Guia musical da Euro 2016: Espanha

A Spanish soccer fan cheers outside the Donbass Arena before the Euro 2012 quarter-final soccer match against France in Donetsk

Don Quixote. Siesta. Sangria. Pìcasso. Paella. Almodóvar. Tapas. Flamenco. Onde mais se pode comer Gazpacho no McDonald’s? Precisaríamos de anos para contar a história da música espanhola. Como ninguém tem tempo pra isso, só vamos dar umas pinceladas disso e daquilo. ¿Estás listo? ¡Vale!

Breve história sobre a Espanha na Euro

Spain

La Furia ganhou sua primeira Euro em 1964 e levou 44 anos para vencer a segunda. Foi só pegar o jeito que enfileirou logo duas seguidas, em 2008 e 20012. A Espanha, junto com a Alemanha, é a maior vencedora do torneio com 3 títulos.

A atual campeã não é mais a mesma. O time de 2016 é o da transição. Acabou o tiki-taka que, além do bi na Euro, faturou uma Copa do Mundo. Acabou a geração de ouro, a melhor de toda a história do futebol no país. As apresentações nas eliminatórias da Copa da Rússia não foram nada pra escrever pra casa contando. Na verdade, foram um tédio só. Mas em um time que tem a magia de Andrés Iniesta sempre inspira respeito.

Fique de olho

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Vicente Del Bosque e a imprensa espanhola apostam todas as fichas em Álvaro Morata. O jogador, apesar de ter começado a maioria das partidas dessa temporada pela Juventus no banco, se mostrou decisivo nos momentos que a equipe mais precisava. Na verdade, Morata foi a arma secreta de Massimiliano Allegri e marcou gols na final da Champions League contra o Barcelona e na final da Copa Itália contra o Milan. Fez tanto sucesso na Juve que o Real quis de volta.

Em um dia bom, Morata é um inteligente, com boa visão de jogo e grande habilidade. Em um dia de Morata, perde muitos gols. Todo mundo torce para que ele esteja inspirado. Anote aí: ele é o camisa 7.

Música, maestro!

Pra começo de conversa precisamos dizer que a música da Espanha foi influenciada por todos que por lá passaram. Ciganos, gregos, mouros, celtas, romanos, visigodos, judeus, pense em um povo nômade ou conquistador e você vai achar um dedinho na música ibérica.

Os primeiros registros musicais datam do século VI, nos manuscritos de Isidoro de Sevilha, estudioso e mais tarde nomeado arcebispo. Com a conversão dos visigodos ao catolicismo durante o III Concilio de Toledo, em 589 D.C., a liturgia visigótica-moçárabe foi incorporada à celebração. Bem aceito por suas similaridades aos ritos ambrosiano e galicano, o rito moçarábico prevaleceu ao romano. Apenas depois da reconquista cristã é que foi substituído pelo rito praticado em Roma. Hoje pouco conhecidos, os cantos do rito moçarábico não foram transcritos para partituras e os registros que sobreviveram só dão uma vaga ideia da sua beleza.

O maior exemplar da música sacra da Idade Média são as Cantigas de Santa Maria. Escritos em galego medieval, os 427 poemas são atribuídos a Alfonso X, o sábio. Embora muitos duvidem que ele seja o autor, todos concordam com a sua participação na composição de muitas delas. Durante a Renascença surgiram os ‘cancioneros’. O Cancionero de Upsala, por exemplo, é um dos poucos remanescentes da música espanhola da época.

Por dois séculos, de XVII a XIX, sob a influência do modelo italiano, a música clássica espanhola praticamente desapareceu. Os compositores italianos Domenico Scarlatti, Luigi Boccherini e Gaetano Brunetti tornaram-se residentes da corte madrilenha e os músicos locais tinham tão pouco incentivo que foram para Itália e França em busca de estudo e oportunidades. O nome mais importante do fim do classicismo e do início do romantismo é Juan Crisóstomo de Arriaga. Também desta época são as composições de Tomás Luis de Victoria e de Antonio Soler.

No início do século XVII, surgiu a zarzuela, forma popular de ópera, que conquistou grande fama rapidamente. Foram figuras essenciais para o desenvolvimeto do gênero os compositores Francisco Asenjo Barbieri, Ruperto Chapí, Federico Chueca e Tomás Bretón.

Sobre a música folclórica da Espanha é possível escrever milhares de páginas. A escola flamenca de música é a mais famosa do país, que evoluiu através do tempo incorporando elementos de jazz e de rock. Todas as regiões tem sua música típica e instrumentos criados para tocá-la. A Andaluzia tem sua gaita rociera, Aragón tem a Jota. tocada com castanholas, guitarra, pandeireta e, às vezes, flautas. O instrumento típico do noroeste espanhol é a gaita. No país Basco, a música mais popular é a trikitixa, tocada com acordeon e pandeireta. A Catalunha tem a dança dos bastões e a dança cigana. Estremadura, região rural com grande influência portuguesa, tem grande repertório para flauta tamborileira e um instrumento muito parecido com a nossa cuíca, chamado zambomba.

Quando se fala de flamenco, nomes como os dos falecidos Camarón de la Isla e Enrique Morente e o da banda Ketama não podem ficar de fora de nenhuma lista que se preze. Nem Carmen Linares, grande dama do canto flamenco. Da turma de filho e neto de peixe, temos José Mercé e Tomatito, o último ganhador do Grammy de melhor álbum flamenco de 2013. E Marina Heredia, filha do cantor Jaime Heredia “El Parrón”, que desponta como um dos grances nomes da nova geração de cantoras do gênero.

Durante a década de 40, surgiu um movimento para resgatar a música espanhola, que desapareceu durante a Guerra Civil. O Conservatório Musical de Madri foi reformado e foi criada a Orquestra Nacional. Nesta mesma época foi fundado o Instituto Español de Musicología. Um dos grandes nomes surgidos nessa época é Joaquín Rodrigo Vidre, virtuoso pianista e compositor, cego desde criança. Vidre é considerado um dos maiores compositores para guitarra do século XX e seu Concerto de Aranjuez é uma obra prima da música ibérica.

Ao contrário dos outros países, o rock espanhol foi influencido pela música de França e Itália. Johnny Hallyday era o grande nome do rock francês e Adriano Celentano e Renato Carosone estavam no top das paradas italianas. A influência mediterrânea afastou a música espanhola dos Estados Unidos de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e Little Richard. A música produzida na Espanha, entre os anos de 1956 a 1960, era mais romântica que rock ‘n roll.

Fenômeno da música pop espanhola, o cantor Raphael, nascido Miguel Rafael Martos Sánchez, faz sucesso há 5 décadas. Em 1980, por ter vendido mais de 50 milhões de cópias na sua carreira, o selo Hispavox criou o “disco de urânio” especialmente para ele.

Os espanhós bem que tentaram mas não conseguiram resistir à revolução provocada pelos Beatles. Pipocaram bandas como Los Estudiantes, Los Rocking Boys, Los Pájaros Locos, Los Catch As Catch Can e Los Pantalones Azules.

Los Canarios, o primeiro grupo de rock progressivo espanhol, depois de um tour nos Estados Unidos, em 1966, voltaram cheios das influências r&b e deixaram de lado o som hippies inspirado em Jefferson Airplane e Grateful Dead. Seus herdeiros são Cursed Angel, Dragonfly, Opera Magna, Sypherion e TYR. Só para não deixar passar batido, anote alguns nomes para quem curte doom, death metal, trash e power metal: Nahemah, The Moebius Curve,  Saurom e Soziedad Alkoholika.

Como todo mundo sabe, os bascos são bons de briga e o punk caiu como uma luva por lá. Em 1979, surgiu Me Cago en Dios (MCD), até hoje em atividade. Na mesma época apareceu o La Polla, considerada uma das maiores bandas de língua espanhola. O terceiro da lista é Eskorbuto, o mais independente e politizado dos três, que teve problemas com a polícia por defender abertamente o ETA. A cena punk é recheada de bandas, que além de divertidos nomes, fazem um som bastante razoável: Cerebros Exprimidos, Juanita y los Feos, Ni Por Favor Ni Ostias e Segismundo Toxicómano.

Nos anos 80, o movimento cultural “La Movida Madrileña” abriu as portas para outros gêneros musicais. Surgem os pioneiros da música eletrônica, do ska e do hip-hop. Nenhum nome no hip hop é mais conhecido que o de Mala Rodríguez. María Rodríguez Garrido ficou conhecida mundialmente por suas músicas com raízes flamencas e letras que falam de feminismo e de problemas sociais. Em 1989, ela tinha apenas 10 anos quando foi lançado o primeiro disco de rap na Espanha, a coletânea  “Madrid Hip Hop”. Hoje o gênero é tão sedimentado no cenário musical do país que muitos artistas nem precisam mais de gravadoras para lançar e divulgar seus trabalhos.

Estranhamente, a visibilidade à música espanhola veio através dos cantores líricos. A pioneira foi Montserrat Caballé quando participou do disco solo de Freddie Mercury, Barcelona, em 1988.  Freddie, que sempre sonhou em cantar com Caballé, pôde realizar seu desejo antes de morrer em 1991. A música foi escolhida como tema das Olimpíadas, de 92. Os tenores Placido Domingo e José Carrera, junto com o italiano Luciano Pavarotti, viraram uma febre mundial ao se apresentarem no encerramento da Copa do Mundo de 1990, na Itália. Os três tenores ficaram em atividade até 2004.

Já que estamos falando de futebol e música, não podemos deixar de fora Julio Iglesias, ex-goleiro juvenil do Real Madrid de 1958 a 1962. Infelizmente sua carreira futebolística foi interrompida devido a um acidente de carro, em 1963. Por causa do acidente ficou semi paralisado por 1 ano e meio. Nesse tempo escrevia poemas e aprendeu a tocar violão. O resto é história. Iglesias é conhecido mundialmente e foi eleito pelo livro dos recordes Guinness como o artista latino mais bem sucedido da história.

Desde os tempos de Sara Montiel e Lola Flores, as mulheres tem um espaço garantido na música ibérica. Gelú e Karina foram as rainhas do Iê-Iê-Iê e abriram caminho para Ana Torroja, vocalista da banda Mecano. Entre as melhores vozes femininas da Espanha, se destacam Rosario, Ana Belén, Rocío Dúrcal, Niña Pastori e Isabel Pantoja. Belas e talentosas, as novas cantoras tem feito bastante sucesso em todo mundo. Anote os nomes de Malú, Mónica Naranjo, Leire Martínez e Estrella Morente. E deixando o melhor para o final, as preciosidades chamadas Concha Buika e Bebe.

A lista de cantores espanhóis é imensa, mas separamos alguns nomes que merecem destaque como Pedro Guerra, Paco Ibáñez, José Antonio Labordeta, Joaquín Sabina, Joan Manuel Serrat, Alejandro Sanz e Miguel Bosé.

Não se pode falar em música espanhola sem falar de Paco de Lucía. Chamá-lo de virtuoso não faz jus ao seu talento, seu estilo e sua classe. Pergunte a Eric Clapton, fã descarado do guitarrista flamenco. Paco realizou experimentações, misturando o flamenco com outros gêneros, como clássico e jazz. Morreu em 2014, aos 66 anos. Um dos discos que eu levaria pra ilha deserta é “Friday Night in San Francisco”, de 1981, com ele, Al Di Meola e John McLaughlin.

Não diga Olá, diga Olé!

  1. Canto mozárabe  – Gloria
  2. Alfonso XCantiga de Santa Maria
  3. Cancionero de UpsalaRiu riu chiu
  4. Juan Crisóstomo de ArriagaStabat mater
  5. Tomas Luis de VictoriaAve Maria
  6. Antonio SolerMagnificat
  7. Francisco Asenjo BarbieriCanción de Paloma
  8. Tomás BretónEn la Alhambra
  9. Manuel de FallaDanza ritual del Fuego
  10. Isaac Albeniz  – Granada
  11. Joaquin RodrigoConcerto de Aranjuez
  12. Enrique MorenteEn un sueño viniste
  13. Camarón de La Isla Soy gitano
  14. Marina HerediaMe duele, me duele
  15. KetamaMienteme
  16. RaphaelCuando tú no estás
  17. Los Pájaros LocosEl Semáforo
  18. Pantalones AzulesBaila nena
  19. Los CanariosGet on your knees
  20. NahemahSiamese
  21. The Moebius CurveDeux Ex Machina
  22. SauromSueños Perdidos
  23. Soziedad AlkoholikaCuando nada vale nada
  24. M.C.D.No hay libertad de expresión
  25. La PollaEllos Dicen Mierda
  26. EskorbutoNo quiero cambiar
  27. Cerebros ExprimidosQue Quieres De Mi
  28. Juanita y Los FeosNo Tengo Ritmo
  29. Segismundo ToxicomanoUltimo Asalto
  30. Mala RodríguezPor La Noche
  31. Freddie Mercury & Monteserrat CaballéHow Can I Go On
  32. Carreras, Domingo & PavarottiGranada
  33. Julio IglesiasHey!
  34. Sara MontielLa violetera
  35. Lola FloresAy Pena, Peñita, Pena
  36. GeluSiempre es Domingo
  37. Ana TorrojaA Contratiempo
  38. RosarioAlgo Contigo
  39. Ana BelénEl Secreto de Puente Viejo
  40. Rocío DúrcalAmor eterno
  41. Niña PastoriAmor de San Juan
  42. Isabel PantojaAsi fue
  43. MalúQuiero
  44. Monica NaranjoJamás
  45. Estrella MorenteVolver
  46. BuikaNo Habrá Nadie En El Mundo
  47. BebeMe fui
  48. DeseoPedro Guerra
  49. Paco IbañezLa Poesia es un arma cargada de Futuro
  50. José Antonio LabordetaTrilce
  51. Joaquin SabinaPor El Boulevard De Los Sueños Rotos
  52. Joan Manuel SerratAquellas Pequeñas Cosas
  53. David BisbalMe Enamoré De Ti
  54. Alejandro Sanz¿Lo Ves?
  55. Miguel BoséTesoro (Pudo Ser Tu Nombre…)
  56. Héroes del SilencioEntre dos tierras
  57. MecanoTu
  58. Hombres GSi No Te Tengo a Ti
  59. La Oreja de Van Gogh20 de Enero
  60. Estopa Tu Calorro
  61. Jarabe De PaloLa Flaca
  62. Paco de Lucía,  Al Di Meola e John McLaughlinMediterranean Sundance

0 pensamento em “Guia musical da Euro 2016: Espanha”

  1. Ah, a Espanha! <3 Desde a minha adolescência acompanho grandes nomes da música Espanhola. La Oreja de Van Gogh é uma das melhores bandas Pop ao meu ver. O artigo me fez lembrar de uma música de Estopa "Fuente de Energia", há anos que não a escutava. Alguns outros nomes me veem a mente como Roser, Merche, David Bustamante entre outros. Ótima ideia, Lilian. Vou agora mesmo escutar alguns nomes citados. Parabéns!

    1. Oi, Camila! Obrigada pelos seus comentários, sempre tão certeiros. Sofri um bocado pra fazer essa lista. É muita banda, muita música e sempre alguém fica de fora. O legal é que a gente vai matando a saudade de músicas que tinha esquecido. Suas sugestões são sempre muito bem-vindas.

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