Um goleiro absolutamente fora do comum

Marcos Libertadores 2000

Goleiros precisam fazer um esforço hercúleo para serem dignos de nota. Apenas os que são fora de série são lembrados após o fim da carreira. Marcos se destacou pelos milagres debaixo das traves e pelo carisma quase inconsequente que conquistou outras torcidas além da do Palmeiras.

É difícil pensar que uma carreira de mais de 20 anos possa ser considerada curta. Mas quando falamos de Marcos, a sensação é que ele poderia ter sido ainda maior se não tivesse sofrido com graves lesões ao longo da carreira.

A história de Marcos Roberto Silveira Reis no futebol começa em 1990, quando ele se destaca pelo modesto Lençoense, da cidade de Lençóis Paulista, interior de São Paulo. Marcos, caipira irreversível, já havia sofrido a frustração de não ser contratado em definitivo pelo Corinthians, que poderia tê-lo alavancado ao grupo de grandes goleiros da história do Timão.

Quis a história e o destino, de forma torta, que a recusa corintiana deixasse livre um atleta de grande potencial. Chegou então ao Palmeiras em uma negociação pouco convencional com a Lençoense, em 1992. O goleiro foi com mais três atletas para o time de juniores do Verdão a pedido do técnico Raul Pratali. Os meninos foram indicados pelo olheiro Neno, que trabalhava na equipe do interior. O alviverde quitou uma dívida do Lençoense com o Ituano no valor de 40 mil dólares, que impedia que o “Demolidor da Sorocabana” disputasse competições organizadas pela Federação Paulista. Ao limpar o nome do Lençoense, o Palmeiras poderia ficar com o goleiro e mais três atletas. O time de Lençóis também pediu outro “favor” ao gigante da capital: o envio de chuteiras, bolas e calções, já que a situação estava preta, financeiramente falando.

Marcão palmeiras 1992

A determinação de Marcos em virar profissional após ter se dado mal no Parque São Jorge foi o que empurrou a sua carreira logo que chegou à Academia de Futebol. Em 1992, com cabelos longos e um mullet inconfundível, Marcos apareceu pela primeira vez entre os profissionais. O jogo era contra o Corinthians, pelo Brasileiro, na reserva de Carlos. Ivan, o suplente original, estava afastado do clube. Entre aparições pelas equipes aspirantes e reservas, Marcos esperou até 1996 para ter sua primeira chance como titular no Palmeiras. Depois disso foi difícil não ter notícias dele.

A questão é que o alviverde sempre foi muito bom em formar goleiros. Depois de Marcos, apenas Gato Fernández foi contratado, em 1994. Passaram-se quase 20 anos até que o Verdão fosse ao mercado para buscar outro arqueiro. Do Vasco, veio Fernando Prass, para a disputa da Série B. O resto é história. Pelo fato de ter fortíssima concorrência, Marcos ficou muito tempo olhando tudo do banco. Velloso, Sérgio, Carlos, Gato Fernández. Alguns dos camisas 1 que o menino de Oriente aprendeu a admirar enquanto aguardava a sua verdadeira chance.

Orientado por Valdir Joaquim de Moraes, um monstro sagrado na história palmeirense, Marcos ganhava a sua experiência como expectador. E em 1995, quase partiu dessa para a melhor: se chocou com a cabeça nos pés de Edílson em um treinamento, desmaiou e precisou receber atendimento médico ainda no campo, onde deitava de braços abertos. Nada de grave aconteceu.

Foi em 1996 que Marcos, na posição de segundo arqueiro do Palmeiras, ganhou suas primeiras oportunidades reais. Valdir Joaquim estava convencido de que o garoto iria arrebentar quando respondesse o chamado. Suspenso, Velloso ficou de fora de uma partida contra o Botafogo de Ribeirão Preto, pelo Paulistão, no Parque Antárctica. O time da casa dominou as ações e goleou. No segundo tempo, Flávio Conceição cometeu pênalti em Jajá e forçou o novato a trabalhar. Logo de cara, um teste de fogo, ainda que o gol de honra do Botinha não fosse manchar a tarde brilhante dos mandantes. Pois Marcos saltou rápido para o lado direito do gol e pegou o chute de Paulo César. O camisa 12 provocou intensa comemoração em um dia perfeito para quem compareceu ao estádio.

Outro treinamento provou ser a chance que Marcos precisava, ainda que com muito lamento para Velloso. O titular foi brincar de ser centroavante em um rachão, dividiu bola com Marcos e ficou no chão com dores na canela. Um exame feito ao fim do dia constatou uma lesão de pouca gravidade, mas que afastaria Velloso de ação por mais de um mês. Logo na hora em que ele estava na mira de uma convocação para a Seleção Brasileira. Dono da meta palmeirense, Marcão foi parar no lugar que deveria pertencer a Velloso e acabou lembrado por Zagallo. Surpresa maravilhosa para um jogador pouco rodado.

Depois de fazer uma turnê como reserva do Brasil, Marcos foi cortado da lista da Seleção para um amistoso contra Camarões. Dias depois, fraturou a perna em um outro rachão, com tragédia similar a que vitimou Velloso meses antes. Operado, voltou só no ano seguinte. E ficou nesta condição de reserva de luxo até uma particular Copa Libertadores em 1999, novamente cumprindo o papel de Velloso. O camisa 1 estava com negociações complicadas para renovar o contrato e o posto sobrou quase que no colo de Marcos, já bem cotado com Luiz Felipe Scolari. Apesar de ter ido mal no início da temporada, o reserva vislumbrava ser o goleiro nas grandes competições do ano para o Palmeiras.

Marcos Libertadores 1999

Velloso se acertou com a diretoria e voltou. Mas se lesionou em treinamentos (que sina) e ficou de fora na reta final da fase de grupos do torneio sul-americano. Sobrou a bucha para Marcão em um dérbi contra o Corinthians, matar ou morrer. Depois isso nunca mais saiu. Uma derrota poderia complicar o Verdão em busca da vaga para as oitavas. Marcos luxou um dedo no clássico e o Timão levou a melhor por 2-1. Ficou tudo para a última rodada, contra o Cerro Porteño. Deu certo e os palmeirenses avançaram para pegar o Vasco.

Alex resolveu em São Januário a parada e os cruzmaltinos, então campeões da Libertadores, ficaram pelo caminho. E então, novamente viram o Corinthians como adversário, pelas quartas de final. Aí que Marcos se agigantou. Em 5 de maio, pela partida de ida, o camisa 12 fechou o gol e foi o principal responsável pelo Palmeiras não ter levado nenhum do rival. O 2-0 no agregado culminou em um jogo ainda mais emocionante na volta, consagrando o mais novo santo do Palestra Itália. Sete dias depois, o Corinthians se vingou, devolveu o placar e vieram as temidas penalidades. Dinei chutou por cima e Marcos voou para agarrar o chute de Vampeta. Palmeiras nas semifinais, contra o River Plate. Vocês sabem bem o que ocorreu depois disso.

Marcos cativou rapidamente o amor da sua torcida. As defesas lhe renderam status de santidade, as declarações humildes lhe tornaram um homem admirável e as repetidas provas de fidelidade e entrega ao Palmeiras só enfatizaram a imagem de um jogador que transcendia a idolatria para conquistar o coração mesmo de quem não torcia para a equipe alviverde da Rua Turiassu.

O que fez de Marcos ainda mais popular foi a sua inconsequência, a sua sinceridade ao tratar das agonias e glórias que vivia constantemente. A pressão por resultados, as cobranças da torcida, a frustração com colegas e a franqueza de um atleta que estava sempre sob os holofotes. Quantas vezes Marcos não foi capa de jornal por falar o que ninguém tinha coragem ou ganhava minutos na TV por reconhecer suas falhas e chagas? O sofrimento de um jogador que conviveu com o melhor e o pior que o esporte pode proporcionar, que foi obrigado a tolerar dores intensas para continuar fazendo o que amava, o que seus fiéis seguidores amavam. A saída estabanada no Mundial contra o Manchester United pode até ter virado piada para rivais, mas não há um torcedor sensato que prefira culpá-lo pela derrota em vez de abraçá-lo pelo momento difícil. A redenção viria depois.

O Brasil foi campeão mundial enquanto Marcos fazia pontes e mais defesas sensacionais. O país (menos a parcela corintiana, traumatizada com as eliminações em 1999 e 2000) comprou de vez o personagem moleque, bonachão, sem papas na língua. Que ficou no Palmeiras mesmo após o rebaixamento e esnobou o Arsenal para devolver o time do coração ao lugar que merecia. Mesmo com os frangos que sofreu neste intervalo, até a vitória na Série B, Marcos continuava em alta conta para os alviverdes. Porque sabiam que a dor era tão grande ou maior para ele, ator principal nas derrotas, o único que dava a cara a tapa quando todos fugiam da responsabilidade.

Marcos 2003

Quem saiu após a queda, ficou no esquecimento. Os que permaneceram ganharam o respeito eterno da entidade. E Marcos foi a grande figura do acesso, cravando definitivamente o seu lugar entre as lendas palestrinas. Caminhou mais oito anos em batalhas contra o fantasma do departamento médico, contra o próprio destino. Se quebrou e levantou tantas vezes para provar que não iria se abater como qualquer um. Goleiros não são quase nunca dignos de nota, mas Marcos definitivamente não era um goleiro comum, ordinário. Tudo nele era especial.

Determinado a vencer, acima de qualquer aflição, o homem superou o medo, as torções e fraturas para vencer por tanto tempo. Só o fato de ter continuado a sua carreira já era um triunfo em si. Uma pena que tenha alcançado tudo isso em uma fase tão oscilante e desgraçada do Palmeiras. Mas quem tinha Marcos, não precisava de taças para alimentar a paixão. Em 2008, em grande fase, conquistou o Campeonato Paulista e chorou na preleção, era sua última glória. Parou três temporadas depois, com 38 anos, farto de ter mais dor do que satisfação. O último grande ídolo palmeirense saía de cena antes da temporada 2012.

Santo debaixo das traves, grande ser humano fora das quatro linhas. Os erros admitidos e os valores exemplares de um atleta deixaram marcas inesquecíveis na memória dos que o viram no seu auge. A explosão de Marcos como o goleiro definitivo do Palmeiras poderia ter sido ainda maior. Ele certamente merecia um pouco mais do que conquistou, por todo o empenho demonstrado. Que seja reverenciado para sempre aquele que rasgou o script óbvio de um goleiro calado e tímido. Aquele que destruiu os protocolos para ser líder e referencial para qualquer um que mesmo por um dia defenda essa camisa.

Que o seu presente em 2016 e em todos os seus próximos aniversários seja o nosso carinho, Marcos. O nosso carinho que nunca vai acabar. Em homenagem, ajoelhamos como você sempre fazia, ainda que não tenhamos a mesma crença. Ajoelhamos não para rezar um Pai Nosso um ou uma Ave Maria. Palmeirense que é palmeirense se ajoelha para dizer Amém, São Marcos.

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