A patrulha de Ganso: o que o jogador faz na folga é da nossa conta?

Ganso São Paulo 2

PH Ganso sentiu a coxa na última vitória são-paulina sobre o Fluminense no Morumbi. Ocorre que a lesão não doeu apenas nele; machucou-se ali toda a torcida tricolor que percebeu que estaria privada de um dos seus principais jogadores justamente na semana anterior ao mais importante para o São Paulo até ali na temporada. Exames posteriores confirmam o drama: estiramento do músculo posterior da coxa direita. Ausência dos gramados por no mínimo duas semanas.

Para o atleta agora segue aquela que certamente é a pior rotina possível: tratamento, descanso, medicação e paciência para que a ciência e natureza faça seu papel até que ele esteja em condições de atuar novamente. Não são férias, muito pelo contrário. Já ao torcedor o que resta é esperar pela recuperação e fazer o que sempre lhe cabe: torcer para que a equipe desempenhe bem mesmo na ausência daquele que tem dado equilíbrio ao meio campo do time. Pelo menos deveria ser assim.

Giovanna Costi, esposa de PH Ganso, passou o último domingo com o marido. Para nós, isso é absolutamente normal, porém para ela é algo raríssimo. É justamente nos finais de semana que ela se vê privada da companhia dele. Ela ficou tão empolgada com a situação que achou digna de postar no Instagram uma foto na qual ela aparece sorridente com familiares e o convalescente porém sorridente Ganso. E foi aí que começaram os problemas.

Não foram poucos os torcedores que entraram no perfil do atleta criticando-o ou exigindo algo que naquele momento ele não teria condições de dar. E não foi a primeira e nem será a última vez que algo semelhante irá ocorrer. Desde que as redes sociais se popularizaram já tivemos inúmeros casos semelhantes que resultaram em bate-bocas virtuais, fotos deletadas e tuítes apagados.

Uma questão a ser colocada aqui são os limites da vida pessoal do jogador. Temos o direito como torcedor de palpitar sobre como ele conduz sua carreira? É válida uma atitude no mínimo mal-educada de persegui-lo virtualmente? O que ele faz fora de campo é da nossa conta? Eu acho que não.

Alguém pode argumentar que atletas vivem do próprio corpo e por isso devem se sacrificar, preservando-se para as partidas. Deve ter comprometimento.  Pois bem, relembrando o que já disse Nick Hornby em “Febre de Bola”, nenhum jogador profissional cujo nome conhecemos jamais teria passado perto de um grande clube se não fosse comprometido. A concorrência é feroz e de forma alguma o talento é garantia de sucesso.

Ronaldinho futvolei

A história nos traz uma porção de jogadores que sim, aproveitaram a sua juventude enquanto escreviam seu nome nos livros: Romário, Ronaldinho, Ronaldo, Renato Gaúcho são os famosos cujas historias de bola e balada estão aí pra nós. Arrisco a dizer que se eles não estivem tão satisfeitos e relaxados não seriam capazes de ter feito o que fizeram a cada 90 minutos.

Quem se dá ao trabalho de ler as ofensas nas redes sociais encontra coisas como “EU PAGO TEU SALÁRIO”. Esta expressão em especial está errada em vários sentidos. Torcer não é uma questão mercadológica. Além disso, o ingresso não é salvo conduto pra falar besteira (corre atualmente a ideia errônea que “torcedor pode xingar porque pagou ingresso”, quando na verdade ele pode xingar porque dele não se exige nada sabendo que ali só há paixão), além do que a renda de bilheteria não é nem de longe uma das principais fontes de renda de um clube. Além disso, os gastos que o torcedor possa vir a ter com camisas e merchandising não correm automaticamente para o bolso dos atletas. Não existe torcedor-empregador.

Acredito que haja uma questão mais profunda. Jogadores são o que nós torcedores queríamos ser: atletas de ponta, fortes, jovens e bem remunerados. E que ainda por cima defendem a camisa que amamos. Alguns acabam confundindo esta questão, exigindo dos atletas um comprometimento que hipoteticamente nós teríamos.

Infelizmente, torcer é um sinônimo de impotência. Não há nada que possamos fazer a não ser hipotecar nossas emoções a cada jogo. E sermos felizes ao nosso modo assim. Patrulhar a vida pessoal (ainda que publicada e exposta em rede social) dos outros não está no nosso rol de atividades, além de ser uma baita falta de educação.

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