Emilio Butragueño, o pequeno rei madridista

Emilio Butragueno of Real Madrid

Ídolo madridista nas décadas de 1980 e 90, Emilio Butragueño foi um dos atacantes mais competentes e talentosos que a Espanha já viu. Com apenas 1,70 de altura, velocidade invejável e ótima visão de jogo, “El Buitre” dedicou 12 anos de sua carreira ao Real Madrid.

Com passadas ligeiras e facilidade para entortar os zagueiros adversários, Butragueño era um jogador completo para a sua posição. Centroavante daqueles infernais, não raro prendia a bola na linha de fundo ou dava arrancadas em direção às traves, num precioso exemplo de habilidade unida ao faro de gol.

Desde os tempos de colégio já era destinado ao futebol. E era talentoso para a sua idade. Apesar do evidente futuro com a bola nos pés, Emilio não acreditava que iria muito mais longe do que os torneios escolares e regionais. Chegou até a jogar basquete na juventude, mas se destacou mesmo no futebol. Antes de fazer testes pelas equipes infantis do Real, ganhou um torneio pelo seu colégio e chamou a atenção de dirigentes do Atlético. Desiludido por esperar demais a proposta dos madridistas, Emilio e seu pai quase assinaram com os colchoneros. Mas mudaram em cima da hora por preferência pessoal do garoto e influência do pai, sócio do clube merengue.

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Emilio, com a Copa Uefa de 1985: o menino que era dono do time

Em 1981, começou a sua trajetória vencedora pela base do Real Madrid. Demorou três anos para se desenvolver completamente e virar uma realidade no time titular, em 1984, sob o comando de um lorde madridista: Alfredo Di Stefano. Foi o gigante argentino que ensinou alguns detalhes do ofício para o seu aprendiz. E Butragueño foi muito longe depois de contar com aulas do “Flecha Loira”.

Logo na estreia, diante do Cádiz, em fevereiro de 1984, mostrou seu potencial artilheiro. Entrou faltando pouco menos de 30 minutos e o Real Madrid perdia por 2-0 para os mandantes. Eis que Emilio tira dois gols da cartola nos minutos finais para dar a vitória ao Real. Gallego fez o outro dos visitantes. Detalhe: como fã de Johan Cruyff, Butragueño ingressou pela primeira vez como profissional no Real usando a camisa de número 14.

Meses depois, diante do Anderlecht pela Copa Uefa, Butragueño castigou os belgas em Madrid e fez três dos seis gols que ajudaram o Real a virar o agregado. O placar de 6-1 no Santiago Bernabéu demoliu a derrota por 3-0 em Bruxelas. O Real arrancou até a final contra o Videoton da Hungria e foi campeão. No ano seguinte, repetiram o feito e bateram o Colônia na decisão.

Buitre, Pardeza, Míchel, Sanchis e Vázquez: quinteto brilhou com a camisa madridista na década de 1980
Buitre, Pardeza, Míchel, Sanchis e Vázquez: quinteto brilhou com a camisa madridista na década de 1980

Uma das coisas mais associadas a Butragueño era o papel de destaque na chamada “Quinta del Buitre“, um quinteto que foi a cara do Real na década de 1980: Emilio, Míchel, Martín Vázquez, Manolo Sanchís e Miguel Pardeza. Juntos, saíram das canteras do clube para o estrelato. A alcunha do grupo se dava em função do apelido de Butragueño: El Buitre, o abutre. Ainda que ser comparado a um abutre não seja exatamente um elogio, o atacante sempre manteve um perfil discreto, ponderado e honesto fora das quatro linhas. Ele não era muito fã de polêmicas.

Quando o Real venceu a segunda Copa Uefa, a torcida voltou a acreditar que o clube retomaria seu posto como gigante continental e dominaria a Espanha após anos complicados no início da década de 1980. Butragueño tem grande responsabilidade nesta retomada de confiança. Com ele, o Real foi pentacampeão espanhol de 1986 a 90. O sucesso com o uniforme branco trouxe também o prestígio internacional de defender a sua seleção.

Selecionável por oito anos na Espanha, Emilio disputou duas Copas (1986 e 1990) e duas Eurocopas (1984 e 1988). Defendeu a Fúria até o ano de 1992, tendo seu ponto alto no Mundial de 86, onde fez quatro gols contra a Dinamarca nas oitavas de final, terminando como vice-artilheiro do torneio. Também teve ótimo desempenho na Copa de 1990, quando a Espanha foi derrotada pela Iugoslávia nas oitavas de final, com show de Dragan Stojkovic.

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Viveu os altos e baixos com o clube e viu de perto o Barcelona tomar do Real o posto de grande time espanhol. Era simplesmente impossível derrotar o Barcelona de Cruyff em condições normais. Por quatro temporadas seguidas, o Dream Team do holandês amassou os rivais e foi soberano com craques como Romário, Stoichkov, Laudrup, Guardiola e Ronald Koeman. O tempo foi passando para Emilio, que não conseguiu inspirar o Real a continuar seu projeto de dominação. Foi artilheiro do Espanhol em apenas uma ocasião, em 1991.

A última glória de Emilio, já com 32 anos de idade, foi pela Liga Espanhola em 1995. Não tinha a mesma influência de antes e estava ameaçado em seu reino por um novo candidato a queridinho da torcida: Raúl González. Saiu do Santiago Bernabéu com seis títulos nacionais, dois da Copa do Rei, um da Copa da Liga Espanhola (extinta em 1986), dois da Copa Uefa e uma na única edição da Copa Iberoamericana, vencida diante do Boca Juniors, em 1994. Vale observar que mesmo na grande fase de Butragueño e com os cinco títulos seguidos na Liga, o Real não era representativo na Copa/Liga dos Campeões, algo que só foi possível alguns anos após sua despedida.

Em fim de carreira, aceitou o convite do Club Celaya, do México, e reencontrou Míchel, que defendeu a equipe de 1996 a 97. Butragueño passou lá seus derradeiros três anos, em visível declínio físico, mas como  ícone para um emergente mercado como o mexicano. El Buitre se aposentou em 1998, com 188 gols no currículo e a moral que só um astro do Madrid conseguiria ter. Outra curiosidade é que Emilio não levou nenhum cartão vermelho sequer, em seus 16 anos como profissional. Por este motivo, ficou conhecido também como “O cavalheiro dos gramados”.

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