ao scudetto e ainda em 1984, disputou a final da Copa dos Campeões Europeus contra o Liverpool, mas perdeu nos pênaltis em pleno Olimpico. Ídolo do clube, “Lido” estava muito prestigiado no futebol italiano por sua grande passagem na Roma. Quando jogador, atuou de 1949 a 61 com a camisa rossonera. Era uma questão de identificação. Nils também havia treinado o Milan entre 1977 e 79.

O elenco de 1985-86 não era exatamente o sonho da torcida. Enquanto os rivais ostentavam jogadores fora de série como Michel Platini, Diego Maradona, Karl-Heinz Rummenigge, Bruno Conti, entre outros, o Milan se contentava com o goleiro Giuliano Terraneo, a espinha dorsal da super defesa dos anos 1990 com Franco Baresi, Mauro Tassotti, Paolo Maldini (recém-promovido ao profissional) e Alessandro Costacurta. Destes craques, apenas Tassotti e Baresi eram consolidados. Costacurta e Maldini ainda eram meninos a serem lapidados.

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O meio-campo era bem mais modesto. Agostino Di Bartolomei, ex-Roma, Alberigo Evani e o inglês Ray Wilkins eram os destaques. Na frente, um trio de peso: Mark Hateley, Paolo Rossi e Pietro Paolo Virdis, artilheiro milanista durante quatro temporadas seguidas entre 1985 e 88. No papel, uma equipe de valor. Na prática, as coisas foram um pouco diferentes.

Wilkins e Hateley: o Milan de repente falava inglês e usava um mullet inconfundível

Com este elenco, o Milan não conseguiu encaixar sequer uma série de três jogos com vitórias. Sempre que o time ameaçava engrenar, tropeçava em seguida e deixava a desejar. Foi assim na estreia contra o Bari e no triunfo ante o Lecce, ambos por 1-0. Na terceira rodada, a Fiorentina de Giancarlo Antognoni passou o carro em Florença e fez 2-0 nos visitantes.

De todos os adversários considerados grandes, o Milan conseguiu apenas bater a Viola, em revanche pela derrota no primeiro turno. Foi no sufoco pela rodada 18, com o placar de 1-0 no San Siro. De resto, os duelos contra Juventus, Inter, Roma e Napoli foram bem frustrantes. A incapacidade de suportar o jogo destes adversários marcou a campanha vacilante dos meninos de Liedholm.

A pior sequência foi a seca de vitórias entre as rodadas 10 e 16, com cinco empates e duas derrotas (para Roma e Napoli, fora). No segundo turno, aconteceu algo tão trágico quanto: quatro derrotas em série para Roma, Inter, Napoli e Juventus. Pela margem mínima, é verdade, mas ainda assim foram derrotas que fizeram do Diavolo uma piada na competição. Um empate bem murcho contra a Atalanta em Milão encerrou a participação do clube na Serie A. O placar de 1-1 serviu para assegurar a sétima posição na tabela, mas ninguém se animou com isso.

Para se ter uma ideia da ineficiência ofensiva do Milan, o artilheiro do ano foi Mark Hateley, que fez oito gols, seguido por Virdis, que anotou seis. A marca acabou em 26 gols em 30 jogos, algo impensável para uma equipe tão tradicional. Por um ponto os rossoneri não beliscaram uma vaga na Copa Uefa, na qual a Inter levou a melhor ao somar 32.

Na Copa da Itália e na Copa Uefa daquela temporada, as coisas acabaram cedo para Liedholm e seus pupilos. Pela Coppa, o algoz foi o Empoli, enquanto na Uefa, o belga Zulte Waregem se encarregou de eliminar os italianos com uma vitória por 2-1 em pleno San Siro. A temporada terminou com um gosto amargo de frustração e mãos vazias. O que mais faltava?

A brecha para Berlusconi e a nova era de sucesso

Além de ser pouco efetivo em campo, o time rubro-negro estava passando por apuros administrativos. O presidente Giuseppe Farina se afastou do cargo enquanto se exilava para escapar de punições por sua má administração. Ele chegou a receber um mandado internacional de prisão enquanto se refugiava na África do Sul, mas conseguiu escapar da cadeia após fazer greve de fome e negociar sua liberdade com a promotoria italiana.

Farina foi o responsável por contratar Paolo Rossi em 1985, quando o artilheiro estava em declínio pela Juventus. Mas quando a temporada 1985-86 se aproximava do fim, “Giussy” era suspeito de ter desviado dinheiro dos cofres do clube e ficou alguns meses fora de cena até que Silvio Berlusconi adquirisse o Milan. Giuseppe declarou meses depois que Berlusconi não lhe deu nenhum dinheiro no processo, apenas chegou e foi tomando conta de tudo. Inconformado com o fato desta saga ter se tornado pública, Silvio fez um cheque para Farina e resolveu a questão.

Fato é que o Milan não havia pago impostos no primeiro semestre de 1986 e por isso estava em uma crise tão grande. Berlusconi se aproveitou desta irregularidade para tirar Farina e sua diretoria da agremiação, tornando-se o presidente e o investidor responsável pela fase milionária e vencedora ao fim daquela década.

Com mão de ferro, muita grana injetada, novos jogadores (Giovanni Galli, Dario Bonetti, Roberto Donadoni e Daniele Massaro) e Fabio Capello como interino após a saída de Liedholm, o Milan sofreu mais um pouco em 1986-87, mas chegou em quinto na Serie A. A vaga na Copa Uefa seguinte se deu em um duro play-off contra a Sampdoria. A partir de 1987 é que o panorama mudou para melhor, e em definitivo.

O promissor Arrigo Sacchi estava em seu segundo trabalho como treinador. A passagem pelo Parma encantou Berlusconi, que o levou como a grande aposta para fazer do Milan uma potência. O começo foi difícil, mas Sacchi tinha mão de obra qualificada para a missão. As chegadas de Carlo Ancelotti (Roma) de Ruud Gullit (PSV) e Marco Van Basten (Ajax) impulsionaram o plantel, que foi tomando a cara do treinador.

Com gosto pelo futebol bonito e ofensivo, o Milan só perdeu duas partidas naquela Serie A, uma delas no tapetão. No duelo em casa contra a Roma, em dezembro de 1987, dois rojões atirados pela torcida rossonera atingiu o goleiro adversário, Franco Tancredi. Inconsciente, o arqueiro teve uma parada cardíaca e teve de ser salvo da morte pelos médicos romanistas em campo. O Milan venceu por 1-0, mas o resultado foi alterado para 2-0 para a Roma em virtude daqueles acontecimentos.

À parte disso, estava tudo indo muito bem para o novo Milan. O título italiano em uma arrancada incrível decretou o início de uma equipe arrasadora e que marcou época. Mas isso é história para outro dia.

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