O embargo que impediu Lato de brilhar ainda mais

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Reverenciado como grande craque polonês do seu tempo, Grzegorz Lato passou a maior parte de sua carreira em clubes escondido no Stal Mielec. Proibição da Liga obrigava jogadores a ficarem no país até completarem 30 anos, o que impediu que o carequinha brilhasse na Europa em seu auge físico e técnico.

A década de 1970 foi brilhante no que se diz formação e desfile de talentos no futebol. Pelé, Rivellino, Zico, Cruyff, Beckenbauer, Breitner, Kempes e Lato, um polonês imparável e dono de um cabelo de tiozinho que tratava a bola com o respeito que ela merecia.

Alheio aos mais populares e midiáticos estava um polonês atarracado, que jogava como ponta e sabia como poucos de um seleto grupo de estrelas o caminho mais curto para o gol, a glória e a vibração. Arisco e veloz, tinha uma leitura incrível do jogo adversário e acima de tudo consciência nas decisões que tomava com a bola nos pés, naquela fração de segundos vital para determinar o destino da jogada.

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O Stal Mielec de Lato, bicampeão polonês. Ele é o terceiro da direita para a esquerda na fileira de baixo

Nascido em 1950, na cidade de Malbark na Polônia, Lato iniciou sua trajetória muito jovem, aos 16 anos, no Stal Mielec, agremiação que defendeu por toda a fase em que esteve no topo de sua forma física. Mesmo fazendo parte de um elenco que era mediano, Grzegorz conduziu o Stal a duas conquistas nacionais em 1973 e 76.

Pela seleção, foi um monstro absoluto, dividindo o protagonismo com  Zbiegniew Boniek, que teve a chance de desempenhar grande papel no futebol italiano nos anos 1980. Campeão Olímpico nos Jogos de Munique em 1972, Medalha de Prata nos Jogos de Montréal em 1976 e terceiro colocado nos Mundiais de 1974 e 82, o baixinho não se cansava de superar barreiras. Era uma estrela internacional pela Polônia e muitos times grandes queriam os seus serviços.

O embargo

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Lato em ação contra o Haiti na Copa de 1974: poloneses meteram 7-0 nos caribenhos

Mas uma coisa na trajetória de Grzegorz chama atenção, tanto quanto seu protagonismo na seleção polonesa. O fato de ele só poder sair de seu país depois dos 30 anos, notoriamente a fase em que o futebolista entra em declínio, na maioria dos casos. Não era exatamente uma opção para Lato. A Federação Polonesa, assim como a de outros países comunistas, impedia a saída de seus talentos antes que eles completassem 30 anos.

Em alguns exemplos, como na União Soviética, não havia nem a remota possibilidade de jogar nas grandes ligas. O grande atacante soviético dos anos 1970, Oleg Blokhin, só pôde jogar na Áustria pelo Vorwarts Steyr quando completou 36 anos, em 1988, quando já não tinha muito mais a oferecer e recebeu permissão do governo. Oleg se aposentou em 1990, pelo Aris Limassol, do Chipre. Outro grande atleta a sofrer com o embargo foi o goleiro Rinat Dasaev, que também precisou de uma autorização para deixar o Spartak Moscou e atuar no Sevilla, em 1988. Parou dois anos depois, sem se adaptar completamente ao ambiente espanhol.

Como o preparo físico naquela época não era exatamente uma equação essencial para o esporte, Lato perdeu muito do seu vigor quando entrou na terceira década de vida. Mas ele não foi o único polaco prejudicado por esta imposição. O meia Kazimierz Deyna, ídolo do Legia Varsóvia nos anos 1960 e 70, deixou o país às vésperas de completar 31 anos para jogar no Manchester City. Até hoje ele é aclamado pela torcida dos Citizens, mesmo com apenas três temporadas no clube e várias lesões.

Para Lato, não bastavam mais os prêmios individuais (foi duas vezes artilheiro do Polonês), pois ele buscava mesmo era algo maior, um papel de destaque em uma equipe de ponta. Goleador máximo da Copa de 1974 e indiscutível integrante da seleção dos melhores pelas duas edições seguintes do Mundial, Lato acabou mesmo privando o mundo de vê-lo em um ambiente realmente competitivo. E como seria fenomenal para o esporte que ele tivesse desfilado suas qualidades em uma grande liga.

Lato, o carequinha da fileira de cima, ao lado de Lubanski (esquerda) e Elkjaer (direita)
Lato, o carequinha da fileira de cima, ao lado de Lubanski (esquerda) e Elkjaer (direita): o Lokeren foi vice-campeão belga com este trio ofensivo

Em 1980, Grzegorz recebeu seu bilhete de saída da Polônia. Entretanto, ao contrário das histórias mais comuns de craques que estouram na Europa, não veio um convite para um clube de destaque no cenário internacional. Com tudo que tinha em mente e as experiências que ainda poderia viver no esporte, Lato escolheu o Lokeren da Bélgica como novo lar. Encontrou lá o compatriota Wlodzmierz Lubanski, atacante e maior artilheiro da história da seleção polonesa até hoje.

Digamos que o Lokeren não era exatamente uma potência, visto que sua grande participação na Liga Belga foi apenas um segundo lugar em 1981, justamente quando contava com a dupla polonesa e o atacante Preben Elkjaer Larsen no seu quadro de atletas. Ainda hoje parece difícil entender como um gênio do tamanho de Lato pôde esconder tanto o seu talento. Foram duas temporadas no irrelevante futebol belga até que uma nova mudança surgiu nos ares de Grzegorz.

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Em 1982, jogou sua última Copa do Mundo e provou que ainda tinha muita lenha para queimar, que o seu repertório não estava acabado. Com 32 anos, liderou sua seleção a um icônico terceiro lugar, no que foi o canto do cisne daquela geração polonesa. Dali em diante, ele ainda poderia acrescentar demais a qualquer time que defendesse. Experiente e muito técnico, mesmo ultrapassando a barreira dos trintões, Grzegorz foi para o Atlante do México e ajudou a equipe a levantar a taça da Champions da CONCACAF, em cima do Robinhood do Suriname, em 1983. Ao fim da temporada seguinte, em 1984, optou por encerrar sua carreira.

Foram apenas quatro anos de futebol em alto nível fora da Polônia, muito pouco para um ídolo tão marcante para o crescimento de sua nação no esporte. Enquanto os poloneses tentam se reerguer e montar uma equipe tão forte quanto a dos anos 1970, fica a sensação de que estes jovens de agora não terão as mesmas barreiras do que os antigos. Afinal, é raro que algum jogador extremamente promissor passe dos 20 anos atuando na Polônia. Lewandowski, Milik, Blaszczykowski e Krychowiak que o digam. Se ao menos as regras da liga polonesa não fossem tão rígidas com os seus talentos no passado, Lato poderia ter marcado seu nome como Lewandowski fez por Borussia Dortmund e Bayern.

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