O escudo novo da Juventus é só mais uma mudança coerente para o clube

Maior campeã da Itália, a Juventus mudou outra vez o seu escudo. Ao adotar um J simples com o nome do clube, a Velha Senhora causou certo furor pelo minimalismo e inovação. Mas será que este novo logo é mesmo só uma declaração de amor ao futebol moderno? E ele deve ser combatido por isso?

Toda vez que algum clube relevante anuncia alguma mudança no uniforme ou mesmo no escudo, os olhos do mundo do futebol se voltam para ele. A verdade é que estas alterações, simples ou revolucionárias, estão se tornando cada vez mais comuns. Foi-se o tempo em que tínhamos de nos acostumar a apenas uma imagem por toda a história. É verdade também que, por outro lado, muitos clubes tradicionais do Brasil preferem manter a identidade visual, porque não fazer nada a esse respeito é muito mais seguro do que desagradar a maioria.

Vários fenômenos podem explicar a necessidade em “inovar” na marca. Globalização, presença de mercado, marketing ou mesmo a modernidade. Demolir um estádio antigo para construir uma arena é parte disso também, ainda que sob protestos dos mais saudosistas. Nessa busca por se encontrar nos novos tempos, acabamos cometendo erros como a elitização e a segregação da torcida, coisas que não aconteciam nos tempos do concreto e das arquibancadas superlotadas.

Por mais que seja bonita a ideia de ver um estádio entupido de gente, questões de segurança tornaram urgente uma reformulação deste modelo. A Tragédia de Hillsborough, as quedas de alambrados e barras de proteção no Maracanã são prova disso. Mortes em estádios hoje são parte do passado e é difícil que alguém vá discordar deste efeito. O futebol segue a constante de andar para frente, evoluir, se transformar. Taticamente, fisicamente e até mentalmente falando. Contudo, é claro que isso também agrega uma insatisfação quando o objeto-alvo desta transformação é algo que resume uma tradição.

Obsessão por mudanças

Começamos lá atrás com os terceiros uniformes, depois escalamos para cores alternativas e inéditas nas camisas e o passo comum para isso seria que os escudos também sofressem alterações. A Juventus vem fazendo isso com frequência desde a década de 1960. As listras alvinegras e o touro (alusão à bandeira de Turim) estavam sempre lá, intocáveis. A última grande mudança veio em 2005, com uma inversão do esquema de cores. Mesmo assim, a lógica foi mantida.

Quer você goste ou não da Juventus, o logo novo foi uma grande surpresa e a revolução (destruir e fazer algo do zero também é revolucionário) incomodou muita gente. Sobretudo gente dos times rivais. Abolir o touro e o formato clássico de escudo parecem novidades gritantes demais para lidar. Podemos, claro, criticar o responsável pelo desenho, já que foi uma coisa tão simples que qualquer um faria parecido, até o seu priminho de sete anos.

A ideia de lançar o J e uma espécie de contorno reforçam um escudo subliminar. Ou seja, de tudo que era essencial do escudo antigo, apenas o touro foi abolido. Sabendo disso, você pode muito bem achar feio ou maravilhoso o resultado final, já que gosto é gosto, cada um sabe bem qual é o seu. Outro ponto é que a Juve não precisa fazer estas coisas para aparecer, visto que é a atual pentacampeã italiana e grande força em seu país. A questão é que qualquer coisa que um time gigante como este faça, vira notícia e objeto de análises e mais análises como esta que você está lendo neste instante.

Todavia, tratar o novo escudo da Juve como uma ameaça ao futebol tradicional é exagerado. Mesmo porque ele já se encontra radicalmente modificado. Quem diz que essa ideia do J duplo é uma espécie de escolha por uma logomarca em detrimento de um escudo pode até ter razão, mas os escudos antigos são logomarcas valiosas há muito tempo. Não é novidade alguma que os clubes usam seus logos para ter maior alcance de marketing.

Nunca foi só questão de estilo ou de tradição. E ainda se fosse, isso não seria nem de longe o maior problema implícito do novo modelo de futebol. A batalha contra a escalada de preços de ingressos e produtos oficiais não só é válida como necessária. Erradicar o preconceito praticado por torcidas mundo afora também. Porque o futebol cresceu e se popularizou graças ao apelo junto às massas. É incoerente defender que de repente, o esporte mais praticado no mundo vire uma peça restrita à elite ou quem pode arcar com os altos valores cobrados em tudo que envolve a experiência de um torcedor.

Um escudo novo, por mais incoerente que pareça com a história de um clube, continuará sendo uma tradição. Sobretudo se a tradição, como no caso da Juve, for apresentar novos desenhos a cada década que entra. Enquanto o nome da agremiação e as suas cores estiverem no papel e na camisa, qualquer ideia maluca será minimamente coerente. Nem toda tradição precisa ser mantida pela eternidade. Fosse assim, ainda veríamos goleiros atuando com boinas e sem luvas, atacantes com chuteiras pesadas de couro e bolas que triplicam de peso debaixo de chuva, táticas com dois zagueiros, cinco atacantes ou algo que o valha. O futebol prova diariamente que isso é essencial para renovar a paixão ou mesmo oferecer alternativas de segurança para quem o pratica.

No dia em que a Juventus apresentar um escudo azul, rosa, vermelho ou grená, sem seu nome ou principais características, aí sim teremos um grande motivo para protestar. Lutar contra mudanças, por menores que sejam, é viver para sempre em um marasmo. Mas nem mesmo nossas convicções são tão fortes para resistir aos efeitos do tempo, que dirá um escudo. O caminho ideal é sempre para a frente.

2 pensamentos em “O escudo novo da Juventus é só mais uma mudança coerente para o clube”

  1. Olá Felipe, tudo legal? Acho válido todo seu contexto a respeito da mudança de símbolo. Mas tenho algumas considerações sobre o novo escudo, como designer: pegar um escudo antigo e recomeçar do zero é interessante, mas nesse caso da Juventus achei que ficou com o visual um pouco equivocado. Na primeira vez que o vi me pareceu escrito a palavra “Ji” ao invés de um grande “J” preto em contornos brancos. Já por aí acho que passa uma imagem errada. Não sei se muitos outros tiveram essa impressão. A questão do duplo J também não me diz muito, pois dois Js não remetem a nada do clube, afinal o time se chama “Juventus Football Club”. O novo escudo, poderia manter alguns elementos antigos, talvez o formato oval (esse novo usa linhas incompletas para nos remeter a um formato reto em cima e pontudo em baixo). Mantiveram apenas as listras, nas quais aí vejo um ponto positivo, pois já valoriza o padrão visual da camisa 1 do clube, além que o escudo nos remete até a uma “camisa” listrada, com manga e tudo na serifa (no rabicho) em cima e na esquerda.
    O Atlético de Madri também mudou seu clube, o atualizando. Foi para uma proposta mais conservadora, mas também deixou um pouco a desejar. A Juventus foi mais corajosa, mas o visual poderia ser um pouco mais estudado. Sem mencionar que lembra por “alto” outro time de mesmo nome, que usa o mesmo J, do outro lado do Atlântico.

    1. Fala, Fábio! Obrigado pelo comentário.

      Então, da minha parte, achei interessante a revolução. Logicamente que entendo quem não curtiu porque descaracterizaram algumas partes icônicas. Você tem razão quando menciona o fato do escudo oval ter sido desprezado, e é realmente interessante ter uma opinião embasada sobre o assunto. Também gostei do escudo novo do Atlético e é bem isso que você disse: mexeram de forma conservadora no desenho e não desagradou. Acho que toda revolução acaba sendo alvo de crítica por isso, nem todo mundo aceita ou acha bonito. Faz parte.

      Valeu por ter acrescentado mais argumentos na discussão, isso é sempre bem vindo aqui na TF, independente se apoiando ou discordando do ponto do texto. Abração, meu, continue lendo a gente!

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