Xabi Alonso: os últimos dias de um volante de classe excepcional

Entrando no último semestre de sua carreira, o volante Xabi Alonso deixará o futebol aos 35 anos, ao fim da temporada. Parte crucial de times vencedores como a Espanha, o Liverpool, o Real Madrid e o Bayern, o espanhol é um dos grandes futebolistas do nosso tempo.

Classe, toque de bola refinado e a presença em times que marcaram época nos anos 2000. Xabi Alonso reuniu ótimos atributos para um meio-campista e fez muito sucesso ao longo de quase 18 anos de carreira. Da base da Real Sociedad para o mundo, o filho mais famoso de Miguel Alonso ganhou a Europa rapidamente, com rara humildade e discrição.

O início da carreira de Xabi já demonstrava que, entre os garotos formados nas canteras da Real Sociedad, o nome dele seria para sempre lembrado. A questão é que ele se preparou bem desde os anos 1990 para isso. Em 1999, lançado ao time B dos Txuri-urdin, demonstrou enorme tranquilidade para lidar com os grandes desafios de um futebolista jovem. Mal tinha 18 anos e esbanjava visão de jogo, qualidade no passe. Logo virou uma peça essencial na equipe profissional, pela qual estreou em 2000 após rápido empréstimo ao Eibar, de forma que tivesse mais chances.

A tradição dos Alonso em revelar bons jogadores já estava ficando evidente com Xabi, o terceiro membro da linhagem no esporte. O pai, Miguel Ángel Alonso, o “Periko”, fez carreira por Tolosa, Real Sociedad, Barcelona, Sabadell, aposentando-se em 1988. Miguel disputou a Copa de 1982 pela Espanha e também tinha características defensivas, o que explica a aptidão do seu segundo herdeiro pela posição.

Periko eventualmente assumiu o comando da Real Sociedad como interino, mas a agremiação vivia fase complicada na virada para a década de 2000. O filho subiu para o time principal e tomou conta do meio-campo. Em janeiro de 2001, Xabi tinha apenas 19 anos e foi eleito capitão da equipe já sob a tutela de John Toshack, o que reforçava o seu papel de liderança dentro dos vestiários. Com o talento em pleno desenvolvimento, Alonso conquistou não só o lado azul do País Basco, mas também alguns admiradores em toda a Espanha.

O segundo lugar na Liga em 2002-03 com a modesta equipe da Real Sociedad impulsionou de vez a carreira de Xabi, o cérebro de uma equipe que contava com Nihat e Kovacevic como dupla de ataque. Foi a melhor campanha do clube desde o título espanhol em 1982. Não era nenhuma surpresa que ele entraria para o grupo dos mais desejados da Europa. E em 2004, uma proposta do Liverpool mudou definitivamente o seu patamar.

Ao lado de Luís García, Xabi posa orgulhoso com a camisa dos Reds. Espanhóis dominaram Anfield naquele período

Xabi chegou como promessa por 10 milhões de libras aos Reds e viveu grandes anos. Comandado por Rafa Benítez, o meia ganhou liberdade e importância como titular do Liverpool, que em 2005 levantou o título europeu na grande façanha contra o Milan, em Istambul. Os italianos abriram 3-0 de vantagem na primeira etapa, mas sucumbiram e levaram o empate ao longo do segundo tempo. Alonso fez o terceiro, de pênalti, em rebote de Dida. O resto é história.

Cinco anos na Inglaterra definitivamente fizeram dele um astro. A dupla com Gerrard no meio-campo marcou época e deixa saudade em qualquer torcedor dos Reds que viveu intensamente o ano de 2005. O título da Eurocopa em 2008 tirou a Espanha de uma longa fila e também ajudou a aumentar a moral de Xabi. Era questão de tempo para que ele alçasse voos maiores. E o Real Madrid entrou na jogada para tirá-lo do Liverpool, por 30 milhões de libras. Uma desavença com Benítez em Anfield facilitou a transferência, que não necessariamente refletia o plano do meia. Um pouco contrariado, retornou à Espanha para uma nova missão.

De 2009 em diante, o Real de Florentino Pérez iniciou seu plano de retomar o domínio europeu. Com cinco anos de casa, Xabi virou queridinho da torcida, manteve o alto nível e levantou títulos como o Espanhol em 2012, a Copa do Rei em 2011 e 2014 e a Liga dos Campeões em 2014, seu último título pelos merengues. Entretanto, Alonso não atuou na final diante do Atlético por estar suspenso. A partida contra o Bayern, nas semifinais, impediu que ele estivesse em campo para vencer sua segunda decisão continental. Uma linha torta do destino.

Ao fim do contrato, Xabi pegou suas malas e fez outra mudança grande. Foi jogar justamente no Bayern para substituir Toni Kroos, que seguia para o Real. A troca se mostrou muito mais valiosa para o alemão, que se consolidou com um craque fora de série. Mas isso não quer dizer que Alonso tenha ido mal. Muito pelo contrário. Ele trocou a possibilidade de um tricampeonato europeu pela soberania dentro da Alemanha com Pep Guardiola no banco de reservas. Querendo ou não, Xabi ainda escapou de reencontrar Benítez no Santiago Bernabéu em 2015, quando o treinador teve uma desastrosa passagem pela equipe madridista.

Naquela altura, ele nem precisava mais provar nada a ninguém. Bicampeão europeu e campeão do mundo com a Espanha, Xabi soube se poupar dos grandes problemas que assolam a carreira de um atleta. Se preservou fisicamente, não entrou em polêmicas, tratou a vida particular com cuidado e se manteve fora do conceito clichê de que futebolistas ostentam riqueza e não sobrevivem sem a vida noturna.

A experiência e a serenidade ajudaram Xabi a encarar a reta final de sua trajetória sem dramas. Para não se sujeitar às limitações naturais que a idade o traria, preferiu encerrar sua carreira ao fim do contrato com o Bayern, em junho deste ano. Estamos testemunhando os últimos passos de um dos grandes dessa era. Alguém que certamente não tem o mesmo reconhecimento de Xavi e Iniesta, mas que desfruta da glória nos principais campeonatos do futebol mundial.

Anos depois, Miguel e Xabi trocaram de lugar. Agora é o velho Periko que pode se orgulhar de dizer que foi o pai do grande Xabi Alonso. Da mesma feita o seu outro filho, Mikel, que não teve a mesma sorte de Xabi e chega aos 36 anos sem uma passagem por um clube de ponta. Os dois chegaram a contracenar na Real Sociedad no início dos anos 2000, mas seguiram caminhos distintos.

Os conselhos do pai certamente tiveram peso na caminhada dos filhos, mas ficou claro depois de tudo que não era só questão de dedicação: Xabi era muito superior aos outros membros do clã. A ver se teremos uma terceira geração dos Alonso em campo. E como diria Miguel, se os filhos de Xabi ou Mikel quiserem seguir vida no futebol, não há muito o que eles possam fazer para impedir…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *