Deixem a Ótima Geração Belga em paz

Lukaku x Bélgica

Implicância com a Bélgica ultrapassa os limites da chatice no debate esportivo. Alguém resolveu duvidar de um time que nunca foi grande no cenário internacional e desde então a paciência do público com os belgas é pequena. Mas por que tanta encheção de saco? É o que vamos debater nesta sexta-feira, no Globo Repórter.

Sergio Chapelin

[Corta para o Sérgio Chapelin com cara de discreta indignação]

Nos últimos anos, a seleção da Bélgica fez o que há muito tempo se esperava do seu futebol: a montagem de uma equipe com jovens promissores mesclada com a experiência de pilares defensivos com fama no futebol internacional. Entretanto, conforme falávamos que o time belga poderia ser uma aposta para o futuro, muitos críticos resolveram ir na contramão. Ao duvidar do potencial dos Diabos Vermelhos e ostensivamente torcer para que eles fracassem, provando assim um ponto de vista tacanho de que eles são na verdade um bando de perdedores, um punhado de gente ri às custas deste desdém.

Você não é obrigado a achar que a Bélgica é uma potência e que será a próxima Espanha. Tampouco precisa se render ao fato de que Lukaku, Hazard e De Bruyne estão entre os melhores de suas posições, mundialmente falando. Isso não é um fato incontestável e sequer precisaria gerar polêmica a respeito. Mas como tudo atualmente só funciona na base da gritaria e da contestação barata, vamos levantar alguns pontos aqui que elucidam a questão em torno da “ótima geração belga”.

Farsa?

O fato de não ter vencido nada até aqui não quer dizer que a safra belga seja um time menos respeitável. Para quem tanto adora exaltar a Bulgária e a Romênia dos anos 1990 e dizer que “naquele tempo o futebol era muito legal mesmo, nunca mais teremos outros como Hagi e Stoichkov“, detestar gratuitamente a Bélgica, que finalmente consegue ter destaque, é no mínimo incoerente. Mas vamos além: tudo que surge na Europa e ganha projeção internacional acaba indo para o mesmo saco. O saco dos “filhos do marketing“, em que jogadores teoricamente bem-sucedidos são nada menos do que produtos da propaganda, embalados e vendidos como ídolos mundiais e enfiados goela abaixo do torcedor médio.

Veja bem: se existe um caso claro em que há uma clara campanha para fazer de um atleta o melhor do mundo, este caso é Neymar. O atacante do Brasil e do Barcelona é sim a última grande maravilha do nosso futebol, mas as notícias imbecis e banais sobre a sua vida não dão descanso. Onde quer que vá, Neymar é alvo da imprensa. E como é craque, naturalmente o conteúdo que saia sobre ele, independente da qualidade, emplaca. E ele está em todos os lugares. Da propaganda de shampoo anti-caspa até a de baterias automotivas. Dá um tempo, Neymar!

Hazard, De Bruyne e Lukaku não sofrem tanto deste mal. Pelo contrário. Por serem estimados como grandes jogadores (isto sim é difícil de contestar), há uma necessidade de descreditá-los pelos feitos recentes. Mas isso não é exclusividade dos belgas. Cristiano Ronaldo é o maior vilão da opinião pública e por muitas vezes justifica a fama de marrento, arrogante e egoísta. Se formos analisar o que é feito em campo, estes meninos belgas e Cristiano, obviamente, são acima da média. Isso, no entanto, não impede que gente cheia de ranço com europeus faça paralelos cretinos com atletas brasileiros ou diga em voz alta e a sério a frase “eles nunca seriam titulares ou fariam sucesso no Brasileirão“. Como se isso fosse uma condição básica para ser rotulado como craque.

Hazard Bélgica 2

Hazard, por exemplo, teve uma temporada ridícula pelo Chelsea. Jogou muito mal, se omitiu, acendeu apenas na reta final, quando os Blues já estavam afundados em uma fase melancólica. Logo, os críticos trataram de dizer que ele era uma farsa, coisa e tal, como se nenhum outro jogador de nível internacional jamais tivesse vivido algo parecido. Como se Ronaldinho, Pelé, Zico e Romário tivessem jogado em alto nível em 100% de suas carreiras. Mas CALMA, isso não é uma comparação. Hazard não está à altura destes gênios, é só um ponto a ser lembrado. E não é porque Pelé e Maradona pararam que nós somos obrigados a aceitar que o futebol acabou junto com eles, que tudo agora é uma porcaria enlatada e que nada tem graça. A empolgação está nos olhos de quem vê e ainda é apaixonado. Há vida após as lendas e os ciclos se renovam, quer você queira ou não.

Geralmente, quem tem ranço com o futebol do exterior, adora expor seu saudosismo por aí dizendo que bom mesmo era o fulano que não usava chuteira colorida e que mantinha o nível atuando em um gramado desgraçado, ou que não tinha a sua vida compartilhada e acompanhada por milhões nas redes sociais. Hoje, jogador que tem Instagram, com exceção de Messi, é tudo palhaço e o Podolski é um dos mais palhaços!

O argumento principal para o ódio aos novos bons times da modernidade é abrigado no confronto com a “Geração Playstation”, ela que você vê sempre em ofensas conservadoras. Ela, que embalou milhares de meninos a torcerem pelo Barcelona, pelo Manchester United, pelo Real Madrid e pelo Bayern de Munique, isso para não falar dos times menores que vez ou outra ganham contas no Twitter em português. (Vai daí, Norwich Brasil!)

Como o futebol europeu cresceu muito no Brasil e converteu torcedores para as equipes de lá, há um temor de que eles efetivamente roubem o espaço dos nossos clubes no coração da torcida. Mas de quem é a culpa se Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Vasco, Cruzeiro, Inter e outros gigantes não são mais tão atraentes para a molecada de hoje? É uma longa discussão, outro tópico que podemos discutir em outro post.

Foto: Uefa
Foto: Uefa

Tudo que vem de fora ou é lindíssimo e exemplo, ou é um lixo pedante subestimado pelas empresas de mídia, publicidade e outros torcedores que supostamente não entendem de futebol por preferirem acompanhar clubes do exterior. Não há meio termo e a consequência deste extremismo é que seleções estrangeiras atraem ainda mais antipatia em virtude do ranço já citado. A Espanha é chata, a Alemanha não é tão legal quanto falam, a Itália é ruim e só se retranca, a Inglaterra é pé-frio e a França só ganha roubado. Como se a Copa do Mundo só fosse legal por causa de Brasil e Argentina. Como se a Eurocopa só não fosse boa porque não contempla países sul-americanos. Como se um jogador tivesse de provar seu talento vencendo todos os títulos possíveis, caso contrário, seria rotulado como farsa.

A não ser que um belga tenha entrado na sua casa e assassinado a sua família, o ódio a esta seleção é só bobeira. Claro, você pode muito bem torcer contra eles pelos motivos que bem entender, não é este o ponto. O problema é a implicância barata, não a opção. A mão inversa disso, que é ter gente querendo que a Bélgica seja campeã, é a coisa mais natural no esporte quando o seu time não está envolvido.

Ao invés de perdermos tempo dizendo que quem escolhe torcer por alguém na Eurocopa é bobalhão e que todos os jogos são uma merda, talvez seja melhor desligar a televisão e fechar as redes sociais para evitar que essa raiva vire um problema de saúde. Já pensou que lindo se você entendesse que o futebol não é uma luta do bem contra o mal, engessado em um maniqueísmo exagerado? Que sejamos livres para escolher quem apoiar, idolatrar ou torcer contra, em paz, sem necessidade de rivalidades forçadas ou declarações de repúdio contra quem encara o esporte com uma abordagem diferente da nossa. Em suma: parem com essa bobagem.

Você também está livre para odiar qualquer um, mas dificilmente as pessoas te levarão a sério se você se comportar como um cão raivoso que só sabe gritar ao invés de argumentar. A escolha continua sendo sua. Ainda existe uma terceira via, a de ser o bobo da corte que não faz questão de ser levado a sério e só fala asneiras para chamar atenção. Aí, meu amigo, tenho más notícias para lhe dar…

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