Dino Sani, um lendário cão de guarda

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Dino Sani foi um perfeito retrato do futebol nos anos 50: cheio de classe e com técnica refinada, fez muito sucesso pelo São Paulo e pelo Milan como um meia de chegada incrível.

Volante classudo e de uma geração gloriosa, o brasileiro Dino Sani deu o ar da graça nos gramados italianos, depois de se consagrar em clubes brasileiros e vencer uma Copa do Mundo com a seleção de 1958, ainda que como reserva. Contemporâneo de craques como Cesare Maldini, Giovanni Trapattoni, Gianni Rivera, Alcides Ghiggia e Amarildo, Dino jogou pelo Milan entre 1961 e 1964 e conquistou um scudetto e uma Copa dos Campeões pelos rossoneri.

Com baixa estatura, Dino tinha como grandes características a marcação e a roubada de bola. Atuava como um verdadeiro cão de guarda da defesa e tinha facilidade para sair jogando. Em um tempo de jogadores mais franzinos, Sani aproveitou-se de seu físico mais robusto para se sobressair e impor respeito aos adversários. Somando a isso, tinha agilidade, visão de jogo privilegiada, ótima capacidade de trabalhar em grupo. De quebra, ainda desenvolveu a habilidade como cobrador de faltas.

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Dino superou o fato de não ter vingado no Palmeiras e foi excepcional em sua fase pelo São Paulo

Dino foi quase um nômade em sua carreira. Brilhou por vários países conquistou primeiro os gramados de São Paulo, depois os da Argentina, e, mais tarde os da Itália, em 18 anos como profissional. Começou sua trajetória no Palmeiras, em 1950. Mas não conseguiu se firmar em uma equipe cheia de craques.

Depois da frustração no Palestra Itália, Sani foi negociado com o XV de Jaú em 1951 e pouco depois com o Comercial de Ribeirão Preto, onde despontou para o futebol em alto nível em 1953. As boas atuações renderam uma vaga no São Paulo, que procurava um substituto para Bauer, ídolo do time. Pela equipe do Morumbi, Dino conquistou um Campeonato Paulista em 1957. Atuou ao lado de grandes jogadores, como Canhoteiro, De Sordi, Mauro, José Poy e Zizinho, até o ano de 1959. Naquela altura, já não era mais um mero coadjuvante, mas sim um dos astros tricolores.

O sucesso do volante não se resume só a clubes. Reserva na campanha do primeiro título mundial brasileiro em 1958, na Suécia, em função de uma lesão antes do terceiro compromisso de sua seleção na Copa, o volante apenas acompanhou a consagração das feras como Gylmar, Zito, Zizinho, Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Djalma Santos, Didi, Vavá, Zagallo, Mauro e Bellini na primeira conquista mundial da Seleção.

Dino virou até capa da tradicional revista "El Grafico" em sua passagem pelo Boca
Dino virou até capa da tradicional revista “El Grafico” em sua passagem pelo Boca

Meses depois de retornar da Suécia, recebeu boa proposta e deixou o São Paulo: foi tentar a sorte no Boca Juniors. Na Argentina, permaneceu por dois anos, já caracterizado por sua marcação impecável, posicionamento ímpar e passes precisos. Trabalhou na equipe xeneize ao lado de Antonio Rattín, bandeira do clube dos anos 1950 e 60.

A passagem por Buenos Aires não rendeu títulos, mas com bom futebol, Dino partiu para a Itália para defender as cores do Milan, onde entrou para a história. Estreou pelos rossoneri no dia 12 de dezembro de 1961, em grande vitória contra a rival Juventus (5-1) e logo caiu nas graças da torcida milanista. O brasileiro foi campeão da Serie A já na sua primeira temporada, em campanha onde os pupilos de Nereo Rocco obtiveram 24 vitórias, cinco empates e cinco derrotas.

Aquela campanha teve vitórias memoráveis sobre os grandes rivais, Inter e Juventus. No primeiro turno, o bom time do Milan venceu o “Derby Della Madonnina” contra a Inter por 4-2 e bateu a Juventus por 5-1, na supracitada estreia do brasileiro. A outra vitória contra o time de Turim, no returno, também foi incontestável: 4-2. Com cinco pontos de vantagem na tabela sobre os rivais nerazzurri treinados por Helenio Herrera, Giacinto Facchetti e Sandro Mazzola, o Milan não encontrou muitas dificuldades para conquistar o scudetto, mostrando bom aproveitamento dentro e fora de casa.

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A era de sucesso milanista prosseguiu até o ano seguinte, quando a equipe de Maranello conquistou seu primeiro título europeu, em 1963. Naquela campanha, o time de Dino deixou pelo caminho o US Luxembourg, o Ipswich, Galatasaray e o Dundee, antes do desafio contra o Benfica do lendário Eusébio. A partida épica em Londres terminou em 2-1 para os italianos, com dois gols de José Altafini, o Mazzola. Sani foi titular na decisão e um dos grandes destaques pelo Milan.

Em 1964, então, ele voltou ao Brasil, já com condição física longe do ideal, aos 32 anos. Encerrou sua carreira no Corinthians, onde levantou sua última taça: a do Torneio Rio-São Paulo de 1966, troféu polêmico que foi dividido entre Botafogo, Corinthians, Santos e Vasco. Este seria, em tese, o título que tiraria o Timão da fila de 23 anos, mas não foi considerado oficialmente.  A equipe de Parque São Jorge, como se sabe, só acabaria com a angústia de sua torcida em 1977, no Paulistão, contra a Ponte Preta.

Dois anos depois do Rio-São Paulo, em 1968, Dino se aposentou e começou carreira de treinador no próprio Corinthians, substituindo Osvaldo Brandão. Com trabalhos notáveis no Internacional (tricampeão gaúcho em 1971, 72 e 73) e no Peñarol (bicampeonato uruguaio em 1978 e 79) durou na profissão até 1991, quando se desligou definitivamente do esporte. Nesta segunda fase no esporte, foi responsável também por revelar e preparar atletas como Rivellino, Paulo César Carpegiani e Jorge Mendonça.

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