O legado podre deixado pelo rei João Havelange

João Havelange

Não deixa de ser simbólico que João Havelange tenha falecido durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016. Mas o simbolismo maior esteja no fato que um dos maiores dirigentes esportivos dos últimos cem anos tenha ficado alijado do evento pelo qual trabalhou muito para acontecer em sua cidade natal e que coincidisse exatamente com o ano de seu centenário.


Afastado a pedido de qualquer vinculo com o COI e com a FIFA desde o momento que começaram a pipocar as acusações de corrupção e clientelismo durante sua gestão nas duas entidades, Havelange esteve fora do protocolo de qualquer cerimônia dos Jogos. Com a saúde combalida e reputação arranhada, o outrora vigoroso e dominante dirigente marcou presença apenas ao levar as bandeiras à meio-pau como respeito por seu falecimento.

João Havelange iniciou-se no esporte como atleta e esteve nas Olimpíadas de Berlim 1936 como nadador e como jogador de polo aquático em Helsinque em 1952, fato do qual sempre se orgulhou e ao qual atribuía sua saúde e longevidade. Após aposentar-se como atleta Havelange passou a atuar nas empresas de sua família sem no entanto desligar-se do esporte, seguindo carreira como dirigente em clubes e na Federação Paulista de Natação, galgando aí os primeiros degraus que o colocariam na presidência da Confederação Brasileira de Desportos, a CBD. Talvez tenha lido “O Príncipe” de Maquiavel, talvez não, mas é certo que Havelange encarnou à perfeição o príncipe ideal ao aliar virtude e fortuna como presidente da CBD justamente quando o Brasil conquistou o seu primeiro feito esportivo: a Copa do Mundo de 1958 na Suécia. Havelange delegou a Paulo Machado de Carvalho o comando da seleção, que por sua vez montou uma competente equipe diretiva e que contava em seu escrete fabuloso com dois rapazes chamados Pelé e Garrincha.

Escorado pelo sucesso futebolístico e da popularidade da seleção brasileira, João Havelange vislumbrou a possibilidade de concorrer à presidência da FIFA, que naquele momento era apenas um pequeno escritório restrito a nobres europeus que doavam parte de seu tempo para burocracias como organizar a Copa do Mundo de quatro em quatro anos e manter relações com o COI. Foi com a promessa de uma gestão menos europeizada e com maior atenção aos países menores e menos influentes na FIFA que João Havelange assegurou sua eleição para presidente da entidade. Mais vagas na Copa do Mundo, mais torneios, maior atenção. Residia nisto a campanha eleitoral de João Havelange, que acabou eleito durante o Congresso da FIFA realizado em 1974 na Alemanha, simultaneamente com a Copa do Mundo.

A partir deste momento o futebol transfigurou-se. Havelange fez de um prestigioso torneio de futebol entre nações um dos produtos de maior rentabilidade da historia do capitalismo. Introduziu a logica do marketing e da publicidade no futebol e associou-se com a televisão para tornar possível esta expansão mercadológica. Formou parcerias comerciais com empresas que estapeavam-se para associar seu nome ao evento sabendo que o prestigio e a paixão do futebol poderiam ser revertidos em ganhos financeiros. Aproximou-se de príncipes e xeques árabes, milionários herdeiros do petróleo que ficaram muito felizes quando passaram a sediar os recém criados torneios mundiais de jovens uma vez que a Copa do Mundo ainda estava restrita a nações com certa influencia e tradição na FIFA. A própria Copa do Mundo viu dobrar o número de participantes com a inclusão de mais vagas para a Ásia, África e Oceania, continentes com pouca tradição no futebol mas porém com numerosas nações. E nas democráticas eleições da FIFA cada nação representava um voto.

Sabedor da arte da política, percebeu como poucos como poderia angariar poder mimando dirigentes fazendo uso do único porém valioso produto que tinha em mãos, a Copa do Mundo. E a ferramenta para isso eram os ingressos. As entradas eram vitais como moeda na conta corrente da influência, como revela um episodio ocorrido durante a Copa de 1982 na Espanha, a segunda sob a gestão Havelange e a primeira com 24 países participantes. Havelange havia recebido em seu hotel 400 ingressos. Eram assentos situados atrás de um dos gols e na opinião do presidente da FIFA a situação exigia ingressos de tribuna. Havelange dirigiu-se ao escritório de Ramon Saporta, presidente do comitê organizador local da Copa do Mundo e pediu que ele fizesse a alteração. Aflito, o responsável pelo comitê local alega não ter condições de efetuar a troca, uma vez que os lugares requisitados por Havelange já haviam sido comercializados. Havelange levanta-se, vai até a porta, tranca-a e coloca a chave no bolso. Volta-se a se sentar e diz que não sairá dali e nem permitirá que Saporta saia até a situação se resolva. Vinte minutos e uma série de telefonemas depois o presidente da FIFA sai da sala com seus quatrocentos assentos assinalados de acordo com sua exigência. Não sabemos quem recebeu os ingressos porém podemos deduzir que renderam votos e influência para o cartola brasileiro.

Um negócio bilionário cujos dividendos ficaram para Havelange e seus parceiros de negócios. Havelange apropriou-se do futebol, um patrimônio imaterial e cultural em uma empresa pessoal e fez dele sua alavanca para o poder além de permitir que pessoas faturassem com ele sob seus auspícios. Talvez a Havelange não interessasse tanto o dinheiro mas sim o poder que poderia comprar com ele. E esta gestão mercantilista e obsessiva pelo poder corroeu o futebol até desembocar no modelo que assistimos nos dias de hoje.

É por causa de Havelange e seu modelo que as Copas do Mundo exigem mais estádios que custam bilhões aos cidadãos dos países-sede. É por causa de Havelange que partidas de futebol ocorrem sob o sol do meio dia em países tropicais para que possam ser exibidos no horário nobre europeu. É por causa de Havelange que o refrigerante no estádios custam tão caro. É por causa de Havelange que os ingressos de Copas custam pequenas fortunas. É por causa de Havelange que as arquibancadas estão preenchidas por burocratas, socialites, empresários e outras qualificações que, se por um lado tem o direito de lá estar, também sabemos que lá estão por motivos alheios ao esporte, excluindo um grande numero de pessoas que amam e vivem do futebol.

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