Magico Gonzalez: Entre o prazer e as obrigações de um futebolista

Pergunte por Jorge Gonzalez e poucas pessoas saberão o que responder. Pergunte a Diego Maradona e ele lhe responderá que El Magico foi dos maiores jogadores que ele já viu jogar. Ainda que se desconte toda a grandiloquência que “El Diez” reserva a seus favoritos, em uma rápida pesquisa encontraremos apenas espanhóis e salvadorenhos fazendo eco sobre o talento de “El Mágico Gonzalez”.

Fica então a inquietude: por que ouvimos tão pouco sobre Mágico Gonzalez? Talvez a primeira pista para esta pergunta pode estar em sua origem. Jorge Alberto Gonzalez Barillas nasceu em El Salvador, país que em termos futebolísticos é periférico dentro de uma zona não muito qualificada mundialmente, a Concacaf. El Salvador tem um histórico futebolístico escasso e esteve presente apenas nas Copas de 1970 e de 1982, sobre a qual falaremos mais adiante.

A segunda e talvez decisiva informação sobre como um jogador tão talentoso apresenta pouca notoriedade seja as decisões pessoais tomadas por Gonzalez. Típico bon–vivant, amante da boemia e das mulheres, Magico tomou decisões em sua carreira sempre visando uma forma de conciliar seus talentos dentro e fora de campo.

Para entender sua trajetória precisamos voltar à Copa de 1982, para a qual El Salvador se classificou escorada no talento de Gonzalez, que marcou quatro gols nas eliminatórias. A Copa da Espanha ficou marcada pela exuberante exibição da seleção brasileira, pela redenção italiana encarnada por Paolo Rossi e por uma goleada recorde de 10 a 1 da Hungria sobre a seleção de El Salvador logo na primeira rodada.

Porém, tal goleada não foi suficiente para ofuscar a maestria exibida por Gonzalez. A Copa acabaria cedo para El Salvador, mas o camisa 11 ficaria na Espanha. E embora tenha sido procurado pelo Atlético de Madrid ele decidiu por assinar com o Cádiz, que naquele momento encontrava-se na segunda divisão. Como explicar?

Em pouco tempo a idolatria se estabeleceu. Destro e de porte longilíneo, Gonzalez era um armador que jogava pelas pontas e que também fazia gols. Sem a bola, apresentava o estilo “falso lento”, mas que com explosão e passadas largas concluía jogadas.

Em sua primeira temporada anotou 15 gols em 33 jogos e o Cádiz ascendeu à primeira divisão. Embora voltasse a cair ao final da temporada 1983-84, o clube auriazul da Andaluzia angariou simpatia e prestígio graças a presença de Gonzalez, o que valeu um convite para uma excursão conjunta com o Barcelona para os Estados Unidos, em 1984, na qual disputariam um torneio organizado pelo New York Cosmos e que contaria também com a Udinese de Zico e o Fluminense de Romerito, campeão brasileiro daquele ano.

A ideia barcelonista era testar Gonzalez como um substituto de Maradona, que após uma turbulenta passagem blaugrana estava de malas prontas para Nápoles. Saltou aos olhos a habilidade de Gonzalez e a magistral assistência de Maradona para o gol do salvadorenho.

Embora dentro de campo os dirigentes catalães tivessem motivos para  assegurar uma boa contratação, fora de campo situações inusitadas colocaram um freio na negociação. Muitos alegam que tudo foi culpa de um princípio de incêndio ocorrido no hotel onde se hospedava a delegação do Barcelona. Enquanto todos certificavam que tudo estava sob controle alguém percebeu que havia uma pessoa faltando, justamente Gonzalez, que foi encontrado ainda em sua cama do quarto de hotel, acompanhado e bem acordado.

Com o recuo do Barcelona, o Paris Saint-Germain abriu negociações com o Cadiz, no entanto, mesmo com a liberação do clube, Magico Gonzalez optou por ficar e disputar a segunda divisão novamente. E nesta temporada de resultados fracos, jornais espanhóis passaram a apontar os hábitos notívagos de Gonzalez como causa de seu baixo rendimento.

Brigado com o técnico, mudou-se para o Valladolid, onde não havia tanta tolerância com as suas noitadas, só para retornar mais uma vez ao Cádiz, onde permaneceu até 1991. Já não era mais o mesmo quando assinou com a Atalanta e logo depois regressou a El Salvador, onde atuou até 2002, em longa e discreta carreira.

Para muitos, Gonzalez poderia ter sido um dos maiores nomes do futebol caso tivesse acertado sua transferência para clubes mais relevantes e conquistado títulos. De fato, seu palmarés apresenta apenas um charmoso -e inexpressivo- Troféu Ramón de Carranza. Mas a questão aqui é que Gonzalez sempre foi fiel ao seu estilo e decidiu não abrir mão do que ele considerava felicidade em troca de maiores méritos. Gonzalez sempre soube que maiores ambições trariam maiores responsabilidades e decidiu manter-se em menor exigência. O próprio jogador reconhecia isso:

“Reconheço que não sou um santo, que gosto muito da noite e que a vontade de estar na farra me completa. Sei que sou um irresponsável e um mau profissional, talvez esteja desperdiçando a chance da minha vida. Mas sei disso e de muito mais, algo que não me sai da cabeça: não enxergo o futebol como um trabalho. Se fizesse isso, não seria eu. Jogo apenas para me divertir.”

Tal comportamento soava romântico e de certa forma extravagante nos anos 80, sendo encarado até com certa condescendência. Ao contrário de hoje, onde a voracidade e o ganho a qualquer custo não permitem tal experiência sm um caminhão de críticas. Tal atitude de Gonzalez, hoje em dia, seria instantaneamente bombardeada e julgada nas redes sociais.

Contudo, ao contrário dos vaticínios dos modernos haters, Gonzalez não está abandonado e tampouco em má situação clínica ou financeira. Toca seus projetos sociais em San Salvador, terra natal. E mais importante: vive feliz.

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