Keegan no Hamburgo: uma história surpreendente de sucesso

Kevin Keegan Hamburgo

Atacante inglês estava no auge de sua carreira e havia acabado de ser campeão europeu com o Liverpool. Transferência astronômica do craque em 1977 alavancou a moral do Hamburgo, que chegou com ele ao topo da Alemanha.

Antes de encerrar sua passagem brilhante de seis anos por Anfield, Keegan já estava entre os grandes jogadores que a Inglaterra produziu. Caro demais para permanecer no clube, negociou ainda em 1976 seu último ano de contrato com os Reds. E impôs que deveria ser vendido por meio milhão de libras, o que na época era uma quantia absurda.

Sabendo que o craque estava de saída, outros clubes europeus demonstraram interesse em contrata-lo, mas esbarraram na quantia exorbitante. Bayern e Borussia M’Gladbach, as forças dominantes alemãs, por exemplo, quase caíram para trás quando ouviram o pedido dos dirigentes do Liverpool. Entretanto, um clube queria se meter na briga para ver quem era o grande clube do país: o Hamburgo, tricampeão antes da Era Bundesliga.

Kevin tinha 26 anos quando resolveu deixar a sua terra natal em busca de uma fase que o desafiasse ainda mais. Afinal de contas, ele era King Kev, o queridinho da mídia, uma estrela que soube explorar seu potencial carismático em jornais e aparições públicas. Apesar do talento incontestável e da fama de bom moço, Keegan também andava sobre a linha da insanidade. Era temperamental em campo e provou isso acertando um murro na cara de Billy Bremner no Charity Shield em 1974, contra o Leeds.

Sede de grandeza

Hamburg 3 Kaiserslautern 0

O Hamburgo queria ser tão grande quanto havia sido antes da formação da Bundesliga. E para isso, deveria ter um time respeitável. Os Dinossauros pagaram o preço pedido pelo próprio Keegan e chocaram a Europa ao contratar o Cristiano Ronaldo da época, guardadas as devidas proporções. Keegan podia até não marcar tantos gols quanto o português, mas a fama justifica e iguala alguns dos termos de comparação.

Para o Hamburgo, então gerido pelo empresário Peter Krohn, quase tudo representava uma oportunidade de marketing, que ainda estava começando a dar as caras no esporte. A jogada de atrair Kevin foi a primeira de muitas atitudes diferenciadas de Krohn, que mais tarde foi o idealizador de uma polêmica camisa rosa para testar o alcance de mercado. E mais: o Hamburgo estava atraindo patrocínios para a camisa em tempos ainda não muito frutíferos para a publicidade dentro dos clubes.

Enquanto o Liverpool vencia a Copa dos Campeões, o Hamburgo levantava a Recopa Uefa em 1977. Os dois clubes se encontraram na SuperCopa Uefa de 1977, com vitória massacrante dos ingleses na volta por 6-0, com Keegan já defendendo o outro lado. A recepção dele nos vestiários estava sendo péssima. De cara, os alemães não gostaram dele e queriam boicota-lo a qualquer custo, inclusive comprando brigas com a diretoria. Eventualmente Krohn conseguiu convencê-los de que se fosse para os Dinos alcançarem o Bayern em projeção internacional, Kevin seria uma peça-chave. E assim foram longos meses até que a adaptação do astro se desse por completa em solo germânico.

Houve até um episódio de descontrole em amistoso contra o modesto Lübeck, na pré-temporada. Keegan socou o zagueiro adversário e ganhou uma punição e uma multa, além de ter de voltar à pequena cidade só para se desculpar com os torcedores de lá. O inferno era um lugar legal perto do ambiente que o inglês e sua esposa enfrentaram nos primeiros meses. Krohn, o idealizador da contratação, foi demitido e deu lugar a Günter Netzer, ex-jogador e craque do Gladbach que iniciava sua carreira como cartola. Uma troca de direção e no comando técnico mudou a sorte do Hamburgo, que ainda vivia com um racha interno: os atletas continuavam evitando acionar Keegan nas jogadas.

Superando as adversidades

Keegan Hamburgo 2

Só na segunda temporada as coisas mudaram. A disciplina imposta pelo técnico Branko Zebec afastou todas as rusgas possíveis entre jogadores, demitindo alguns que estavam prejudicando a harmonia. Keegan, que estava em processo de conquista dos colegas, com gols no primeiro semestre de 1978, virou peça indispensável para o comandante. O Nottingham Forest, campeão inglês e treinado por Brian Clough, quis repatriar Kevin, que recusou a oferta e preferiu permanecer na Alemanha para ver até onde chegaria.

Ao fim da temporada 1978-79, o Hamburgo chegava ao topo da Liga, vencendo seu primeiro título na Era Bundesliga. Keegan era o carro-chefe, dono da camisa 7 e contracenando com Manfred Kaltz, Felix Magath e Horst Hrubesch. O inglês foi eleito pela segunda vez consecutiva como melhor jogador da Europa. Os gols subiram de 12 para 17 na temporada e naquele momento ninguém mais ousava questionar o forasteiro que queria se criar no clube. Ao fim da segunda temporada, Real Madrid, Juventus e Washington Diplomats queriam Keegan, mas Netzer assegurou a sua permanência do inglês.

O Hamburgo então voou até a final do torneio europeu e brigou até o fim com o Bayern na Liga, na terceira temporada de Kevin. A semifinal continental frente o Real Madrid reservou uma virada incrível para os comandados de Zebec: após derrota por 2-0 em Madri, um impiedoso 5-1 do Hamburgo selou a primeira participação dos germânicos na decisão. O adversário seria o mesmo Nottingham Forest que sondou Keegan por um retorno à Inglaterra, em 1978. O Forest cozinhou o rival e fez 1-0 com John Robertson, se sagrando bicampeão europeu e coroando a saga do time que saiu da segunda divisão para varrer o seu país e o mundo.

Não havia muito mais o que experimentar. Keegan podia até ser campeão europeu com o Hamburgo se tentasse de novo, mas aqueles três anos trouxeram um orgulho inesperado. Ele até gravou um (bom) single como cantor que alcançou o top 10 das paradas alemãs, chamado “Head over Heels in love”. Em 1980, alguns meses depois da derrota frente o Forest, Kevin fez as malas e voltou com Jean para a terra natal. E chocou novamente seu povo ao assinar com o emergente Southampton, que vinha da segunda divisão.

Kev também jogou pelo Newcastle, quando emprestou seu futebol para tirar os Magpies da segundona. Parou em 1985, aos 34 anos, idolatrado por milhões de ingleses e até mesmo pelos ex-inimigos alemães que conseguiu cativar. Anos depois, seu legado levou o Hamburgo ao título europeu de 1983, com a mesma base do time que foi vice em 1980.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *