Pretinha: o fôlego interminável de uma vencedora

Pretinha Brasil

Pretinha ajudou a evoluir o futebol feminino brasileiro desde 1989 e encerrou no ano passado uma longa e brilhante carreira no esporte. Ex-atleta e medalhista olímpica, esteve na primeira Copa do Mundo feminina com o Brasil e também fez parte do grupo que fundou a primeira liga Americana de futebol feminino profissional. Prodígio do nosso futebol, ela estreou pela Seleção aos 16 anos.

Já ouvimos falar de atletas que duram mais de duas décadas como profissionais no esporte que praticam. A maioria deles acaba caindo no esquecimento em virtude da queda de rendimento e a perda de relevância. Definitivamente não é o caso de Delma Gonçalves, uma carioca que saiu ainda menor de idade de casa para traçar uma história incrível com a Seleção Brasileira.

Para quem não sabe do que ela conquistou no futebol, as taças são meras condecorações que uma atleta de tamanha importância já recebeu na carreira. Pretinha foi uma das pioneiras, estreou ainda menina com a camisa do Brasil no Mundial inaugural da sua modalidade. E só a sua presença naquela longínqua competição de 1991 já é uma prova do que ela foi capaz. Não era para ter sido daquela maneira.

As meninas do Brasil se preparavam para o torneio mundial e fizeram um amistoso contra uma equipe de Nova Iguaçu antes de viajar para a China. Uma goleada da Seleção animou todas elas para a disputa, mas uma jogadora adversária chamou a atenção com o seu estilo imparável: baixinha, com 1.57m, Delma conseguiu encantar tanto a delegação que acabou ganhando uma vaga para a Copa. Delma virou Pretinha, mas também ganhou outros apelidos antes da fama, como Pelezinha, Nêga e Terezinha. Pela primeira vez, ela saía do Rio de Janeiro, do coração do bairro Senador Camará, no subúrbio carioca. Entrou em um avião e fez uma longa viagem rumo à China. O Brasil não foi bem e só venceu uma partida contra o Japão na competição, sem conseguir uma vaga para as quartas de final. Mas era tudo novo e exceto os times escandinavos e os Estados Unidos, ainda não se sabia quem poderiam ser as outras potências no esporte.

Pretinha chegou para ficar. Largou os estudos na sexta série, em nome do futebol, naquele mesmo ano de 1991. Não saiu mais e jogou outras três Copas com a marca de uma atleta determinada a vencer. Só não esteve na edição do Mundial em 2003 por que se lesionou gravemente no joelho. Foi artilheira na Olimpíada de 1996, quando o Brasil ficou com o quarto lugar, perdendo para a China nas semifinais e na disputa do bronze contra a Noruega.

A verdade é que em qualquer exercício de lembrança das meninas que acompanharam o crescimento da modalidade nos anos 1990 e continuaram firmes nos anos 2000, Pretinha é uma das famosas. Do Mendanha para o Nova Iguaçu, do Nova Iguaçu para o Vasco: a atacante sofreu assim como as outras colegas e adversárias com a falta de uma liga em escala nacional.

O Campeonato Carioca feminino vivia um hiato desde 1989, sem apoio e estrutura. Apenas em 1995 a disputa retornou e o Cruzmaltino de Pretinha foi hexacampeão até 2000. Depois disso, ela saiu para jogar no exterior. Enquanto não havia campeonato e time de campo, Pretinha atuou pela equipe de futsal do Vasco para manter a forma.

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O prestígio fora do Brasil

Pretinha 2014

Quando a liga norte-americana se formou, em 2001, Pretinha foi uma das 20 atletas fundadoras. Ao lado de Mia Hamm, Roseli e Abby Wambach, a brasileira deu o pontapé inicial na iniciativa pelo Washington Freedom. E ela ainda teve a honra de fazer o primeiro gol no futebol profissional feminino nos Estados Unidos. Delma foi trocada pelo Freedom com o San Jose Cyber Rays em 2002, que era o detentor do título. Entretanto, não conseguiu ser campeã e a liga foi extinta em 2003. Uma lesão grave no joelho impediu que ela disputasse a última temporada da WUSA e arrumasse um clube para o ano seguinte.

Neste intervalo, ela esteve em duas Copas do Mundo, em 1995 e 1999. Uma campanha fraca em 95 foi prontamente esquecida com o terceiro lugar em 99. Pretinha fez três gols na lavada por 7-1 contra o México, na primeira fase. Entretanto, a fantasia só durou até semifinal, quando o Brasil perdeu para os Estados Unidos por 2-0. Quem considerava que ela já estava no fim do seu ciclo com a lesão e a perda da disputa em 2003, se surpreendeu com a grande atuação dela em 2004. Medalhista de prata em Atenas, Delma não se preocupava em ser a dona do show ou em abusar do egoísmo com a bola nos pés. Para ela, a vitória maior era fazer parte de um grande time.

As Olimpíadas de 2004 significaram a primeira derrota que impediu as meninas do Brasil de serem medalha de ouro, mas há um certo orgulho em relação a esta campanha, que foi excelente com tão pouco apoio. Pretinha, que estava indo muito bem na primeira fase, marcou o gol que classificou a Seleção contra a Suécia, nas semifinais. Também empatou o jogo na final contra os Estados Unidos, mas as americanas buscaram o segundo com Wambach, de cabeça, na prorrogação, ficando com o título.

O drama se repetiu em Pequim, novamente contra as americanas. Pretinha, já com 33 anos, viu do banco o placar magro de 1-0 que deu a segunda medalha de prata para o Brasil. Se nas Olimpíadas as meninas batiam na trave, no Pan-Americano e na Copa América as atuações eram consistentes e vitoriosas: só Pretinha foi tricampeã continental com a camisa verde e amarela. No Pan, foi medalha de ouro em 2007, curando a frustração de não estar apta para jogar na edição de 2003, em Santo Domingo, por atuar no futebol dos Estados Unidos.

Pretinha, em sua apresentação no Icheon Daekyo, em 2009
Pretinha, em sua apresentação no Icheon Daekyo, em 2009

O ciclo dela com a Seleção, que se encerrou em 2008 com a prata em Pequim, também contou com uma última participação em Copas, na edição de 2007, na China. E o Brasil perdeu a final para as alemãs, que contavam com a inspirada Birgit Prinz para resolver a partida. Nem isso fez com que ela perdesse o interesse pelo esporte. Do contrário: Pretinha, que estava no Kobe Lionessa do Japão, assinou em 2009 com o Icheon Daekyo, da Coreia do Sul. E há até pouco tempo atrás, desfilava como uma das referências e exemplos da liga. Parou ao fim do ano de 2015 para assumir um cargo na comissão técnica do Brasil.

Ela não parou de correr e nem de sonhar. Quando chegou à Coreia do Sul, disse que não queria pensar em ser MVP e nem artilheira. Queria ser campeã, mas o mais longe que chegou foi ao vice na temporada passada, perdendo nos pênaltis para o Incheon Hyundai.

Do lado de fora, Delma não pode fazer nada além de apoiar as suas antigas colegas em rumo do ouro no Rio de Janeiro. Respeitada por tudo o que fez pelo esporte e pelas meninas que sonham em seguir carreira no futebol, Pretinha aos poucos se adapta ao novo papel como motivadora. Para quem começou com muito pouco ou nada, chegar tão longe de dominar o mundo ou as Olimpíadas é um sonho. Um sonho compartilhado com outras milhares de meninas.

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