O Brasil não tem obrigação de ser campeão de tudo

Foto: CBF/Ricardo Stuckert
Foto: CBF/Ricardo Stuckert

Foi-se o tempo em que o Brasil era o principal celeiro de craques e histórias que contagiam o mundo. Hoje estamos ocupando um papel secundário e isso talvez provoque uma mudança na forma como encaramos o desempenho da Seleção, tanto no masculino quanto no feminino.

Doeu demais a nova eliminação da Seleção feminina nas semifinais das Olimpíadas, diante da Suécia. Depois de um 5-1 absoluto na primeira fase, as suecas entenderam o que precisavam fazer para anular o poderio ofensivo da equipe de Vadão. Muito pela ausência de Cristiane, lesionada, o Brasil perdeu a força no ataque e colecionou finalizações erradas. Foi um empate frustrante no tempo normal e na prorrogação, com intensa pressão do time da casa no Maracanã. Agora terá de se conformar com a luta pelo bronze.

Fossem as meninas pentacampeões do mundo e donas do melhor futebol que a humanidade já viu, provavelmente este resultado seria considerado um fiasco, ainda mais dentro de casa, no Rio de Janeiro. Mas algumas coisas precisam ser levadas em conta antes de taxar a campanha como um fracasso. Foi um insucesso, é verdade, mas ainda é diferente do que rotular a geração como amarelona ou fraca em jogos decisivos.

Bem, vamos pelo começo: o Brasil da estreia contra a China e do 5-1 contra as mesmas suecas era um. O de hoje era outro. No terceiro jogo sem Cristiane, o time de Vadão falhou em marcar gols outra vez. Não adiantou que Formiga fizesse partidas impecáveis e de nota 10 na marcação. Não foi o bastante ter Marta no papel de articuladora e chamando a responsabilidade para levar a bola ao gol. Falharam as inúmeras chances criadas. Falhou o esquema invisível do treinador, que não tentou outra proposta e morreu abraçado às suas convicções.

Ficou evidente a carência de opções de jogo, a falta decriatividade, das cartas que não saíram da manga. Debaixo de um forte calor, os times cansaram e definharam. Só a Suécia, que cozinhou o confronto na defesa, não cansou tanto quanto deveria. A cada lance que ia pela linha de fundo, o drama aumentava.

A final escapou. Pela segunda vez consecutiva em Olimpíadas. Mas ao menos o Brasil ficará entre as quatro principais seleções, à frente das tetracampeãs americanas. Bi-vice campeã olímpica, a turma de Marta ainda não foi vencedora em torneios como a Copa do Mundo e a própria Olimpíada. Mas isso não quer dizer que elas sejam “apenas perdedoras”. E quem foi que disse que só pelo fato de elas serem brasileiras, são naturalmente obrigadas a ser campeãs de tudo?

Precisamos parar de achar que somos sempre protagonistas do futebol pelo que fizemos no passado. As meninas não podem carregar a cruz que na verdade pertence aos homens e seus vexames retumbantes. Quando foi a última vez que as garotas sofreram uma derrota humilhante? Difícil lembrar. Mas enquanto não ganharem algo de peso, continuarão na mira de quem vive de duvidar delas, ano a ano, mesmo sem prestigiar minimamente seus jogos.

A cobrança vem para desmerecer um time que se empenha demais, que acredita, que não desiste enquanto houver um pingo de energia no corpo. Assim como não abandonamos o Brasil nos anos 1930, 40 e 50, não podemos virar as costas para este esforço histórico que certamente culminará em bons frutos dentro de pouco tempo.

Apenas os melhores absolutos do mundo podem ser cobrados por resultados que são condizentes com o desempenho apresentado nos anos anteriores às grandes competições. Antes de cobrar o primeiro título, talvez seja melhor apoiar o suficiente para que elas tenham confiança para chegar na hora decisiva e dar um passo à frente.

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