Nem o nazismo foi capaz de dobrar Matthias Sindelar

Grande craque europeu da sua época, o austríaco Matthias Sindelar era único em quase tudo que fazia. Estrela do Austria Viena e da seleção da Áustria, liderou equipes inesquecíveis em seu auge no futebol. Convidado a atuar pela Alemanha após a anexação de seu país, se negou e acabou morto anos depois em circunstâncias estranhas.

Nos anos 1920 e 30, era difícil achar futebolistas que possuíam talento acima da média. Mesmo antes de ser campeão mundial, o Brasil havia produzido nomes como Arthur Friedenreich e Feitiço, entre muitos outros que podem ser encontrados nos livros de história. Poucas trajetórias tiveram uma carga de dramaticidade e talento como a de Matthias Sindelar, atacante e destaque do famoso “Wunderteam”, a Áustria que encantou o mundo na Copa de 1934 até a fase semifinal.

Do território tcheco à Viena

Para começar a entender o fenômeno em torno de Matthias, é preciso saber que ele nasceu na cidade de Kozlov, hoje território da República Tcheca, mas que em 1903 pertencia ao Império Austro-Húngaro. Dois anos depois a família de Jan e Marie Sindelar foi tentar a sorte em Viena. Jan, o pai, era ferreiro, enquanto sua esposa era dona de casa. Muito jovem, Matthias (batizado e registrado em Kozlov como Matej) demonstrou interesse pela bola, visto que o esporte vinha ganhando muita popularidade na época.

Aos 15, o menino já atuava pelas categorias de base do Hertha Viena, que acabaria por ser extinto em 1940. Ainda semiprofissional, Matthias aceitou um convite da equipe amadora Wiener Amateur SV, que deu origem ao Austria Viena como conhecemos hoje. Lá, foi cinco vezes campeão da Copa da Áustria e uma vez vencedor da Liga. Ao longo de 15 anos de carreira, Sindelar ganhou reconhecimento por sua técnica refinada de jogo, visão e inteligência, algo completamente à frente do seu tempo.

Pela velocidade e facilidade com que conduzia a bola, o atacante foi apelidado de “Homem de Papel”, algo que está atrelado à sua biografia de forma irreversível e talvez ajude a explicar o que ele era capaz de fazer em campo. Ele revolucionou na sua era, mas a falta de títulos expressivos ou de um legado impediu que ele tivesse o reconhecimento dos maiores da história, como Cruyff, Pelé, Maradona ou Di Stefano. Sua carreira durou oficialmente de 1924 a 39, com pouquíssimos registros fotográficos e estatísticas ainda mais escassas. Ficamos então com a lenda.

Sindelar era tão aclamado na Áustria que atraía públicos não muito afeitos ao futebol, já que vê-lo jogar era mesmo uma experiência riquíssima do ponto de vista esportivo e histórico. O crítico de teatro Alfred Polgar foi um dos que costurou elogios quase poéticos ao estilo de Matthias:

“Muitas coisas memoráveis e inesperadas aconteciam nas pernas de Sindelar enquanto ele corria. O seu chute acertava o fundo das redes como uma piada genial, o final que nos permitia entender e apreciar toda a composição de sua história, a coroação do ato em si”.

Podemos então compreender que era quase mágico ver Sindelar no auge. E vale observar que aqueles eram tempos em que as táticas eram precárias, os dribles ainda não eram exatamente uma parte crucial do esporte e que a bola pesava bem mais do que estamos acostumados. O futebol dificilmente traçava linhas artísticas naquela época e isso corrobora ainda mais com a façanha de Sindelar, o homem capaz de tornar um esporte bruto e mecânico em uma peça teatral que encerrava seus atos com aplausos de uma plateia estupefata, de pé.

A bela história de Sindelar estava em curso quando em 1938, uma partida contra a Alemanha mudou sua vida. Ele ainda vivia grande fase pela Áustria, que já não dispunha do Wunderteam, mas era um adversário duríssimo. Na verdade, aquele amistoso no Praterstadion (hoje rebatizado de Ernst Happel) marcava a última partida da Áustria antes do Anschluss, a anexação do país à Alemanha Nazista.

Quem humilhou quem?

Matthias se recusou a defender a Alemanha e apenas se limitou a atuar pelo Austria Viena, já que havia se aposentado da seleção em setembro de 1937. Aquele amistoso com os alemães poderia ter sido um último episódio de humilhação aos austríacos, mas Sindelar não quis assim. Relatos da época dão conta de que o time de Matthias perdeu chances de forma deliberada durante a primeira etapa, como se realmente não quisesse marcar. O mito que corre por trás disso é que houve ordens para que a Áustria perdesse o jogo de forma a passar o bastão com honra aos alemães. Nada confirmado, porém. E muitos austríacos mudariam de lado com a anexação, a tempo de jogar a Copa de 1938 com os germânicos.

Sindelar não era e nem seria um deles. Como já planejava parar de jogar e acumulava a função de jogador-treinador do Austria Viena, manteve sua posição irredutível. Sempre que podia, alegava lesões ou mal-estar para não defender a Alemanha. Tudo o que ele fez culminou na história daquele 3 de abril de 1938. Se o primeiro tempo ficou marcado pelos gols desperdiçados pela tropa do Homem de Papel, o segundo teve um show de Sindelar, de classe incontestável, mesmo com 35 anos de idade. Ele fez um gol e viu Karl Sesta marcar o outro para garantir a vitória austríaca por 2-0 diante de alemães desconfortáveis. O clima ficou ainda mais hostil quando Sindelar festejou a abertura do placar com uma provocação dançante aos oficiais nazistas nas tribunas. Era como se quisesse provar que ganharia o jogo em um estalar de dedos. E o fez.

No ano seguinte, a Áustria se recusou a disputar a Copa do Mundo, mesmo já classificada, já que perdeu vários de seus atletas para a Alemanha. Sindelar teve tempo de ver o W.O no Mundial e fazer suas últimas aparições em grande estilo pelo clube, até início de 1939.

O mistério e a mentira conveniente

Neste interim, Sindi dividia a sua vida no Austria Viena com os trabalhos em um café que comprara de um judeu, forçado a fugir e abandonar seus negócios em Viena. Matthias desafiou uma vez mais os nazistas ao não colocar pôsteres e propagandas em seu estabelecimento, porque simplesmente não se dobraria a eles em hipótese alguma. Naturalmente ficou visado por eles.

Aí tivemos o fato: Matthias e sua namorada, Camilla Castagnola, foram encontrados mortos em seu apartamento, envenenados por monóxido de carbono, em 29 de janeiro de 1939. A primeira conclusão possível diante disso é que eles foram mortos pela Gestapo, já que Sindelar estava sendo investigado pela polícia secreta nazista. Entretanto, a ocorrência é facilmente explicada pela má conservação da chaminé, que estava defeituosa. E este tipo de morte era bem comum para a época.

As tão divulgadas teorias de assassinato até podem fazer sentido e realmente mudar o tom do acidente, mas todas as provas existentes derrubam a tese de suicídio ou de morte premeditada. Colocar Sindelar como vítima de uma trama maléfica dos nazistas vende bem como uma história de tempos de guerra. O que não é conveniente é ver um ícone do futebol e da ousadia contra Hitler morrer de forma tão banal.

Como Matthias era tão cercado por lendas, aceitar que a sua morte se deu mesmo por causa da chaminé talvez seja um desfecho ruim ou até mal escrito para uma vida tão fadada ao sucesso. Fosse isso um conto ou um romance, o melhor encerramento seria outro. Melhor não distorcer a realidade.

Um pensamento em “Nem o nazismo foi capaz de dobrar Matthias Sindelar”

  1. Q história espetacular essa… Nunca ouvi falar desse sindelar…mas o cara devia ser monstro mesmo…sem falar na personalidade forte e destemida…!!!
    Show de bola essa reportagem!!!

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