Elkjaer, o homem que balançava as redes até descalço

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Célebre fumante e fã de uma boa bebida, Elkjaer viveu a sua carreira no limite da forma física. Teve grande fase nos anos 1980 e foi crucial na arrancada do Verona ao título italiano, em 1985. Uma série de maus hábitos encurtaram a sua trajetória.

A história dos grandes jogadores dinamarqueses que fizeram sucesso nos anos 1970 e 80 passa pelo crescimento do futebol no país escandinavo e também pela maior referência de sucesso entre os que tentaram a sorte no exterior. Tudo começou com Allan Simonsen, que brilhou no Vejle e depois conduziu o Borussia M’Gladbach ao sucesso europeu. Simonsen acabou sendo uma grande influência para o garoto Preben Elkjaer Larsen, nascido em Copenhagen, no ano de 1957.

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Ele fez a base no Frederiksberg e ainda teve uma rápida passagem pelo time juvenil do KB, em sua cidade natal. Aos 19 anos, ganhou a primeira chance como profissional, pelo Vanlose, em 1976. Uma temporada e sete gols bastaram para que ele fosse atraído pelo Colônia, que vivia bom momento no futebol alemão. Mas para Preben, ainda novo, a mudança não foi completamente bem-sucedida.

Reserva e sem minutos para mostrar seu futebol, o dinamarquês se via quase como um soldado em formação, nunca aceitou as práticas e rotinas rigorosas do técnico Hennes Weisweiler. Atuou pouco durante a temporada 1977-78 e foi negociado após um icônico desentendimento com o chefe. Acusado de sair em uma noitada envolvendo whisky e garotas, Elkjaer respondeu de forma insolente a Weisweiler: “Na verdade, não era uma garrafa de whisky e uma moça. Era uma garrafa de vodka e duas garotas“. Os dois riram muito naquele momento. Elkjaer acabou dispensado.

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O episódio rendeu uma transferência para o Lokeren, em uma espécie de castigo para o atacante. Aos 21 anos, ele era um talento a ser explorado, mas precisava ter calma para não se perder em decisões ruins. Com mais maturidade do que se esperava, Preben desandou a fazer gols na Bélgica e passou seis anos defendendo o Lokeren. Chegou à seleção e ao vice-campeonato em 1982, com a ajuda da dupla polonesa Lato-Lubanski. Elkjaer marcou mais de 100 gols na sua passagem pelo clube belga, mas não foi campeão de nada, ao contrário de sua fase melancólica como reserva do Colônia, onde foi campeão alemão e vencedor de duas Copas da Alemanha.

Reconhecimento mesmo veio em 1984, na sua chegada ao Hellas Verona. Uma ótima Eurocopa naquele ano rendeu uma transferência que mudou a vida do atacante. A equipe italiana estava querendo se firmar no cenário nacional e com um plantel sólido caminhou para o seu primeiro e único scudetto na história. Era uma formação repleta de operários, que souberam crescer na hora certa. Hans-Peter Briegel, Roberto Tricella, Luigi Sacchetti, Pietro Fanna, Antonio Di Gennaro e Giuseppe Galderisi marcaram seus nomes no clube e com a chegada de Elkjaer, parecia ser a peça que faltava para o sucesso.

O estrelato

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Bem cotado pela bola que vinha jogando, Preben ficou entre os três melhores jogadores do mundo da France Football nos anos de 1984 e 1985, atrás apenas de Platini e Tigana (84) e Platini em 85. Eficaz na arte de marcar gols e de dar dribles desconcertantes, fora dos campos era um furacão, um ser desapegado de tudo. Coisa que só alguém com talento de sobra poderia se dar ao luxo de conciliar.

O gol descalço

Nunca se sabia para que lado o dinamarquês ia. Ora cortava, ora parava com a bola entre os pés ou executava um drible da vaca em curto espaço. Inesquecível mesmo foi a vitória contra a poderosa Juventus, na quinta rodada da Serie A de 1984-85. Os veroneses venceram por 2-0 no Marc Antonio Bentegodi e a obra de arte da tarde ficou por conta de Preben. Ele arrancou do meio campo até a grande área e marcou um golaço driblando alguns defensores. Ao fim do lance, comemorando, apontou para o pé direito, que estava sem a chuteira, perdida vários metros antes numa dividida na intermediária.

Apesar do potencial de artilheiro, Elkjaer não fez tantos gols assim pelo Verona. Em quatro anos, foi às redes 48 vezes, bem longe de brigar por artilharia ou coisa parecida. Entretanto, sua importância no setor ofensivo era inquestionável, já que ele sempre se mostrou um jogador com excelente consciência coletiva.

Preben deixou a seleção nacional após duas Eurocopas (1984 e 88) e uma Copa do Mundo, em 1986, anotando 38 gols em 69 jogos. Nesse período, a Dinamarca ganhou a alcunha de Dinamáquina, em virtude da arte e do alto nível técnico apresentados. Nem a eliminação com goleada perante a Espanha apagou a excelente participação. Ali nascia para o mundo uma dinâmica formação por parte dos escandinavos, que bateram na Escócia e na Alemanha e ainda golearam o Uruguai por 6-1.

Com um nível técnico fora do comum, o atacante permaneceu no Verona até 1988, quando decidiu assinar com o Vejle, clube que revelara o gênio Allan Simonsen em décadas anteriores. Quis o destino que Elkjaer reencontrasse seu ídolo na fase final da carreira. Simonsen parou em 1989 e Preben o acompanhou um ano depois, em 1990, atormentado por lesões e pela sua decadência física.

Apesar da torcida do Vejle ter depositado nele várias esperanças de retomar o título dinamarquês, a passagem foi um fiasco e ele se aposentou deixando poucos anos com consistência para trás. Ao menos a missão de levar o Verona ao título foi cumprida, no que faz dele um ídolo eterno dos torcedores na Itália.

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