O charme do Centenario, o gigante adormecido em Montevidéu

Com 86 anos de vida, o estádio Centenario é o grande monumento do futebol em Montevidéu. Casa da primeira Copa do Mundo, vencida pelos uruguaios em 1930, contra a Argentina, o local passa por reformas e conta histórias riquíssimas em seu museu e instalações.

Tive a oportunidade de conhecer este gigante em viagem no mês de dezembro de 2016, durante a minha lua de mel, na capital uruguaia. A verdade é que o meu plano inicial previa conhecer o Centenario, o Campeón del Siglo e o Gran Parque Central, mas o nosso tempo estava escasso e digamos que não é tão fácil passar o dia todo andando pela cidade com tanta disposição.

No fim das contas, acabei visitando só o Centenario, no terceiro dia de viagem. Mas a experiência marcou bastante. Primeiro, porque estava um calor dos infernos. Segundo, porque o estádio estava passando por reformas no gramado e não havia muita gente naquele momento para fazer o tour. Das quase duas horas que gastamos passando pelo museu, arquibancadas e outras imediações, só vi brasileiros.

O Centenario foi construído para a Copa de 1930, o primeiro grande evento promovido pela Fifa. As obras atrasaram e algumas partidas previstas para o local foram transferidas para o Gran Parque Central e o Estadio Pocitos, antiga casa do Peñarol. A inauguração aconteceu em 18 de julho de 1930, em um Uruguai x Peru, com vitória dos charruas por 1-0. A final também foi realizada no Centenario, com placar de 4-2 para os mandantes em cima da Argentina, no que consagrou a equipe celeste como primeira campeã mundial da história.

O tempo passou e o Centenario continuou sendo uma espécie de casa da seleção uruguaia e recebendo outras partidas de grande importância. Várias edições da Copa América foram jogadas lá, sem falar nas finais de Libertadores e Intercontinentais. Peñarol e Real Madrid fizeram a primeira edição do Intercontinental no Centenario, em 1960. Um empate sem gols em Montevidéu deu esperanças aos carboneros, mas o Real massacrou em Madrid e fez 5-1 para levar a taça. No ano seguinte, o Peñarol se recuperou da surra e venceu o Benfica após três partidas. As duas últimas foram no Centenario, por 5-0 e 2-1, um verdadeiro massacre ante os portugueses.

A última decisão de clubes no local ocorreu em 2011, com Peñarol e Santos, que empataram por 0-0 diante de 70 mil pessoas. No Pacaembu, o Peixe venceu por 2-1 e ficou com a taça. Por seleções, precisamos voltar um pouco mais no tempo, para 1995, quando o Uruguai levantou a Copa América contra o Brasil, após disputa de pênaltis, conquistando seu 10º troféu na competição.

Como o tour não é guiado, os visitantes têm total liberdade para passear por onde quiserem. O valor cobrado pela entrada é baixo e acessível para quem estiver de passagem. Optamos por não subir ao mirante para não pagar um valor extra, mas há quem prefira fazer o roteiro completo. De cara, assim que se abre a porta principal para o Museu, chama a atenção a presença de Gerardo, um dos funcionários do estádio. Ele sabe quase tudo dos clubes brasileiros de seus visitantes. Reconheceu até o Clube do Remo no calção de um paraense que estava lá com a família.

Gerardo soube me dizer também que Cuca deixou o Palmeiras porque precisou ficar mais perto da mulher (logo que viu minha camisa já puxou papo), que está passando por um tratamento médico. O que mais impressionou em Gerardo, além da sabedoria e simpatia, foi o fato de ele saber quem foi o arquiteto da Arena da Baixada, do Atlético Paranaense: Carlos Arcos, um uruguaio que viveu por muitos anos no Brasil até montar seu escritório de arquitetura em Montevidéu.

O passeio começou pela parte das pinturas sobre a seleção uruguaia, de cara para o saguão. Óscar Tabárez e os principais ídolos desta geração como Suárez, Cavani e Forlán estão retratados em quadros. A maioria destes quadros são referentes à experiência uruguaia na Copa de 2010, como o da foto acima, no lance em que Suárez salva um gol com a mão, é expulso e acompanha de fora o restante da partida contra Gana, nas quartas de final.

Mais adiante existe um corredor com lembranças dos times uruguaios como o Defensor, campeão nacional de 1976, uniformes de árbitros e outras doações de Copas do Mundo. O coreano Cha Du Ri doou sua chuteira e uma camisa usada na edição de 2002. Tudo está devidamente conservado dentro de uma vitrine, mas como a iluminação é artificial, quem deseja fotografar estes itens acaba tirando retratos bem ruins e com reflexos. Nada que atrapalhe o passeio, evidentemente. O que importa é ver tudo aquilo de perto, as fotos são só um pequeno bônus.

Subindo as escadarias para acessar o andar superior, quadros com ídolos uruguaios e fotos da França campeã mundial de 1998 tomam conta da parede. Caras como Mazurkiewicz e Ubiña estão presentes e tratados como lendas que são. Logo que se adentra a área de exposição lá de cima, o passado começa a dar o tom da visita. Lá ainda estão as mesas e cadeiras dos funcionários da Associação Uruguaia de Futebol, a AUF. Confesso que não prestei muita atenção a isso porque estava particularmente encantado pelas relíquias expostas.

Camisas usadas em jogo, taças, fotos e outras ilustrações saltam aos olhos. O Museu tem um memorial da Copa do Mundo com retratos de todas as equipes campeãs. Estão lá craques como Pelé, Maradona, Rubén Sosa, entre uruguaios que deixaram seus nomes na história do futebol charrua. São muitos os uniformes que sobreviveram às décadas e que facilmente sintetizam a paixão do povo uruguaio pelo esporte.

Depois de muita ansiedade, me deparei com a réplica da Taça Jules Rimet de 1950, conquistada contra o Brasil no Maracanã. A camisa número 11 de Rubén Morán usada na final está no espaço ao lado do troféu, cercada por fotos da partida. É sempre um momento particular quando nos deparamos com lembranças daquele dia. Um misto de admiração com tristeza, por tudo que os brasileiros sentiram e ainda sentem por causa do Maracanazo.

Passando ao lado de cada vitrine, também é possível conhecer melhor a história da seleção uruguaia, do Nacional e do Peñarol, contadas por pequenos textos-legenda ao lado de chuteiras, calções e camisas desde 1910, aproximadamente.

As arquibancadas

A entrada para as arquibancadas é seguindo o corredor ao lado da exposição da Copa de 2010. Quando você entra por lá, tudo está vazio e há apenas alguns banners de lojinhas e barracas de comida que funcionam durante os jogos. Foi aí que me deparei com a cena mais marcante do dia: a entrada por um dos portões para acessar a arquibancada. Nunca tinha saído do país e estar em um templo do futebol como o Centenario foi mais incrível do que pensei.

Mesmo com a reforma e o silêncio por dentro do estádio, talvez seja possível ouvir o eco de tantos jogos grandes que foram realizados ali embaixo. Por dentro o Centenario não parece tão grande, mas algo nele te envolve para sempre. Não sei se o aspecto clássico, as marcas do tempo ou mesmo o cheiro do concreto. Só de saber que está se visitando o primeiro estádio que consagrou um campeão do mundo já é um privilégio imenso. A placa que se refere ao Campeonato Mundial (foto que abre o texto) é uma peça a se admirar por alguns minutos.

Não se passa pelo Centenario apenas para andar por suas arquibancadas e tirar centenas de fotos. É preciso sentar-se nelas ou em um dos assentos já bem velhinhos para entender do que se trata. Que a paixão pelo futebol resistiu a estes 86 anos em um lugar que pode até ter sido reformado algumas vezes, mas jamais perderá seu aspecto como o pioneiro entre tantos colossos de aço e concreto.

Vivemos exaltando o Maracanã (com justiça, claro), mas a verdade é que o Centenario representa a última fortaleza do passado, em contraste com as “maravilhas arquitetônicas” que estão modernizando e tomando conta do futebol atual. Para quem é adepto da nostalgia e dos tempos em que se jogava com chuteiras de couro e bolas pesadas, a casa do futebol em Montevidéu é um prato cheio. E que cada par de olhos registra uma história diferente quando se passa por aquelas fileiras.

Na saída, comprei alguns souvenirs e voltei a papear com Gerardo. Conversa vai, conversa vem, começamos a falar sobre a taça Jules Rimet roubada da sede da CBF nos anos 1970. Temos certeza que o fim do troféu não foi o derretimento, mas sim um esconderijo de algum colecionador milionário mundo afora. Nunca saberemos com quem está. Gerardo tem suas teses sobre o receptor da taça, mas isso aí fica entre nós e quem ouviu a conversa ali no balcão…

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