Juventus e Roma: uma velha queda de braço

No cenário atual, enquanto a Juventus varre a Itália, existe uma sombra que sempre incomoda e até certo ponto briga por títulos, a Roma. Ao longo da história do futebol italiano, a Juve ergueu algumas vezes a taça e teve a equipe giallorossa como antagonista. Porque rivalidade não é só se bater sempre com o mesmo adversário da cidade.

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Na semana passada, retratamos um pouco sobre a relação conflituosa entre Fiorentina e Juventus, como forma de esquentar o clima para a partida de domingo, pela Serie A. Mesmo não sendo da mesma cidade, os clubes dividem uma história curiosa de ódio e disputa. Mas a Juventus, na posição de maior campeã da Itália, também causa certa irritação em outros cantos.

Um destes, sem dúvida, é a capital. Roma é o lar de dois grandes clubes italianos, a Lazio e a Roma, que juntas somam cinco títulos da Serie A e 15 da Coppa. Nos últimos anos, a Roma tem se notabilizado por fazer boas campanhas, mas sempre bater na trave e ficar com o vice. Por mais que o fenômeno seja mais marcante nesta década, não quer dizer que não acontecia no passado.

Um pouco de história

Então vamos aos dados: fundada em 1927, a Roma tinha apenas dois anos quando a Serie A que conhecemos foi originada. Antes disso, a Juventus, fundada em 1897, já possuía dois títulos do Campeonato Italiano em seu palmarés. No período que antecede a temporada 1929-30, a disputa era feita de forma regionalizada, tomando caráter nacional apenas após este processo de reformulação proposto pela FIGC, a Federação Italiana de Futebol.

Portanto, são 85 campeonatos disputados desde o início da Serie A como conhecemos. Apenas a Internazionale nunca disputou a segunda divisão neste intervalo, somando 85 temporadas na elite, sendo seguida por Juventus e Roma, com 84. Note-se que em 1943-44 e 1944-45 a Serie A não foi disputada em virtude da Segunda Guerra Mundial.

Pro Vercelli, fenômeno que foi sete vezes campeão italiano e chegou lá pela última vez em 1922

Aí é que as coisas ficam interessantes. Em todo este tempo, a Roma acumulou o total de 13 vice-campeonatos. Uma marca forte para alguém que não está nem entre os cinco maiores campeões. Por mais que o torcedor mais pessimista ache que isso não representa grande coisa, vale enfatizar que a briga entre os três gigantes está acima dos 10 scudetti. A Juventus tem 32 e sobra, enquanto Inter e Milan somam 18. Depois temos o Genoa, com 9 (campeão pela última vez em 1924), o Torino, o Bologna e o Pro Vercelli com sete. Ser vice “todo ano” não é exatamente um demérito se você está lutando contra a maior potência do seu país.

Você deve estar se perguntando: mas o que o clássico entre Roma e Juventus tem a ver com isso? Tudo. Tudo a ver. Pois sete dos 32 scudetti alvinegros foram conquistados justamente em cima da Roma. Combater quase sempre o mesmo adversário em um campeonato é um fator extremamente importante na construção de uma rivalidade que ultrapassa limites citadinos. As torcidas de Bayern e Borussia Dortmund começaram a se bicar por causa disso.

Os registros dão conta de que a primeira vez em que Roma e Juve duelaram pelo título foi em 1930-31. A Juve faturou seu terceiro scudetto com 55 pontos, quatro a mais do que a Roma. A conta é até pequena se compararmos com os tempos modernos, em que os juventinos costumeiramente abrem mais de 10 pontos de vantagem. Depois disso, os romanistas esperaram até 1942 para vencer pela primeira vez a Serie A, com o Torino como rival, somando 42 pontos contra 39 do Toro.

A longa espera e os choques recentes

Essa briga entre os bianconeri e os giallorossi só tornou a acontecer 50 anos depois, na temporada 1980-81. A Juve conquistou seu 19º campeonato com a concorrência da Roma, que iniciava uma de suas fases mais brilhantes. A decisão foi pela margem de dois pontos a favor dos turinenses. Em 1983, finalmente veio o troco da Roma: o segundo scudetto de La Magica aconteceu na base da raça, com respeitáveis quatro pontos separando os líderes. O time de Falcão, Pruzzo, Conti e Ancelotti fez 43×39 contra a Juve na tabela final. Lembrando, claro, que as vitórias ainda valiam apenas dois pontos.

A Juve respondeu rápido e se sagrou campeã em 1984, com a Roma à sua sombra. A coisa foi mais acirrada e o pessoal de Turim conquistou o título com uma rodada de antecedência, terminando com 43×41 na classificação. A história se repetiu em 1985-86, agora com quatro pontos separando Juve e Roma na batalha. Para a tristeza dos giallorossi, o clube então iniciou uma lenta decadência e sofreu com a irrelevância até o fim da década de 1990. Por outro lado, enquanto a Juve perdia Platini, outros ídolos surgiam e a Velha Senhora continuava no topo da Itália.

A disputa particular só voltou em 2000-01, no icônico último título da Roma. A Juventus tinha um excelente time, mas não conseguiu resistir ao feitiço de Totti, Batistuta, Montella e cia. Ou seja, de três campeonatos, a Roma venceu dois contra a Juventus. O problema é que depois disso a Juventus voltou a dominar o oponente, logo em 2002, como revanche pelo ano anterior. Os dois estiveram ali, cercando a taça durante aquela década, até que o pessoal de Turim encarou seu primeiro rebaixamento na história, em 2006, por implicação no escândalo do Calciopoli. Um ano depois estavam de volta, mas demoraram um tanto para recuperar toda a força do passado.

Uma vez gigante, sempre gigante: desde 2012 a Juventus vem varrendo com competência a Serie A, acumulando cinco títulos consecutivos. O sexto está a caminho, como manda o figurino, se tudo correr como planejado. Em 2014 e 15 a Roma foi vice e chegou a sonhar com o quarto scudetto, mas morreu na praia. Difícil não citar a campanha de 2013-14, com Rudi Garcia como técnico, em que a equipe da capital arrancou com 10 vitórias consecutivas e iludiu meio mundo de que seria capaz de aguentar até o fim. Essa tem sido a realidade giallorossa: o vice é o desfecho óbvio, exceto se algum desastre acontecer ou testemunharmos um novo milagre.

E na Coppa?

No topo da montanha da Coppa está também a Juventus, com 11 canecos. Adivinhem quem é a segunda? Exato, a Roma, com 9. Além do eneacampeonato, os romanistas tiveram 11 campanhas como vice. É duro mesmo afastar esse estigma.

No entanto, nenhuma dessas derrotas na decisão foram para a Juventus. E a maior vítima da Roma na Coppa é o Torino, que perdeu quatro vezes a taça para a agremiação capitolina. Também temos uma rixa romanista com a Inter, com quem decidiram nada menos que quatro edições seguidas do torneio, com triunfos interistas em 2005 e 2006 e vingança dos giallorossi em 2007 e 2008. Juve e Roma jamais disputaram uma final de Coppa até o momento.

O próximo capítulo deste clássico está marcado para 14 de maio, pela Serie A, na antepenúltima rodada. Isso se eles não se pegarem em alguma fase da Coppa antes disso.

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