A porrada premeditada de Felipe Melo é o início de uma relação caótica

Em sua apresentação ao Palmeiras, Felipe Melo esbanja valentia e diz que se for preciso, dará porradas em uruguaios (pela Libertadores). O jeito sincero e intimidador do volante pode ser um perigo real para o Verdão?

Os adeptos do Scolarismo hão de dizer que não se faz um time campeão só com jogadores bonzinhos. A máxima de sempre ter um provocador ou um beque truculento fez sucesso nos anos 1990 por Grêmio e Palmeiras, explicando facilmente a preferência de parte da torcida por esta filosofia. Sem hipocrisias e moralismos, o futebol mudou um pouco de lá para cá.

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A catimba continua sendo uma parte essencial do jogo, assim como tentativas de desestabilizar mentalmente um adversário. Mas qual é o limite para essa violência contida? Felipe Melo, que está longe de ser um atleta famoso por sua frieza, foi apresentado ao Palmeiras e parece ter entendido o que fazer para ganhar o coração da torcida rapidamente. Prometer pancadas em adversários em nome do seu time é uma forma de se identificar com quem está na arquibancada. Sabemos que o apelo para a violência ainda é bem forte na cultura do futebol e será preciso muito tempo e muitas décadas para tirar isso de cena.

Felipe Melo x Biglia: um momento inesquecível de descontrole do volante pela Inter

Enquanto não acontece, vamos alimentando aos poucos esses comportamentos agressivos. Felipe Melo é o cara que teve grande fase no começo da década, incluindo uma participação na Copa de 2010, sem precisar quebrar ninguém para isso. Entretanto, seu destempero pesou para que o brilho como volante fosse ofuscado por jogadas excessivas e expulsões icônicas. É verdade que a sua média de cartões vermelhos é baixa, mas Felipe não pode negar que elas ficaram marcadas. A última delas foi em dezembro passado, mas sem alarde, contra o Sassuolo. Em 2015, também defendendo a Inter, deu uma voadora no rosto de Biglia, da Lazio, durante partida da Serie A.

Na coletiva de apresentação ao Palmeiras, nesta terça-feira, Felipe foi o que se espera de um jogador sem medo do caos. Com razão, desmistificou a ideia de que é apenas um caneleiro e contestou a informação sobre seu número de expulsões, que chega a 12 no total de sua carreira de 16 anos. Ou seja, de fato ele não é tão expulso quanto dizem, mas isso não quer dizer que ele não seja mais visado pela arbitragem.

Por outro lado, Melo não tem se ajudado muito neste quesito. Um dos tópicos mais relevantes de sua primeira entrevista como jogador do Palmeiras, o volante não poupou palavras:

Felipe Melo não é só porrada, é técnica também. Não fiquei 13 anos à toa na Europa. Se tiver que dar tapa em uruguaio, eu vou dar, se tiver que dar porrada, eu vou dar porrada.”

Para alguém que já chega com fama de violento, avisar com antecedência que irá se meter em confusão não é uma atitude muito sábia, convenhamos. Mas não se pode resumi-lo por esta fala. Nenhum jogador vai para a Seleção Brasileira e atua por grandes clubes sem ter nada a apresentar. Ainda que Felipe Melo não esteja em seu auge, certamente tem algo a oferecer ao Palmeiras, do contrário nem teria sido contratado. Há nele um potencial de liderança e uma garra que são essenciais para a campanha palmeirense na Libertadores de 2017. A questão válida aqui é o quanto essa sinceridade pode atrapalha-lo no caminho.

Não se pode negar que parte da imprensa tem má vontade com ele, o que força o atleta a estar sempre em seu limite para provar que seus críticos estão errados. A determinação em dar a volta por cima não pode se perder em meio ao descontrole eventual de uma partida decisiva. Sobretudo sabendo que na edição passada da Libertadores o Palmeiras foi eliminado por elementos como a sua instabilidade emocional nos jogos fora do Brasil. O duelo contra o Rosario Central, que teve Gabriel Jesus expulso, é o maior exemplo. Enquanto a isso, ele prefere dar de ombros.

“Nos últimos quatro ou cinco anos eu recebi apenas quatro cartões vermelhos. Para um meio-campista que está acostumado a fazer trabalho sujo, é muito pouco. Tem muita gente que me critica, mas gostaria de ter o Felipe Melo no time”, salientou o reforço alviverde.

Que Felipe Melo dará sangue pelo Palmeiras, não há dúvida. E é preciso dar a ele algum tempo para se readaptar ao Brasil, antes de cravar que ele foi ou não um erro como contratação. Enquanto só se olha para o seu lado indomável, temos em contrapartida o perfil de um grande marcador, um volante incansável, bom passador e muito forte em jogadas aéreas. Ninguém é 100% ruim ou bondoso, Felipe Melo é a prova disso. As explosões andam de mãos dadas com as atuações consistentes, mas como é mais fácil e atrativo noticiar a ira do que um dia pacífico, continuamos nessa dicotomia.

O “Pitbull” chegou e cheio de apetite, resta saber do que ele irá se alimentar: do caos ou de vitórias. E se precisar pegar um pênalti, ele também pode dar conta do recado.

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