Um post de Instagram não vale tanto quanto uma boa história

Algum dia, em um passado longínquo, o jornalismo esportivo foi a casa e o forno de matérias investigativas, espetaculares e inovadoras. Foi também a única fonte de informação sobre transferências, lesões e outras questões relevantes quando ainda nem existia assessoria de imprensa em clubes. Infelizmente este tempo passou e talvez estejamos misturando demais os assuntos em nome dos cliques e de uma audiência cada vez menos interessada em conteúdo de qualidade. Quer dizer: será que a culpa é mesmo da audiência?

A culpa não é do público se portais destinam uma seção exclusiva para falar de Neymar. Não é que o Neymar não seja importante, ele é o grande jogador brasileiro da atualidade, ninguém contesta isso, mas até que ponto notícias sobre a pessoa Neymar são necessárias para um portal de jornalismo esportivo que se diz sério?

Vemos diversas justificativas a respeito de “explorar o interesse da audiência”, e bibibi bobobó, mas caímos no famoso Dilema Tostines. O público se interessa por isso porque os veículos insistem neste tipo de conteúdo ou existe este tipo de conteúdo porque o público se interessa? Sabemos que hoje em dia a qualidade ficou em segundo ou terceiro plano, dando lugar a especulações baratas e outras matérias que são uma verdadeira vergonha para a profissão, como galerias de atletas em folgas e quem são suas namoradas, onde eles estavam durante o ano novo.

Nada contra sites de fofoca, mesmo porque este vírus da invasão de privacidade já está impregnado no nosso cotidiano. É verdade que estes jogadores retratados nas notícias são pessoas públicas e dificilmente virariam alvo de “EGOs” da vida se não fossem relevantes. Contudo, há que se discutir a necessidade e até mesmo a existência destas editorias nos nossos portais mais importantes.

Até onde podemos compreender como sociedade justa, estes jogadores têm o direito à privacidade, à vida particular, aos segredos. Mas o que fazer quando tudo isso é atropelado em busca da sede pelo furo de informação? Expressões como o “pode estar” “deve fazer” aniquilaram o poder de verbos no passado, que dão o tom que os fatos merecem ter. E mesmo quando lidamos com fatos, há uma grande chance de eles não serem de forma alguma relevantes.

A quem interessa se o Adriano saiu em um vídeo dizendo que está gordo? Os fãs do jogador já não teriam visto isso em suas redes sociais? Todo esse mar de não-notícias começou porque alguém lá atrás (nem tão lá atrás assim) achou que valia a pena repercutir uma foto normal de um atleta da Seleção Brasileira no Instagram. Distorceram e pisotearam o conceito de valor-notícia. Essas postagens sem valor noticioso tomaram conta das homepages, equiparando em importância uma foto de férias com um resultado significativo em algum campeonato mundo afora.

O futebol é muito mais do que o resultado de campo e o material produzido por setoristas, ninguém está restringindo isso, mas as grandes histórias estão cada vez mais raras. As entrevistas estão em extinção e a apuração segue o mesmo caminho, como demonstrado no caso “Rádio Bogotá” ao fim de 2016. Estamos matando uma ferramenta importante de informação para raspar as migalhas que sobraram da mina de ouro que um dia foi o jornalismo esportivo.

Hoje qualquer um pode se vestir de portal, é só copiar três ou quatro notícias dos grandes e pronto, um veículo nasce. Boatos vendem jornal e negociações são tão comentadas quanto transferências consolidadas. Ninguém precisa ter certeza se elas vão se concretizar ou não, porque especular também é parte do negócio. De dez boatos espalhados pela rede, dois acontecem de fato. Talvez até menos.

Outro fenômeno igualmente lamentável são as chamadas que utilizam a combinação “internet vai à loucura” sobre um evento que merece atenção. Nunca se teve tanta necessidade de repercutir o que sai da própria internet. É uma mania bizarra de levar à internet uma repercussão que ela mesma fez. “Veja o que os tuiteiros falaram sobre tal assunto”, um post amplamente divulgado para o público do Twitter. É surreal. Tira-se o foco do evento em si para colocar um par de reações variadas expressadas na internet. Fica até difícil de explicar o quão burro isso é em termos de cobertura jornalística. Mas para quem quer se ver nessas curadorias, buscando alguma espécie de fama instantânea, vale tudo.

Talvez estejamos mais perto de desinformar o público do que necessariamente fazê-lo entender o conceito essencial do jornalismo. Misturar o noticiário com o entretenimento pode até gerar alguns risos no começo, mas quem procura seriedade (não são poucas pessoas) sabe que essa mescla pode ser perigosa. Credibilidade devia ser uma coisa levada mais a sério pela nossa imprensa.

Agora que já caçamos os cliques, o que vamos fazer com eles? Esta é a pergunta que precisa ser feita agora. Oferecer pouco ou qualquer coisa com grandes equipes à disposição é só um indício de que o nosso bom e velho jornalismo está perdendo força e dando espaço a abordagens mais superficiais e voltadas para a diversão. Quem tomou aulas na faculdade ou leu pelo menos um grande jornalista sabe que isso não é para ser divertido ou gerar lucro. E não adianta mais usar a ladainha do “jornalismo de qualidade exige recursos” quando na verdade queremos ganhar milhões para fazer um trabalho porco e preguiçoso.

Deixem o Instagram apenas para quem se alimenta de Instagram. O lugar para sugar vidas pessoais e visar o entretenimento é no site de fofocas ao lado. Mas para que tentar convencer o público de que somos sérios, não é mesmo?

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