Dadá, o artilheiro que parava no ar

dada-1972Dario será sempre lembrado no futebol pelas suas frases cômicas, pelo carisma e os gols de cabeça. Ao longo de quase vinte anos de carreira, o artilheiro colecionou algumas grandes histórias no esporte.

Falastrão, goleador, caneludo, carismático e suposto pivô de uma crise envolvendo João Havelange, Emílio Garrastazu Médici e João Saldanha: em 19 anos dedicados ao futebol, Dario -ou Dadá Maravilha- certamente foi uma figura das mais queridas do país. Com fama especialmente na década de 1970, o atacante protagonizou boas histórias nos seus tempos de profissional. Mesmo com todo o marketing e as frases bem boladas, ele não era mesmo pouca coisa: marcou mais de 500 gols em sua carreira, se tornando um dos mais bem sucedidos atacantes do Brasil.

Tudo começou para Dario em 1967, quando defendia o Campo Grande do Rio de Janeiro. Um ano no pequeno clube carioca com uma baciada de gols no estadual (22) chamaram a atenção de outro alvinegro: o Galo. Contratado pelo Atlético em 1968, ele entrou para o seleto grupo dos principais atletas da posição. Era complicado se notabilizar em tempos de Pelé, Tostão, Paulo Cézar Caju e Jairzinho. Ainda assim, Dadá persistiu.

dada-gol Exímio finalizador, com ênfase para sua grande capacidade de cabeceio, o homem de frente do Galo ganhava o Brasil com os seus muitos gols e frases folclóricas. Tão cedo passou a ser uma atração nos jogos do Atlético. Em quatro anos, marcou mais de 100 gols, sendo o mais célebre deles na decisão do título nacional de 1971 frente o Botafogo. Vencendo o triangular final, o alvinegro mineiro se tornou campeão brasileiro daquele ano, superando o São Paulo. Além de consagrar Dadá, a conquista serviu para mostrar o talento de Telê Santana como treinador.

Pressão por pressão, Dario na seleção

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Às vésperas do Mundial de 1970, um episódio marcou definitivamente a trajetória do atacante, que mesmo sem ter feito nada, causou um tremendo bafafá. De acordo com vários historiadores e jornalistas da época, Dario foi indiretamente responsável pela demissão de João Saldanha como técnico da seleção brasileira. A história foi defendida pelo próprio Saldanha no livro escrito por André Iki Siqueira, “João Saldanha: uma vida em jogo”, de 2007. João dizia que o Presidente Médici fez certa pressão para que ele convocasse o goleador (então no Galo) para a Copa de 70.

Como troco pelo desmando do militar, o técnico não só deixou Dario de fora das listas, como chamou Zé Carlos, do Cruzeiro para a posição. Cheio de coragem, o comandante canarinho cita determinada conversa com o Presidente: “Trate de seu ministério que eu trato da seleção”. Anos depois comentaria com mais profundidade o ocorrido. “Quiseram impor o Dario. Ele era de bom nível, mas os meus eram craques. Meu time era uma máquina, não tinha lugar pra ele, não.”

Mesmo que João Havelange, presidente da CBD e o próprio Médici negassem o pedido, João manteve sua teimosia e insistiu na tese de que isso havia causado a ruptura com os dirigentes. Pouco depois da primeira negativa, a seleção fez um amistoso contra o Atlético, no Mineirão. Dadá marcou o segundo gol da vitória por 2 a 1 da equipe mineira. Pelo sim e pelo não, ele acabou fazendo parte do plantel que venceu o Mundial no México, embora chamado por Zagallo, que foi o sucessor de Saldanha, mas não chegou a entrar em campo.

Um homem de muitas torcidas

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Dadá comemora o título brasileiro pelo Inter em 1976

Em 1972, Dario deixou Minas Gerais e assinou com o Flamengo, que estava perto de entrar em sua fase dourada com Zico, Júnior, Andrade, Adílio, Nunes e Leandro. A passagem pelo rubro-negro não foi tão boa quanto esperado: Dario balançou as redes “apenas” 32 vezes, abaixo de sua média. Contudo, seus tempos de Gávea não foram em vão, já que levantou o caneco da Taça Guanabara em 1973 e o Carioca em 1974. Voltou ao Atlético em 1974 antes de assinar com o Sport.

De saída para o calor do agreste, conseguiu uma façanha até hoje não igualada: fez 10 gols contra o Santo Amaro, pelo Pernambucano de 1976. A partida terminou em 14 a 0, no dia 7 de abril daquele ano. No campeonato em questão, Dario deixou sua marca em 30 oportunidades, sendo o goleador do torneio. Volnei, do Santa Cruz, ficou em segundo, com nove gols a menos. O ano brilhante rendeu uma proposta do Internacional, na qual o atacante prontamente aceitou.

Palavra de quem sabe

“Ele não tinha vergonha de fazer gol de bico, de canela. Pra ele, o importante era marcar. Não tinha nenhuma habilidade, mas compensava isso com bom posicionamento na área, se colocava muito bem nos ataques. Importante lembrar que sempre tinha grandes times para criar suas chances, como no Inter e no Atlético. Fazia muitos gols de cabeça pois treinava até cansar o fundamento”, diz Obson Almeida -pai deste que vos escreve-, que já acompanhava futebol à época e é bacharel na arte de ser centroavante.

1976 foi um ano especial para Dadá, que foi campeão brasileiro com o Inter. Aquela equipe fantástica que começava com Manga, passava por Marinho Peres, Figueroa, Batista, Falcão, Carpegiani e terminava em Lula e Valdomiro, sem contar o próprio Dario. 16 gols no nacional, mais uma vez a artilharia e um tento importantíssimo na decisão contra o Corinthians, justamente como fizera em 1971, de cabeça. Valdomiro fechou o placar em 2-0 e o Colorado conquistou seu segundo campeonato brasileiro.

Marcou em repetidas e incansáveis vezes com a camisa do Inter antes de assinar com a Ponte Preta em 1977. Na Macaca, chegou já com a sua fama consolidada, mas sem apresentar o futebol que lhe fez ser reconhecido anos antes. Sem ter o privilégio de conquistar algum caneco com a Ponte, retornou ao Atlético para mais uma estadia gloriosa.

Galo até morrer. Dadá posa ao lado de Tostão nos anos 70, no auge de sua carreira
Galo até morrer. Dadá posa ao lado de Tostão nos anos 70, no auge de sua carreira

Incumbido da missão de substituir o lesionado Reinaldo, maior ídolo da história da torcida atleticana, Dadá chegou do seu jeitão particular: discurso de rei, futebol nobre e muita bola na rede. Campeão mineiro em 1978, também ergueu a Taça Minas Gerais, deixando mais um caminhão de gols para a torcida, mostrando que ainda sabia o caminho mais curto até o barbante.

Dadá itinerante

A partir daí, abusou da graça que tinha com o povo e jogou em diversos cantos do Brasil, sempre desfilando seu humor e suas frases icônicas. Já em 1971 lançou aquela sentença que nunca mais seria desassociada da sua imagem. “Existem apenas três coisas que param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha.”

Dono da máxima do “não existe gol feio, feio é não fazer gol”, Dario seguiu à risca seu próprio teorema e fez a alegria de muitas torcidas até 1986. De 1979 em diante, defendeu Paysandu, Náutico, Santa Cruz, Bahia (1981 e 83), Goiás, Coritiba, novamente o Atlético em 1983, Nacional do Amazonas, XV de Piracicaba e Comercial de Registro, até enfim pendurar as chuteiras.

Amava o futebol e o futebol certamente o amava também, pois com Dadá em campo, não havia placar em branco. Era o fim da linha para o homem que fez 500 gols apenas correndo e pulando. Três vezes artilheiro do Brasileirão, em 1971, 72 e 76, Dario não parou no tempo: continua marcando seus gols na crônica esportiva em Minas Gerais.

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