Como Zdenek Zeman preparou a Lazio para o scudetto em 2000

Revolucionário ou louco? Injustiçado ou superestimado? É difícil achar um consenso a respeito da passagem meteórica de Zdenek Zeman pelo futebol italiano. O velho tcheco trouxe uma alternativa às táticas defensivas que reinaram no país, mas sua obsessão pelo ataque custou caro e não trouxe grandes títulos. Na Lazio, Zeman deixou o trabalho pronto para que anos depois Sven-Goran Eriksson assumisse e levasse a equipe ao scudetto.

Desde a década de 1970, o tcheco Zdenek Zeman tentou montar uma equipe que fosse contra tudo o que estava em vigor no futebol italiano. Residente do país desde a década de 60, ele conhecia bem os times locais e queria trazer algo novo, impactante e revolucionário para fazer sucesso.

LEIA MAIS:O homem que ousou enfrentar o catenaccio. E perdeu

Para Zeman, a melhor forma de ver um time jogar era voltado ao ataque. Mas isso só funcionou efetivamente com o Foggia, ao fim da década de 1980. Graças ao técnico e seus métodos ousados, o pequeno clube ascendeu da terceira à primeira divisão e encantou com a facilidade de chegar ao gol adversário. Não importava que o elenco fosse bem modesto: o jogo era mortal e envolvia os grandes da Serie A. De 1989 a 94, Zeman revelou jogadores interessantes para o cenário italiano e virou um dos técnicos mais desejados, à base de um 4-3-3 fumegante. Há quem diga que toda a filosofia de Zeman está norteada por táticas incorporadas do handebol.

Fumegante também era Zeman, que sempre teve problemas para montar suas defesas e provavelmente compensava este nervosismo das partidas tragando vários cigarros no banco de reserva. O hábito o acompanha até hoje. Enquanto o seu Foggia alcançava a Copa Uefa por três temporadas seguidas nos anos 90 e virava um fenômeno cult, craques como Petrescu, Baiano, Signori, Shalimov e Di Biagio passaram por lá. Em 1994, grande demais para continuar no comando dos rubro-negros, o tcheco assumiu a Lazio.

O início do império de Zeman

Na equipe biancocelesti, Zeman reencontrou o zagueiro Chamot, Signori e Rambaudi, seus comandados nos tempos de Foggia. E o impacto foi imediato, muito porque o plantel laziali era consistente o bastante para permitir invenções na formação. Teria sido muito melhor para Zdenek se Paul Gascoigne estivesse em boa forma, mas aquela era a temporada de despedida de Gazza do clube romano, já que o inglês sofreu com uma fratura na perna e não se adequou aos princípios de preparação física impostos pelo chefe. Meses depois, Gazza foi para a Escócia jogar pelo Rangers.

De todo modo, ainda havia muita gente boa para fazer a diferença: o jovem Alessandro Nesta, cria da base, era um destes. Lançado por Zeman aos 19 anos, fez sua estreia na temporada anterior, mas em 1994-95 é que explodiu como um defensor implacável, capaz de dar desarmes antológicos. O ataque era do jeito o velho gostava: Casiraghi, Boksic, Signori e Rambaudi.

Estes caras foram cruciais para uma campanha empolgante dos aquilotti, que ficaram em segundo lugar na Serie A, 10 pontos atrás da Juventus, com o melhor ataque (69 gols), dez a mais do que a Juve produziu ao longo da competição. Zeman conseguiu provar seu ponto: um time sem medo de perder tem grandes chances de ser campeão ou fazer história. Na armação, a Lazio possuía caras talentosos como Aron Winter, Roberto Di Matteo e Diego Fuser, que colaboravam demais com a fluidez proposta pelo treinador. Goleadas insolentes contra Milan, Inter e Juventus reforçaram que a magia do tcheco estava acontecendo. Fiorentina e Foggia (8-2 e 7-1) também impressionaram o grande público.

Um ataque imparável

Zeman conseguiu fazer quase a mesma coisa em 1995-96. Terceiro lugar na tabela, o melhor ataque (66 gols) e o artilheiro, Signori, que anotou 24 tentos. O elenco teve a adição de Guerino Gottardi, que mais tarde seria importante para as ambições da equipe. Com Nesta ganhando respaldo na zaga e virando titular absoluto, a defesa ganhou uma ótima referencia. Durante toda a Serie A a Lazio perseguiu Milan e Juventus, mesmo com tropeços constantes. A irregularidade começou a marcar o trabalho do tcheco.

A defesa, mesmo bem postada e liderada por Nesta, passou a mostrar sinais de instabilidade. Isso, logicamente, ficava em segundo plano toda vez que a Lazio castigava alguém: 4-0 na Juve, 6-3 na Sampdoria, 4-0 no Cagliari, 4-3 no Bari e 4-0 na Fiorentina foram alguns dos placares emblemáticos naquela edição da Serie A.

A conta veio para Zdenek

O último ano do velho fumeta na Lazio foi na mesma toada. Novamente com uma marca expressiva de gols (54, a segunda melhor marca atrás da Sampdoria), a equipe romana parecia mais firme, mas os 10 empates ao todo na Liga impediram uma classificação melhor.

Quando chegaria a bonança? Quanto mais os torcedores poderiam esperar por algo a mais do que um vice ou uma vaga europeia? Bem, a diretoria se cansou de eliminações nas competições de mata-mata e demitiu Zeman em janeiro de 1997, após a rodada 18, quando a Lazio foi derrotada em casa pelo Bologna. Dino Zoff assumiu a bomba até o fim da temporada e a verdade é que as coisas melhoraram muito depois disso. Zoff arrumou a casa, organizou melhor a defesa e depois deu lugar a Sven-Goran Eriksson.

Por mais que a capacidade ofensiva tivesse sido o grande ponto da passagem de Zeman pelos aquilotti, a pouca atenção para a defesa custou pontos e eventualmente vitórias cruciais ao time biancocelesti. Estava claro ali naquele momento que Zdenek precisava encontrar um jeito de não deixar a retaguarda tão abandonada enquanto executava seus planos de um ataque massacrante contra os adversários. E não se pode dizer que os outros concorrentes da Serie A não manjaram o esquema. O problema é que tantos anos depois, ele continuou repetindo os erros de outrora.

Eriksson e o sonhado scudetto

Se a Lazio não queria mais Zeman, a Roma estava disposta a crer na versatilidade do velho. Com Eriksson no comando, o lado celeste da capital pode até ter se frustrado com o sétimo lugar na Serie A em 1997-98, mas a compensação veio em forma de título na Copa da Itália e o vice da Copa Uefa. A chave para a arrancada? Pavel Nedved, conterrâneo de Zeman, que já havia dominado o setor de meio-campo na temporada anterior.

Para Eriksson, as coisas ficaram mais fáceis em 1997-98 porque houve um alto investimento no elenco. Chegaram Giuseppe Pancaro para a defesa, Vladimir Jugovic, Giorgio Venturin e Matías Almeyda para o meio e o veterano Roberto Mancini para o ataque. Peças que mudaram completamente o patamar da agremiação.

Da Copa da Itália para o título na Recopa Uefa em 1998-99 e novo vice-campeonato na Serie A. Eriksson convenceu bem no cargo e ainda contou com outros reforços de peso como Fernando Couto, Sinisa Mihajlovic, Sergio Conceição, Attilio Lombardi, Dejan Stankovic, Roberto Baronio, Iván De La Peña, Marcelo Salas, o artilheiro Igor Protti e os igualmente matadores Kennet Anderson e Christian Vieri.

De equipe promissora nas mãos de Zeman a potência nacional com Eriksson, a Lazio voou ainda mais alto em 2000, quando finalmente alcançou o título da Serie A e dobrou sua glória com a Copa da Itália. Diego Simeone, Juan Sebastián Verón, Simone Inzaghi e Fabrizio Ravanelli foram as principais contratações que deram aos laziali a chance de sonhar com algo mais.

Enquanto Zeman comia o pão que o diabo amassou e conduzia a equipe romanista a ótimos resultados, Eriksson contou com o impulso financeiro da patrocinadora Cirio ao fim da década para construir e ajeitar seu esquadrão. O sueco saía triunfante de sua passagem pela capital italiana, contrastando fortemente com a queda de prestígio de Zdenek, que pode até ter colocado Francesco Totti no papel de protagonista giallorosso, mas não foi capaz de levar a Roma além do quarto lugar em duas temporadas. O tcheco perdeu o emprego no primeiro semestre de 1999 e viu Fabio Capello assumir o comando. Em 2001, a Roma foi campeã italiana.

O revolucionário fumante que encantou a Itália com suas táticas kamikaze até hoje não conquistou nenhum título de primeira divisão ou qualquer Copa. Passou outra vez pela Roma e o resultado foi um verdadeiro desastre. O gênio incompreendido ficará na história do futebol italiano como um grande quase.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *