Pequeno guia cinematográfico da Copa América, parte III

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A terceira parte do nosso guia fala do cinema mais premiado das Américas. Fala dos 22 Oscars do México, daquele do Uruguai e do prêmio de Cannes da Venezuela. O corpo estranho nessa lista é a Jamaíca, mas em nenhum outro lugar música e cinema andam tão juntos como por lá.

O filme mais famoso do país tem Jimmy Cliff como ator principal. Já a Venezuela pode não ter a mesma tradição de Argentina e Chile, mas tem em seu currículo um fato invejável: o documentário “Araya”, de Margot Benacerraf, dividiu o prêmio da crítica do Festival de Cannes com “Hiroshima. meu amor” de Alain Resnais, em 1959. Pra entrar no clima selecionamos três filmes sobre futebol, o mexicano “Rudo e Cursi”, o venezuelano “Hermano” e o documentário uruguaio sobre o Peñarol. Boa diversão!

México

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Sem chance de escrever só dois parágrafos sobre o cinema mais premiado das Américas, depois dos Estados Unidos. Nos últimos 3 anos, os mexicanos venceram 3 vezes o prêmio de direção da Academia. E essa história começou nos anos 50, com Anthony Quinn, que venceu duas vezes o Oscar de ator coadjuvante por “Viva Zapata!” e “Sede de viver”. Some mais dois para Emile Kuri por “A Herdeira” e “20 Mil Léguas Submarinas”. “O Labirinto do Fauno” garantiu mais dois Oscars para Eugenio Caballero e Guillermo Navarro. Emmanuel Lubezki é o único diretor de arte a vencer por três anos seguidos com “Gravidade”, “Birdman” e “O Regresso”. Alfonso Cuarón foi o primeiro diretor mexicano a levar o homenzinho de ouro para casa e abriu a porteira para a dobradinha de Alejandro González Iñárritu. Os dois não se contentaram em vencer pela direção e beliscaram mais dois Oscars, Cuarón como editor e Iñárritu pela trilha original de “Birdman”.

O documentário “Sentinelas do Silêncio”, de 1971 é o único da história a vencer em duas categorias, Melhor curta metragem e Melhor documentário em curta metragem. Na conta do país do Chapolin entram mais dois Oscar: o de Melhor Atriz Coadjuvante para Lupita Nyong’o por “12 anos de Escravidão” e o de Direção de Arte de Brigitte Broch por “Moulin Rouge”. Filha de pais quenianos, Lupita nasceu na Cidade do México. Já Brigitte é alemã de nascimento, mas naturalizada mexicana. Ela esteve no ano passado no Brasil para uma série de palestras na Academia Internacional de Cinema (AIC), em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Já deu pra perceber que não faltam talentos no cinema mexicano, por isso não surpreende ninguém que muitos tenham conquistaram Hollywood. Quentin Tarantino caiu de amores por Robert Rodriguez (que é americano mas ficou famoso fazendo filmes no México) e Salma Hayek (nós também!). A parceria que começou em 1995 com Grande Hotel e seguiu com Um Drink no Inferno, Sin City e Grindhouse. A brodagem é um traço marcante no mundo do cinema. Gael Garcia Bernal e Diego Luna são amigos de infância e os diretores Alfonso Cuarón, Alejandro González Iñárritu e Guillermo del Toro, Los Three Amigos que estudaram juntos e são sócios da produtora Cha Cha Cha Films.

Na nossa lista nunca faltaria um filme de Cantinflas. Pra quem não sabe, ele foi considerado o maior comediante do mundo, depois de Charles Chaplin e foi a inspiração de Roberto Bolaños para o seu Chaves. Nem deixaríamos de mencionar Luis  Buñuel, que era espanhol mas mudou para o México nos anos 40 e é considerado um dos maiores diretores do cinema mexicano de todos os tempos.

Da Era de Ouro (1935 – 1969), ao cinema novo cinema contemporâneo, o México sempre nos premia com grandes filmes. Não são doces, não são fofos, muitas vezes são um soco no estômago. Mesmo que a TV do país seja o paraíso da superficialidade, dominada pelas novelas da Televisa, o cinema mexicano experimenta e ousa sem jamais ser banal. Ao que nós agradecemos!

La Perla (La Perla, 1947) – Emilio “Indio” Fernandez

Os Esquecidos, (Los Olvidados, 1950) – Luis Buñuel

Macario (Macario, 1960) – Roberto Gavaldón

O Analfabeto (El analfabeto, 1961) – Miguel M. Delgado

Los Caifanes (Los Caifanes, 1966) – Juan Ibañez

El Castillo de la Pureza (El Castillo de la Pureza, 1973) – Arturo Ripstein

Como Água Para Chocolate (Como agua para chocolate, 1992) – Alfonso Arau

Cronos (Cronos, 1994) – Guillermo del Toro

O Beco dos Milagres (El Callejón de los Milagros, 1995) – Jorge Fons

Santitos (Santitos, 1999) –  Alejandro Springall

El coronel no tiene quien le escriba (El coronel no tiene quien le escriba, 1999) – Arturo Ripstein

Amores Brutos (Amores Perros, 2000) –  Alejandro G. Iñárritu

E Sua Mãe Também (Y tu mamá también, 2001) – Alfonso Cuarón

Temporada de Patos (Temporada de Patos, 2004) – Fernando Eimcbk

O Violino (El Violin, 2005) – Francisco Vargas

Rudo e Cursi (Rudo y Cursi, 2008) – Carlos Cuarón

Presunto culpable (Presunto culpable, 2008 ) –  Roberto Hernández & Geoffrey Smith

A Zebra (La Cebra, 2011) – Fernando León

Post Tenebras Lux (Post Tenebras Lux, 2012) – Carlos Reygadas

La jaula de oro (La jaula de oro, 2013) – Diego Quemada-Diez

A Vida Depois (La vida después, 2013) – David Pablos

As Lágrimas (Las Lágrimas, 2013) – Pablo Delgado

Güeros (Güeros, 2014) – Alonso Ruizpalacios

Carmim Tropical (Carmín Tropical, 2014) – Rigoberto Pérezcano

Eu Sou a Felicidade deste Mundo (Yo soy la felicidad de este mundo, 2014) – Julián Hernández

H20mx (H20mx, 2014) – José Cohen

Te prometo Anarquia (Te prometo Anarquia, 2015) – Julio Hernández Cordón

Manhã Psicotrópica (Mañana Psicotrópica, 2015) – Alexandro Aldret

Venezuela

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O cinema na Venezuela, até a década de 30, se limitava a filmes feitos por apaixonados. Em 1938, Rómulo Gallegos, escritor e futuro presidente do país, criou os Estudios Ávila em Caracas. Alguns anos depois, Guillermo Villegas Blanco inaugurou a Bolívar Films, produtora que pretendia fazer filmes em escala industrial. Para isso foi chamado o cineasta argentino Carlos Hugo Christensen, que tinha trabalhado no Perù, Chile e Brasil. O grande defeito da Bolivar foi não se preocupar em criar uma identidade cinematográfica nacional e contar sempre com talentos estrangeiros. Depois de 4 anos de atividade e 9 filmes, a produtora desistiu do cinema e resolveu investir em publicidade. A sofisticada infraestrutura e um grupo de profissionais treinados foram sua contribuição para o cinema local.

O cinema venezuelano mesmo produzindo filmes de grande qualidade, como “Araya” e “Caín Adolescente”, falhava na distribuição e as obras quase nunca chegavam ao público. “Araya”, de 1959, só foi exibido na Venezuela quase 20 anos depois, em 1977, mesmo tendo vencido o prêmio da crítica em Cannes.

Surgido nos anos 70, o novo cinema venezuelano resistiu por 15 anos, até o país mergulhar em uma profunda crise econômica. O final desse ciclo, em 1985, foi marcado com a premiação de “Orianna” da diretora Fina Torres no festival de Cannes. O cinema local entrou em um período de hibernação e nem a criação da Ley de Cinematografía Nacional, em 1994, serviu de incentivo para a produção. Os anos 2000 chegaram e com eles vários cineastas que voltaram ao país depois de estudar em Cuba, nos Estados Unidos e na Europa. Começou a melhor e mais prolifera década do cinema da Venezuela e nem a crise que assola o país diminui o ânimo dessa galera.

Hollywood vive de olho nos atores latinos e Édgar Ramírez é a bola da vez. Bastante conhecido na Venezuela, tanto pelo talento quanto pelas atividades políticas, é o fundador da ‘Dale al Voto’, entidade que incentiva os jovens ao primeiro voto. Durante um festival de curta metragem conheceu Alejandro González Iñárritu, na época apenas um ex-publicitário que dava aulas de roteiro e direção. Convidado para o papel principal do primeiro filme de Iñárritu, Amores Brutos, teve que recusar o convite por compromissos anteriores.

Ele se arrepende até hoje, porque o filme ganhou vários prêmios e lançou Gael Garcia Bernal. Mas não precisa sentir pena dele. Por falar fluentemente inglês, francês, alemão e italiano, Ramírez  foi escolhido para interpretar Carlos, o Chacal na série francesa de mesmo nome. Ganhou o César de melhor ator e chamou a atenção de  Steven Soderbergh, que o convidou para interpretar Ciro Redondo García no filme “Che: o argentino”. No ano passado, interpretou o marido de Jennifer Lawrence em “Joy”. O futuro parece bastante promissor e Ramírez está produzindo um filme ainda sem nome com ninguém menos que Robert De Niro.

Un ángel sin pudor (Un ángel sin pudor, 1949) – Carlos Hugo Christensen

Araya (Araya, 1958) – Margot Benacerraf

Cuando quiero llorar no lloro (Cuando quiero llorar no lloro, 1973) – Mauricio Walerstein

Soy un delincuente (Soy un delincuente, 1976) – Clemente de la Cerda

El pez que fuma (El pez que fuma, 1977) – Román Chalbaud

La casa de agua (La casa de agua, 1983) – Jacobo Penzo

Oriana (Oriana, 1985) – Fina Torres

Huelepega (Huelepega, 1999) – Elia Schneider

Punto y Raya (Punto y Raya, 2004) – Elia Schneider

Secuestro Express (Secuestro Express, 2005) –  Jonathan Jakubowicz

Postales de Leningrado (Postales de Leningrado, 2007) –  Mariana Rondón

El tinte de la fama (El tinte de la fama, 2008) – Alejandro Bellame

Cheila, una casa pa’ maita (Cheila, una casa pa’ maita, 2010) – Eduardo Barberena

Hermano (Hermano, 2010) – Marcel Rasquin

Piedra, papel o tijera (Piedra, papel o tijera, 2012) – Hernán Jabes

Azul y no tan rosa (Azul y no tan rosa, 2013) – Miguel Ferrari Diego

Liz en septiembre (Liz en septiembre, 2013) – Fina Torres

Libertador (Libertador, 2013) – Alberto Arvelo

La Casa del Fin de Los Tiempos (La Casa del Fin de Los Tiempos, 2013) – Alejandro Hidalgo

La Hora Señalada (La Hora Señalada, 2013) – Ivan Mazza

La distancia más larga (La distancia más larga, 2014) – Claudia Pinto

Desde allá (Desde allá, 2015) – Lorenzo Vigas

Dauna, Lo que lleva el río (Dauna, Lo que lleva el río, 2015) – Mario Crespo

Jamaica

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Os filmes jamaicanos tem quase sempre o mesmo enredo: rastafari, maconha, gueto e bandidagem. Tudo isso temperado com muito reggae, é claro. Mas alguns desses filmes são objeto de culto, como “Balada Sangrenta”, de 1972, estrelado pelo cantor Jimmy Cliff. Graças à colaboração com a TV, as produções são bem mais cuidadas que as do Haiti. Filmes como “Dancehall Queen”, “Barra Pesada”, “Conexão Jamaica” e “Ghett’a Life” podem não ser memoráveis, mas são um bom passatempo.

Os documentários são a cereja do bolo desta lista. Só Bob Marley rendeu três bons filmes. O primeiro, “Bob Marley: The Making of a Legend”, reúne imagens inéditas que ficaram perdidas por mais de 30 anos. O segundo, “RasTa: A Soul’s Journey”, mostra a neta de Bob, Donisha Prendergast, falando sobre o fenômeno rastafari em todo mundo. E “Trench Town: The Forgotten Land”, mostra o gueto mais famoso do mundo que se tornou conhecido graças a Marley.

Garimpamos 15 exemplos do cinema jamaicano. Não foi fácil, então, faça o favor de assistir.

Balada Sangrenta (The Harder They Come, 1972) – Perry Henzell

Smile Orange (Smile Orange, 1976) –  Trevor D. Rhone

Rockers (Rockers, 1978) – Ted Bafaloukos

Babylon (Babylon, 1980) – Franco Rosso

Countryman (Countryman, 1982) – Dickie Jobson

Dancehall Queen (Dancehall Queen, 1997) – Rick Elgood & Don Letts

Barra Pesada (Belly, 1998) – Hype Williams

Third World Cop (Third World Cop, 1999) – Chris Browne

Life and Debt (Life and Debt, 2001) – Stephanie Black

Conexão Jamaica (Shottas, 2002) – Cess Silvera

Rise Up (Rise Up, 2009) –  Luciano Blotta

Better Mus’ Come (Better Mus’ Come, 2010) – Storm Saulter

Bob Marley: The Making of a Legend (Bob Marley: The Making of a Legend, 2011) –  Ester Anderson & Gian Godoy

RasTa: A Soul’s Journey (RasTa: A Soul’s Journey, 2011) – Stuart Samuels

Ghett’a Life (Ghett’a Life, 2011) – Chris Browne

The Price of Memory (The Price of Memory, 2014) – Karen Marks Mafundikwa

Uruguai

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Antes de começar a falar sobre o cinema do Uruguai, uma deliciosa curiosidade. Em 1898, o empresário Félix Oliver assiste a uma exibição do cinematógrafo e se apaixona perdidamente pela engenhoca. Volta para casa com um projetor, uma câmera (comprado dos irmãos Lumière!), e milhares de ideias na cabeça. Uma delas vira o filme “Una carrera de ciclismo en el Velódromo de Arroyo Seco”, o primeiro do cinema uruguaio e segundo da América Latina.  Abre a primeira sala de exibição de Montevidéu e ajuda outros a produzirem seus próprios filmes. Não satisfeito, em 1900, vai conhecer Georges Méliès para aprender truques para tornar seus filmes mais engraçados. Os filmes de Félix ocupam lugar de honra na Cinemateca Uruguaia.

Até 1919, os documentários eram a grande maioria dos filmes produzidos no país, porque os filmes de ficção vinham da Argentina. A produção local engatinhava enquanto a dos países vizinhos se desenvolvia a passos largos. Apesar das tentativas de incentivar a produção de cinema depois da Segunda Guerra, os filmes careciam de personalidade própria. Os 22 anos de ditadura militar também não ajudaram muito.

Tudo mudou na década de 90, quando foram criados os fundos FONA e INA para incentivar projetos cinematográficos. Sem essa ajuda, nenhum dos filmes produzidos nas décadas seguintes teria saído da gaveta. Surgiram diretores, roteiristas e técnicos, alguns vindos da publicidade, outros formados no exterior. De lá pra cá, mais de 120 filmes foram feitos.

O cinema uruguaio ainda é refém de co-produções com Argentina, Brasil e Espanha, mas mesmo assim tem feito alguns dos melhores filmes da América Latina. Um bom presságio é o Oscar para a canção “Al otro lado del río”, de Jorge Drexler, a primeira em espanhol a levar a estatueta pra casa. Nunca duvide dos uruguaios, um dia eles podem surpreender e faturar um homenzinho dourado por seus filmes.

Essa lista é só um aperitivo. Garantimos que você não vai se decepcionar.

Carlos, Cine-retrato de un caminante en Montevideo (Carlos, Cine-retrato de un caminante en Montevideo, 1964) ­ Mario Handler

El dirigible (El dirigible, 1994) – Pablo Dotta

Ácratas (Ácratas, 2000) – Virginia Martínez

25 watts (25 watts, 2001) – Juan Pablo Rebella & Pablo Stoll

En la puta vida (En la puta vida, 2001) – Beatriz Flores Silva

Aparte (Aparte, 2002) – Mario Handler

El último tren (El último tren, 2002) – Diego Arsuaga

El viaje hacia el mar (El viaje hacia el mar, 2003) – Guillermo Casanova

Whisky (Whisky, 2004) – Juan Pablo Rebella & Pablo Stoll

O banheiro do Papa (El baño del Papa, 2007) – César Charlone & Enrique Fernández

Matar a Todos (Matar a Todos, 2007) – Esteban Schroeder

Acné (Acné, 2008) – Federico Veiroj

Mal Dia para Pescar (Mal Dia para Pescar, 2009) –  Álvaro Brechner

El Cuarto de Leo (El Cuarto de Leo, 2009) – Enrique Buchichio

Reus (Reus, 2010) –  Eduardo Piñero, Pablo Fernández & Alejandro Pi

La vida útil (La vida útil, 2010) – Federico Veiroj

La demora (La demora, 2012) – Rodrigo Plá

120 Seras eterno como el tiempo (120 Seras eterno como el tiempo, 2012) – Shay Levert

Tanta Água (Tanta Água, 2013) – Ana Guevara & Leticia Jorge Romero

Anina (Anina, 2013) – Alfredo Soderguit

Una noche sin luna (Una noche sin luna, 2014) – Germán Tejeira

Mr. Kaplan (Mr. Kaplan, 2014) – Álvaro Brechner

El apóstata (El apóstata, 2015) – Federico Veiroj

El hombre nuevo (El hombre nuevo, 2015) – Aldo Garay

Gonchi, la película (Gonchi, la película, 2015) – Luis Ara & Federico Lemos

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