A extinção do futebolista de um time só

Giorgio-Carpi

Giorgio Carpi foi um dos primeiros jogadores a defender a Roma, no ano da fundação do clube, em 1927. Não era craque, nem sequer foi titular, mas escreveu uma história que muitos apenas podem sonhar em repetir. E a sua espécie está em extinção: a do jogador que tem um time de coração e faz o possível para continuar defendendo-o.

Se você tivesse em algum momento da vida a opção de jogar pelo seu time do coração, o faria sem receber salários? Quer dizer, é claro que isso é uma condição raríssima, a que poucos se sujeitam. E mesmo se você recebesse algo, ficaria neste clube durante toda a sua carreira como atleta? Os últimos tesouros particulares estão entrando em extinção. De cabeça, qualquer amante do futebol se lembra de nomes mais emblemáticos: Totti, Marcos, Rogério Ceni, Maldini, Baresi, Facchetti, entre outras exceções no esporte.

Cada vez mais o futebol vive mudanças na forma como os jogadores encaram o vínculo com seus empregadores. Depois da Lei Bosman, nos anos 1990, onde o atleta ganhou mais poder para decidir sobre seu futuro, a relação virou um grande exemplo da globalização, não da fidelidade antes pregada em décadas anteriores. O comprometimento e a dedicação não são mais elementos preponderantes na montagem de um elenco. Com o aumento da competitividade e na injeção financeira na modalidade, o que antes era paixão se transformou em mercado puro e simples.

Quem tem mais dinheiro, contrata mais. Quem contrata mais e melhor, chega mais forte para as competições. Quem chega mais forte, ganha. Desde que as coisas ficaram deste jeito, o romantismo foi perdendo espaço. Antes, o atleta que passava dez anos no mesmo clube era apenas mais um. Hoje, se um jogador atua por cinco temporadas com a mesma camisa, além de ídolo, é de uma durabilidade diferenciada. E não estamos falando de aprisionar um atleta em um longo contrato. É sobre o plano de dedicar-se ostensivamente a um único escudo.

Cito Giorgio Carpi no título e na chamada porque ele é a personificação de um atleta devoto às cores que jurou defender. Nos anos 1920, quando Giorgio começava a traçar a sua história no futebol, não havia nenhum tipo de contratação monumental e os primeiros ídolos fortaleciam a sua imagem e proximidade com os clubes. A Roma deu a Carpi uma honra que ele carregou por toda a vida. Depois da fundação em 1927, ele foi um dos primeiros atletas nos registros e mesmo sem dar uma contribuição técnica relevante, é uma lenda para os romanistas.

Aos 18 anos, estreou pela Roma e em 1928, no seu segundo ano com a equipe, levantou a Copa Coni, uma espécie de troféu para os 14 clubes que não se classificavam para a fase final da Serie A italiana. Enquanto atuava como futebolista, Giorgio se dividia entre as ocupações de funcionário da Bolsa de Valores de Roma. Não se destacava entre os colegas por suas funções táticas ou competências técnicas. Na verdade, era quase sempre reserva, um membro ilustre da agremiação.

O que diferencia Giorgio de centenas de milhares de atletas ao redor do mundo é o fato de ele sempre ter se recusado a receber salários. A sua carreira não foi longa, provavelmente pelo fato de não ter nada a oferecer em campo. Mas fora dele, Carpi levou o nome da Roma por onde passou. Não se preocupou com contratos e nem compensações, a sua alegria era jogar por aquela que seria a sua grande paixão na vida. Chegou a se aposentar em 1934, mas voltou um ano depois para a última temporada com os giallorossi.

Em 1936, fez dois jogos na campanha da Serie A que quase viu a Roma campeã nacional e finalmente se despediu do esporte, dez anos depois do início pelo Roman, um dos clubes que deu origem à Roma como conhecemos hoje. Talvez pelo fato de não ser mais um grande objetivo permanecer no mesmo lugar por toda a carreira, exemplos como os de Carpi são raros e quase inigualáveis. E ao menos nisso, os mais novos se espelharam. Totti e De Rossi (até agora) seguem a maioria dos ensinamentos de Giorgio.

Há, em torno deste “sonho de exclusividade”, algumas variáveis. Quem começa em um time e pretende defendê-lo até o fim, precisa entender que é preciso superar fases negativas, a pressão da torcida por resultados e até mesmo as derrotas. Ao invés de jogar por honra e prazer como antigamente, hoje se joga por reconhecimento internacional, milhões de euros, contratos longos e pelo desejo de conquistar os principais troféus. A ganância já venceu há muito tempo a batalha contra a vontade de fazer história em um único lugar. O futebol atualmente representa mais a busca pela independência financeira do que necessariamente a glória desportiva.

Nesse contexto, vemos nove em cada dez jovens brasileiros e de outros países mais pobres sendo promovidos para o profissional com um plano na cabeça: o de ganhar fama suficiente para jogar em clubes da Europa. Ninguém mais se compromete a passar a vida toda no esporte vestindo apenas uma camisa, porque a paixão provavelmente ficou soterrada abaixo de outras prioridades. Exceto em países que não respiram o futebol como primeiro esporte, o que justifica a busca por uma transferência para o Barcelona ou o Real Madrid, o jogo está sendo vencido por propostas mais atrativas dos gigantes europeus.

O contraste entre os anos 1920 é tão grande que jamais haverá outro Carpi defendendo um time simplesmente porque é apaixonado ou porque se sente honrado em vestir a camisa. Pior ainda se usarmos como parâmetro alguém que jogue simplesmente por gosto ao esporte, se recusando a ter algum ganho financeiro. Este jogador provavelmente não existe mais ou está perdido em níveis amadores. Deve haver algum fenômeno que explique, por exemplo, o retorno de atletas veteranos à Argentina. Tévez e Diego Milito, que voltaram a Boca Juniors e Racing por gratidão, aceitando receber salários relativamente menores para encerrar suas passagens pelo esporte perto de casa.

Estou certo de que muitos colegas e leitores adorariam ter a chance de serem escalados em amistosos de pré-temporada, ou um jogo-treino perdido com os titulares dos seus times do coração. Mas o futebol, no que tange o que se faz dentro das quatro linhas e com a bola, não é para todos. Não é mais para quem quer viver dele por satisfação ou realização pessoal, é para quem enxerga o primeiro clube como uma simples ponte para o estrelato. É triste, mas temos de aceitar isso.

A cada menino que coloca na cabeça que o sucesso só existe longe de casa nos principais centros do mundo para o futebol, a história de Carpi fica ainda mais surreal. Num futuro não muito distante, precisaremos nos esforçar muito para provar que de fato houve um tempo em que atletas começavam e encerravam a carreira com uma única camisa. Em 2016 isso já parece uma fábula digna de Monteiro Lobato.

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