A cilada que levou Cruyff ao futebol dos Estados Unidos

A carreira de Cruyff parecia perto do fim. Quando deixou o Barcelona, em 1978, o holandês planejava aproveitar o resto de sua juventude com a família. Ele não tinha muito mais a fazer no esporte, ganhou quase tudo que podia. Mas um investimento errado e a perda significativa de capital quase o levou à falência, forçando seu retorno no ano seguinte, pelo Los Angeles Aztecs.

Cruyff ainda era o atleta mais desejado do futebol, mesmo pensando em parar. A grande sacada financeira para o craque -que podia até parecer, mas não era exatamente um milionário- foi um investimento em fazendas de porcos na Holanda. Enganado por um golpista, Johan botou quase toda a sua grana no negócio e viu sua fonte de dinheiro secar em um piscar de olhos.

Não era o único caso de monstro sagrado da bola que se via entre a cruz e a espada por não conseguir gerir suas riquezas. Mas Cruyff teve uma oportunidade incrível de se reerguer e voltar a fazer o que sabia melhor: liderar um time com a bola nos pés. E o futebol acabou salvando a sua pele e seu patrimônio depois de tudo. Além da besteira com a tal fazenda de porcos, Johan precisou pagar quase um milhão de dólares à Receita da Espanha por impostos atrasados. A situação estava calamitosa.

Para quem saiu de uma infância pobre e com as pernas defeituosas, Cruyff já representava de fato uma história de superação por jogar como jogou e encantar o mundo, virar uma estrela, uma referência em quase tudo que se pode dizer sobre o futebol. Contudo, mesmo os gênios sentem uma necessidade de superar seus próprios feitos. A perspectiva de dificuldade por ter pendurado as chuteiras fez nascer em Johan uma urgência de cuidar melhor dos aspectos que cercavam sua vida pessoal.

Depois da saída de Rinus Michels do Barça, rumo aos Estados Unidos, o fantástico camisa 14 desistiu de ficar em casa esperando a tragédia lhe fazer uma visita. Seguindo o caminho do seu mentor, o craque foi para Los Angeles também, era o novo astro da companhia da NASL.

A volta do fenômeno nos Estados Unidos

No fim da década de 1970, não eram poucos os craques que emprestavam seu talento para projetar internacionalmente a marca da NASL, a liga dos Estados Unidos. Pelé fez a mesma coisa em 1976, quando resolveu retornar ao esporte para defender o New York Cosmos. Acompanhado por Carlos Alberto Torres e Giorgio Chinaglia, o Rei brilhou por duas temporadas e foi um verdadeiro sucesso.

Cruyff poderia ter sido o substituto ideal de Pelé, mas tudo não passou de um breve flerte entre eles que durou apenas alguns amistosos. Como o holandês se recusou a firmar contrato porque queria mandar em tudo, os diretores optaram por não se curvar aos seus desmandos e o liberaram para os Aztecs.

George Best estava na mesma empreitada. O ídolo boêmio do Manchester United também atraía certa atenção. O norte-irlandês jogou no L.A Aztecs de 1977 a 1978, antes de sair para o Fort Lauderdale Strikers. Para continuar tentando causar impacto e ser a segunda força nacional, os Aztecs ousaram ao trazer Michels e Cruyff. A transferência dupla de fato trouxe publicidade e dobrou o público no Memorial Coliseum.

Esportivamente, Cruyff ainda estava inspirado. Não se perde a facilidade em dominar ou tocar a bola com o tempo. Se contra defensores qualificados ele já fazia a festa na Europa, imagine então suas habilidades testadas contra os pangarés norte-americanos, que ainda estavam sendo alfabetizados no mundo da bola.

Johan ganhou dinheiro à beça pelos Aztecs e retribuiu isso com grandes atuações. Mas o time simplesmente não estava à sua altura e ele encerrou a primeira temporada sem títulos, apenas com um troféu de MVP da liga. Aos 32 anos, em mais um contrato absurdo para os padrões da época, Cruyff assinou com o Washington Diplomats, deixando o Aztecs (sob nova direção da Televisa) à mercê da desgraça. A gestão da emissora se provou desastrosa e em 1981 o clube de Los Angeles fechou as portas, sete anos após a sua fundação.

O inimigo íntimo do técnico

Jopi no Diplomats: a grana alta em salários quase quebrou o clube capitolino

Apesar de não viver uma fase saudável economicamente, o Washington Diplomats ofereceu um mega salário para que Cruyff fosse seu jogador em 1980. Um milhão de dólares pela transferência e altos ordenados (600 mil por ano) fizeram dele o carro-chefe da equipe da capital americana. E por mais que ele ainda fosse bem competitivo, não poderia se dizer o mesmo de seus colegas. Que time no mundo teria alguém à altura de Cruyff? A resposta era evidente.

De tanto carregar o time nas costas, Johan foi se cansando e a idade já não o favorecia mais. Ele fez uma temporada excelente, mas falhou outra vez em ser campeão. Os companheiros de Diplomats poderiam até ter achado bom ver Cruyff se despedir no começo da temporada de 1981.

O caráter difícil e temperamental do holandês trouxe vários problemas de vestiário e a começar pelo treinador, ninguém suportava entrar em discussões com o craque, que sempre queria ter a última palavra sobre tudo. E então, Jopi pegou novamente suas coisas e saiu dos Estados Unidos.

“Se você quiser que eu jogue com uma perna só, tudo bem, eu faço isso. Mas aí quando eu começar a jogar com as duas de novo, as pessoas vão ver de quem era a culpa”, disse Cruyff em um destes memoráveis bate-bocas com o treinador Gordon Bradley. A relação era tão bizarra que atletas do Washington na época atestam que o técnico se comunicava em segredo com eles para não ter nenhuma interferência de Cruyff. Não havia clima nenhum para serem campeões e nem mesmo a pura predestinação de Cruyff foi suficiente para isso.

O desfecho foi um vice-campeonato de conferência diante do mesmo Aztecs que o deixou partir ao fim de 1979. Não houve Diplomats em 1981. A Madison Square Garden Corporation alegou dívidas de mais de 6 milhões de dólares na gestão e fechou a franquia. O Detroit Express tentou manter o nome e a estrutura da agremiação, mas o esforço foi por água abaixo ao fim do ano.

Cruyff foi embora para a Espanha, onde defendeu o Levante por 10 jogos na temporada 1980-81. Sem deixar tanta saudade assim, assinou com o Ajax e teve uma segunda passagem discreta em comparação ao que fez na década anterior. Dois anos depois, brigado com os dirigentes, seguiu para o Feyenoord e teve uma despedida digna de sua maestria.

O dinheiro nunca mais foi problema, mas isso não quer dizer que ele tenha abandonado completamente o futebol. A segunda fase de Cruyff no mundo da bola foi no banco de reservas, onde ele continuou inovando. O Dream Team do Barça que o diga.

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