Fábulas da TF: A Última Geração Belga

Hazard Bélgica 2

Por Daniel Tomiate

Quem comemorou a derrota da Ótima Geração Belga para a seleção galesa de Bale e Ramsey não poderia imaginar que aquele jogo havia sido o último do país unificado em uma competição oficial. O referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, votado enquanto a UEFA Euro acontecia, havia selado o destino da Bélgica e o de outras nações europeias.

Primeiro, foi a Escócia. Como haviam votado em peso para a permanência no bloco continental, os escoceses exigiram um novo referendo nos moldes daquele de 2014, pedindo a independência. Convocado às pressas, sob a pressão da União Europeia prometendo que “o divórcio (entre Reino Unido e UE) não será amistoso”, o referendo realizado em dezembro de 2016 não foi sequer equilibrado: 86,93% a favor do “Sim”, que definiria a Escócia como estado independente, soberano e, obviamente, integrante da União Europeia.

Como os conflitos com a vizinha republicana estavam encerrados depois de anos de clima amigável da fronteira, e temendo a forte recessão que se aproximava agora que a libra caía abaixo do preço do dólar, a Irlanda do Norte também resolveu deixar o comando da Rainha. A separação não foi tão tranquila, com o ressurgimento do IRA em conflito com as forças protestantes unionistas, mas acabou acontecendo com o apoio direto das repúblicas da Irlanda e da Escócia. O agravamento da crise econômica fez com que a Irlanda se unificasse em relativa paz, mesmo com as diferenças religiosas.

A onda do separatismo explodiu na Europa. A Catalunha, por óbvio, foi a primeira região a se levantar contra o governo central espanhol, declarou sua independência em fevereiro de 2017 e foi prontamente reconhecida como país por Bruxelas, que ignorou os protestos da Espanha – economicamente muito frágil, Madri perdeu alavancagem no cenário continental. Sem o poder financeiro de Barcelona, o País Basco precisou brigar um pouco mais por sua soberania, com o ETA reaparecendo e forçando a Espanha a acatar a separação do povo basco em abril, antes que a eclosão de uma guerra civil fosse inevitável.

Mapa Bélgica

A generosidade de Bruxelas ao aceitar e até incentivar movimentos separatistas teve por base o raciocínio de que Estados economicamente fortes, ainda que territorialmente menores, pudessem ajudar na estabilidade econômica da União Europeia – o ônus da instabilidade política já estava dado com a saída do Reino Unido (que agora definia apenas a união da Inglaterra com o País de Gales). O problema é que essas decisões deram força também aos movimentos separatistas belgas, os quais fizeram rachar a fraca unidade nacional e encontraram apoio imediato na França e na Holanda, que esperavam a união com a Valônia e com Flandres, respectivamente falantes de francês e holandês. Isso não aconteceu.

A quebra foi definida em maio de 2017, por meio da declaração da independência da República da Valônia, com capital em Liège. Embora também falasse francês, Bruxelas permitiu que a região do sul do país, mais pobre, decidisse pela separação. O que fugiu ao entendimento da administração central foi o fato de a região de Flandres optar por não sustentar a monarquia, que até então servia basicamente como representação da união belga – a qual não existia mais. Ao abrir mão da cidade de Bruxelas e fixar sua capital na Antuérpia, Flandres ficou com os subúrbios bruxelenses que, embora já fizessem parte de seu território, agora estavam esvaziados da maioria francófona que optou por seguir a vida na vizinha Valônia ou mais próximos ao centro da antiga sede. Bruxelas passou a ser uma cidade-estado, ainda como centro nervoso da União Europeia e sob o comando do Rei Filipe (que passou a ser chefe de governo, além das antigas funções de chefe de estado).

No futebol, o cenário europeu ficou completamente desfigurado. Times fortes antes da Euro 2016 enfraqueceram porque se viram subitamente em campeonatos fracos (Barcelona e Real Madrid) ou sofreram com a crise econômica (todos os ingleses). Com as reviravoltas constantes, as eliminatórias europeias para a Copa da Rússia foram adiadas até que parecesse possível inscrever países que chegariam a Moscou ainda inteiros. Para conseguir a vaga no mundial, as seleções do Velho Continente jogariam um mata-mata regionalizado a partir de junho.

(Mal sabiam os dirigentes da época que a Copa não aconteceria em 2018 e muito menos na Rússia, mas isso é assunto para outro texto.)

O belo fardamento da Valônia, por Caio Filócomo
O belo fardamento da Valônia, por Caio Filócomo

Os representantes da seleção belga se dividiram em dois times: Flandres, com os jogadores nascidos na região norte e organizados pela Vlaamse Voetbalbond, e Valônia, com os nascidos na antiga parte sul da Bélgica, mais os naturais de Bruxelas e aqueles que vinham de antigas colônias belgas francófonas, inscritos pela Union Wallonne des Sociétés de Football Association.

Inflamadas pelo sentimento nacionalista e felizes no sorteio dos adversários, as duas seleções foram bem logo de cara: os flamengos eliminaram Luxemburgo com vitórias por 2 a 0 em Brugge e fora de casa, enquanto a Valônia tirava Liechtenstein depois de 2×0 fora e 4×0 em Charleroi. Na segunda rodada, Flandres perdeu da vizinha Holanda em Eindhoven por 1 a 0, mas conseguiu empatar o agregado jogando em Ghent e venceu na prorrogação com um gol salvador de Mertens; enquanto isso, os valões empatavam duas vezes com a Suíça (0x0 em Namur e em Zurique), mas avançavam nos pênaltis.

Quis o destino que os belgas se enfrentassem na terceira rodada. As federações chegaram ao consenso de que seria mais seguro fazer os dois jogos em Bruxelas e sem gol qualificado, decisão prontamente acatada por uma UEFA acuada por conflitos entre torcedores de países com relações estremecidas pela política recente (especialmente a eliminação da Espanha pelo País Basco de Xabi Alonso na primeira rodada, quando visitantes destruíram parte da cidade de Bilbao).

O uniforme de Flandres, executado por Caio Filócomo
O uniforme de Flandres, executado por Caio Filócomo

Ambos os times só haviam jogado com seus uniformes principais, de camisas amarelas com o leão e o galo de suas bandeiras estampando o peito; a neutralidade do mando também se refletiu nisso, com Flandres todo de preto e a Valônia toda de vermelho. O treinador Jean-Marie Pfaff mandou Flandres a campo com Courtois; Alderweireld, Vertonghen, Vermaelen e Daems; Nainggolan, Dembélé e Praet; De Bruyne, Mertens e R. Lukaku. Michel Preud’Homme escalou a Valônia com Gillet; Meunier, Kompany, Ciman e Pocognoli; Witsel, Mirallas e Hazard; Benteke, Batshuayi e Carrasco.

O meio de campo mais criativo dos valões, com Witsel, Hazard e Carrasco trocando posições, pressionou um pouco mais a zaga flamenga, de melhor qualidade com Vertonghen e Vermaelen. Nos contra-ataques, a juventude de Mertens e De Bruyne servindo Lukaku levava perigo, principalmente em velocidade nas costas dos fracos laterais Meunier e Pocognoli. As entradas de Januzaj, Fellaini e Lestienne para a equipe de vermelho e de De Sutter, Tielemans e Defour no time de preto não foram suficientes para tirar o zero do placar.

Na segunda partida, Pfaff apostou na entrada de Origi substituindo Lukaku para aproveitar o desfalque de Kompany, suspenso, no time adversário. Com um ataque ainda mais veloz contra uma zaga menos experiente (com a promoção de Denayer ao time titular da Valônia), Flandres conseguiu abrir o placar logo no começo com Nainggolan, em forte chute de dentro da área depois de Origi escorar, com o peito, para trás. A seleção flamenga matou o jogo aos 34 minutos do segundo tempo com um contragolpe, em um dos primeiros toques de Lukaku na bola. A partir de então, o que era uma partida equilibrada e animada virou uma batalha campal que culminou na expulsão de Mirallas após entrada criminosa em Daems. Alderweireld também recebeu um cartão vermelho porque, na confusão, deu uma cotovelada em Hazard. A Valônia não conseguia articular nenhuma jogada contra Flandres, que esperou o tempo passar para conquistar a primeira vitória no recém-criado clássico.

Na quarta e decisiva rodada – a vitória daria uma das 12 vagas europeias na Rússia –, a seleção flamenga, desfalcada de Alderweireld, Nainggolan e Mertens (suspensos) e Daems (machucado), não conseguiu segurar uma França que jogava as eliminatórias mordida pelo título continental que escapou em 2016. Os franceses mandaram o primeiro jogo em Toulouse – o mais longe possível da fronteira com Flandres, para dificultar a viagem da torcida adversária – e venceram por 4 a 0, com atuação de gala de Pogba. Na volta, na Antuérpia, Griezmann abriu o placar para os visitantes, que cadenciaram a partida apesar dos vários sustos. Dembélé ainda arrancou o empate com um chute de fora da área, aos 43 do segundo tempo, que enganou Lloris graças a um desvio.

A derrota flamenga foi comemorada em francês nas fronteiras da Valônia e de Bruxelas, mas ficou claro que a disparidade entre o time titular e os reservas de Flandres fez a diferença no sul da França. Diziam, inclusive, que a seleção da Bélgica unificada teria um elenco mais forte, mais qualificado para resistir em Toulouse e mais capaz de reverter placares jogando em casa. Era consenso que a Última Geração Belga, se tivesse um pouco mais de tempo para amadurecer e um motivo mais transcendente pelo qual brigar, poderia ter melhor sorte do que quebrada em duas seleções valentes, mas de talentos menos abundantes.

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