Mark Williams, o sul-africano esquecido que passou pelo Corinthians

Credenciado por uma ótima atuação na Copa das Nações Africanas em 1996, Mark Williams chegou como uma aposta do Corinthians, mas saiu sem deixar sua marca. Primeiro africano a defender o Timão, atacante ainda teve muitos anos de carreira e rodou pelo mundo até sua aposentadoria, em 2003.

O grande assunto no Corinthians, neste mês de janeiro, é sem dúvida o interesse do clube por Didier Drogba, ídolo da Costa do Marfim e livre desde a rescisão com o Montréal Impact. Aos 38 anos e perto da aposentadoria, o goleador está na mira do Timão e sua negociação ainda deve durar alguns dias. Fala-se muito em uma grande jogada de marketing, mas a verdade é que Drogba seria um ótimo valor a ser acrescentado no elenco corintiano, tão maltratado por desfalques desde o ano passado.

Mais de 20 anos atrás, o Corinthians fez uma aposta parecida. Ainda que sem a pompa de Drogba, claro. Ao fim de 1996, com poucos atletas para o ataque, a diretoria trouxe o atacante sul-africano Mark Frank Williams, do Wolverhampton. Desconhecido do grande público, o jogador tinha 30 anos quando chegou ao Parque São Jorge.

Mark nunca teve uma carreira muito brilhante, apenas bons momentos, sobretudo naquele 1996. Analisando sua trajetória como um todo, o currículo é bem modesto, mas tem uma grande história entrelaçada. Tudo começou para Williams em 1988, quando ele estreou pelo Jomo Cosmos, da África do Sul, ainda aos 18 anos. Escalado para compor o setor ofensivo, transitava entre a reserva e a titularidade nas suas primeiras temporadas, sem convencer com o seu futebol.

Sem se firmar em nenhum lugar, Mark começou a peregrinar. Em 1991, foi para o Mamelodi Sundowns, depois assinou com o Hellenic, até que em 1993 passou brevemente pelo Cape Town Spurs e pelo Molenbeek, da Bélgica, em sua primeira excursão ao exterior. Foi de 1993 em diante que Williams começou a ter certo destaque.

Presença esporádica pela seleção dos Bafana Bafana, o atacante pensava ter assinado o contrato de sua vida em 1995, quando se transferiu para o Wolverhampton. Mas a chance de ouro na Inglaterra não veio e ele marcou só uma vez em uma partida da Copa da Liga, saindo quase que pela porta dos fundos. A perseverança rendeu uma recompensa a Mark na Copa das Nações Africanas de 1996. Ele se tornou em um dos protagonistas do time que foi campeão contra a Tunísia. Autor de quatro gols no torneio, provou ser fundamental para o título, até hoje o único da África do Sul no futebol.

O fim do apartheid e o título histórico de 1996

Curiosamente, aquele foi o primeiro torneio que os sul-africanos puderam participar após o longo período do apartheid. Como a Fifa e o COI impediam que o país disputasse competições durante o regime, foram décadas de sanções até que a ordem fosse estabelecida. O mesmo país que sofreu anos a fio com as mazelas do racismo e da segregação, se reergueu com a força de um guerreiro como Nelson Mandela. Madiba assumiu a presidência em 1994 e depois disso, pelo menos no esporte, o país teve motivos de sobra para sorrir.

O título mundial de rugby em 1995, em casa, reforçou a ideia de que unida, a África do Sul triunfaria. No ano seguinte, em fevereiro, a mensagem foi passada outra vez com o apoio do futebol. Os Bafana-Bafana ergueram a taça mais importante do futebol africano com muita garra e caráter.

Jogadores como Radebe, Bartlett e Khumalo ficaram famosos sobretudo após a Copa de 1998, mas foi Mark que se encarregou de colocar a bola na rede quando a pressão parecia grande demais. Como sede, a África do Sul ficou no Grupo A e encarou Egito, Camarões e Angola na primeira fase. Williams marcou na estreia contra os Leões Indomáveis (3-0) e na partida frente os angolanos. Passou em branco nas quartas e nas semifinais, guardando o melhor para a decisão ante a Tunísia.

Williams sacramentou o título com dois gols e virou ídolo local. O placar da decisão foi 2-0 e ele naturalmente entrou para a história da África do Sul. Meses depois, um convite do Corinthians foi a guinada que ele precisava para virar uma estrela. Sem contrato e uma gota de prestígio no Wolverhampton para o segundo semestre, o campeão africano chegou sem alarde ao Timão. Carregava, sim, o aspecto de novidade, afinal, nunca um outro africano havia atuado pela equipe alvinegra.

Para o futebol sul-africano, ter um representante no Brasil era um grande feito, mas a verdade é que Mark nunca se deu muito bem no Parque São Jorge. Era um ano difícil para o Corinthians, que dispunha de poucos jogadores para o ataque. Teoricamente, o goleador dos Bafana-Bafana seria um coringa. Na prática, apenas três jogos, sem nenhum gol ou uma atuação memorável. Em 1997, procurado pela Folha de São Paulo, Mark afirmou que gostou do Brasil, mas o time corintiano estava em má fase e era uma bagunça. Difícil se estabelecer neste contexto. Ele não ficou nem até o natal em São Paulo e juntou as malas para uma nova viagem.

De volta ao futebol sul-africano, Williams atuou pelo Kaizer Chiefs em 1997, mas não impressionou e iniciou nova jornada até pendurar as chuteiras. Neste interim, defendeu o Qianwei Huandao, o Shanghai Zhongyuan Huili e o Qindao Hademen, todos no obscuro futebol chinês. E se frustrou por não ter estado na lista da Copa do Mundo de 1998, quando seus companheiros estreavam em uma competição mundial de grande calibre.

Williams encerrou a carreira por clubes como bicampeão da Copa da China e em 2002 assinou com o Moroka Swallows, da África do Sul. Teve tempo de jogar no igualmente discreto Brunei, da Malásia, antes de anunciar que iria sair do futebol profissional, em 2003. Depois disso se dedicou ao futebol de areia e representou a África do Sul até entrar para o time de comentaristas de uma TV de Joanesburgo.

Mark é mais um destes casos de jogadores no lugar certo e na hora certa. O único momento verdadeiramente bom de sua carreira foi mesmo naquele longínquo 1996 em que ele deu o título da Copa Africana de Nações aos Bafana Bafana. A assinatura e a passagem rápida pelo Corinthians só fazem acrescentar um toque de curiosidade do primeiro africano a vestir o manto do Timão. Que no fim das contas é bem mais do que só aqueles três jogos que ninguém se lembra no Brasileirão de 1996.

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