Mia Hamm e o reinado das meninas americanas

Mia Hamm

Bicampeã mundial e olímpica, Mia Hamm foi a atleta perfeita que liderou os Estados Unidos até o topo do futebol. Excelente em todos os fundamentos, atacante não deu a sorte de disputar a era mais desenvolvida do esporte por clubes e seu sucesso foi praticamente restrito à seleção.

Mia Hamm não foi a pioneira entre as grandes jogadoras formadas em solo americano. Entre 1987 e 2004, ela conquistou os títulos mais sonhados da modalidade, quase sempre à sombra de Michelle Akers. Colheu os louros da fama e se tornou uma estrela mundial pelas suas atuações de tirar o fôlego. Quem via a menina dar os primeiros passos jogando e se destacando contra os garotos no High School devia saber que ela era diferenciada.

Foi na Itália que ela aperfeiçoou as técnicas que a fariam famosa. Jogou por muito tempo no North Carolina Tar Heels, uma equipe universitária que varreu o país enquanto Mia esteve por lá. Foi tetracampeã nos quatro anos em que esteve à disposição do time. De 1989 a 93 os Tar Heels dominaram as competições nacionais. Só não atuou em 1991 para poder se preparar para a Copa do Mundo.

A técnica de Mia era perfeita. Sabia o momento exato de um drible, a força que deveria aplicar em um chute e como se posicionar para encarar a marcação. Para uma atacante, ter muita habilidade, agilidade, técnica e visão de jogo era como fazer um passeio no parque, ela conhecia tudo como a palma da mão. Quando se aposentou, era dona de alguns recordes particulares como a maior artilheira do mundo por uma seleção, com 158 gols, e a atleta americana com mais partidas, somando 275. Não ficava muito atrás no número de assistências, com 144. Números não são nada sem um pouco de magia e Hamm sabia bem disso, atuando sempre de forma coletiva, sem qualquer egoísmo.

Apesar de estar em uma competição interna com Michelle Akers pelo posto de maior jogadora dos Estados Unidos, ela certamente levou a melhor pela importância que teve no período que representou o país. Diferentemente das craques da atual geração, como Hope Solo, Carly Lloyd, Alex Morgan e a recém-aposentada Abby Wambach, Mia não tinha uma liga nacional forte, sequer havia uma competição entre equipes americanas profissionais.

Mais números: quando o prêmio de melhor jogadora pela Fifa foi criado, a atacante foi a vencedora nas duas primeiras edições, em 2001 e 2002, já no fim de sua extensa carreira. Fato é que o futebol feminino em si cresceu demais enquanto Mia se consolidava. Para que uma modalidade esportiva seja facilmente disseminada pelo mundo, é preciso uma estrela de forte representatividade, e Mia certamente foi o gênio que alavancou essa popularidade. No Brasil, por exemplo, as jogadoras que puxaram a fila foram Sissi, Kátia Cilene, Formiga, Roseli, Michael Jackson e outras, presentes na Olimpíada de 1996, a primeira com torneio feminino no futebol.

Num país em que o futebol é o quarto ou quinto esporte na preferência do público, Mia Hamm alçou status de celebridade. Aos 15 anos ela era convocada pela primeira vez pela seleção dos EUA. Aos 19, disputava como a mais jovem do elenco a inaugural Copa do Mundo de 1991, na China. E as americanas nadaram de braçada para atropelar todas as rivais que vieram pelo caminho. As americanas embalaram em vitórias contra a Suécia (3-2), Brasil (5-0) e Japão (3-0). A segunda fase foi facílima, com direito a dois passeios contra Taipé Chinesa (7-0, com quatro gols de Akers) e Alemanha (5-2). Só mesmo a final diante das norueguesas é que foi complicada, em um apertado 2-1 decidido com dois gols de Akers. Não à toa, Akers recebeu o prêmio de melhor jogadora do torneio, com 10 tentos.

Coringa

Mia, que era escalada como volante, só teve destaque anos mais tarde como a principal referência ofensiva. O mundial de 1995, na Suécia, por exemplo, mostrou toda a sua versatilidade. Contra a Dinamarca, os EUA venciam por 2-0 e a goleira americana foi expulsa. Hamm foi pegar no gol até o apito final e não foi vazada. Logicamente não poderiam depender dela na posição, já que o forte mesmo era fazendo gols ou dando passes açucarados para as companheiras. O bicampeonato não veio, visto que as norueguesas deram o troco por 1991 e eliminaram as algozes nas semifinais antes de bater a Alemanha para ficar com o título.

Orgulho nacional

Hamm em 1996, contra a China, pelas Olimpíadas de Atlanta
Hamm em 1996, contra a China, pelas Olimpíadas de Atlanta

O primeiro ouro americano na modalidade veio na estreia do torneio feminino nas Olimpíadas. Mais de 70 mil pessoas viram em Athens, na Georgia, a consagração de suas meninas. Hamm, que já era protagonista, saiu lesionada na decisão contra a China, vencida por 2-1. O que não diminuiu o seu brilho.

Três anos mais tarde, novamente em solo americano, Mia cativou o público com o seu jogo na Copa do Mundo. As donas da casa atropelaram todo mundo na primeira fase e prontamente honraram o favoritismo ao derrotar com sobras a Dinamarca, a Nigéria (7-1) e a Coreia do Norte. Na fase final, a Alemanha e o Brasil ficaram pelo caminho. Reencontrando a China no último duelo, os Estados Unidos sofreram no Rose Bowl e empataram em 0-0, provocando a disputa das penalidades. Todas as americanas converteram suas penalidades, sendo Mia a penúltima a bater. Liu Yang perdeu pela China e Hamm comemorou o seu segundo título mundial.

A profissionalização

O céu era o limite e não havia mais nada inédito para que ela conquistasse. Mas Mia ainda tinha alguns anos pela frente. Uma Copa do Mundo e duas Olimpíadas a disputar. Em Sydney, pelos jogos do ano 2000, conquistou uma medalha de prata após a derrota para a Noruega por 3-2. O que parecia ser o fim de um ciclo absolutamente vitorioso para os Estados Unidos, na verdade impulsionou uma grande mudança no futebol feminino de lá: a criação da liga profissional, chamada Women’s United Soccer Association, em 2001.

Vinte jogadoras (Mia e Akers estavam entre elas) foram as fundadoras da Liga, que atraiu enorme interesse nos meses iniciais. Oito times davam a largada para o torneio que devia ter feito do país uma potência não só como seleção, mas como a meca das grandes jogadoras do planeta. A camisa 9 se alinhou com Pretinha, Roseli e Abby Wambach, que seria a sua legítima sucessora no coração da torcida, para atuar pelo Washington Freedom. O o início foi animador: com outras estrelas como Sun Wen, Birgit Prinz, Sissi e Kátia Cilene, a WUSA contou com alto investimento e transmissões amplas para o público dos Estados Unidos.

Em três edições, campeãs diferentes: primeiro o Bay Area CyberRays de Sissi e Kátia Cilene levou o caneco. Depois, o Carolina Courage de Birgit Prinz e por último o Washington Freedom de Hamm e Wambach, vice-campeão em 2002. O que estava fadado ao sucesso acabou virando um fiasco em virtude da baixa audiência e do prejuízo dos investidores. Em menos de três anos a WUSA nasceu e desapareceu do mapa. Mesmo sem a liga, os clubes continuaram licenciados e com algumas jogadoras que estiveram na gênese do torneio, durante amistosos e turnês ao redor do país.

Contudo, a esperança acabou sendo despedaçada e outras competições tomaram o lugar da WUSA como as principais da modalidade. Três outras ligas foram formadas até que a National Women’s Soccer League fosse estabelecida, em 2012, com as maiores estrelas do país e outras atletas estrangeiras. Este é o principal campeonato feminino dos Estados Unidos na atualidade, mas ainda muito longe da tradição que clubes suecos, franceses, alemães e ingleses conseguiram no esporte.

Fim da linha

Mia Hamm x Brasil

Entre frustrações e conquistas, Mia Hamm chegou ao seu último torneio de alto nível nas Olimpíadas de 2004, em Atenas. Com 32 anos e um papel de liderança incontestável, a maior craque americana encerrou o ciclo com a segunda medalha de ouro olímpica. Mesmo sem fazer tantos gols (apenas dois), Mia chamou a responsabilidade de guiar as suas colegas para fazer a transição de gerações. Ali os Estados Unidos se despediam da geração noventista para saudar atletas como O’Reilly, Lilly, Wambach, Rampone e Boxx.

A final foi um verdadeiro drama contra o Brasil, talvez a maior bola na trave que as meninas da Seleção já viveram. Tarpley abriu o placar no primeiro tempo e forçou o Brasil a atacar. Apesar de terem jogado melhor e criado mais chances, as brasileiras não conseguiam vazar a goleira Scurry. Pretinha apareceu para empatar após jogada incrível de Cristiane, dentro da área, renovando as esperanças douradas. A prorrogação foi o palco de um novo massacre verde e amarelo com duas finalizações na trave e uma penalidade não marcada cometida por uma zagueira americana. Faltou o gol, que veio em forma de punição em uma cabeçada de Wambach.

O tamanho da lenda

Ao lado de Hamm, mais quatro atletas veteranas saíram de cena para jogar apenas em amistosos ao longo de 2004, em uma turnê de despedida. Mia deixava para trás um legado vitorioso: foi cinco vezes eleita a melhor atleta feminina dos Estados Unidos, indicada como a terceira maior futebolista feminina da história (atrás de Sun Wen e Michelle Akers) em 2000 e contemplada pelo Hall da Fama Nacional do Futebol. Por fim, acabou sendo uma das homenageadas como lenda pelo Golden Foot Awards, em 2014. Ela é a única mulher e representante dos Estados Unidos a integrar o grupo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *