Eurocopa, dia 5: Quando o futebol coincide com a geopolítica

Foto: Uefa
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Hungria derrota a Áustria no duelo das ex-irmãs do período pré-Segunda Guerra mundial e as piadas geopolíticas se misturam ao futebol. Último grupo da Eurocopa reservou partidas interessantes, com a estreia de Portugal contra a Islândia.

Áustria x Hungria: Foi lá em 1919…

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Abrimos o último dia da primeira rodada com um interessante Áustria e Hungria na cidade de Bordeaux. São dois azarões que não almejam muita coisa no torneio e só mesmo o fato de terem se classificado já é um dado surpreendente. Mas alguém tinha de vencer.

Nos livros de história, quando os nomes de Áustria e Hungria aparecem, é quase sempre para definir um país só, o Império Austro-Húngaro, formado em 1867 e dissolvido em 1918, após a assinatura de um armistício para reconhecer a derrota na Primeira Guerra Mundial. Em 1919, foi consolidado em solo francês o Tratado de Saint-Germain, que previa o fim da monarquia austro-húngara.

Passaram-se 97 anos e as duas nações se reencontraram, em um contexto bem diferente, por uma competição de futebol na França. Nem tanto para celebrar a proximidade do centenário do Tratado de Saint-Germain, mas para dar largada no Grupo F da Eurocopa.

Se o foco das atenções do lado austríaco estava em Alaba, coadjuvante no Bayern e Arnautovic, do Stoke, a Hungria contava com o goleador em má fase, Szalai. Ele não marcava nos últimos nove jogos e chegou com a faca entre os dentes para o duelo.

Com gols de Szalai e Stieber (de cobertura, muita coragem ao enganar o goleirão Almer), a Hungria mostrou mais capacidade de aproveitar as suas descidas e a inferioridade numérica da Áustria, que perdeu Dragovic na etapa complementar. O escrete dos magiares dominou mais e levou muito perigo ao gol, matando o jogo no segundo tempo em falhas da defesa austríaca. Essa turma conta com um esquema mais sólido e o time é bem treinado por Bernd Storck, ao contrário da Áustria, que apesar de ter jogadores mais qualificados, não soube agredir como precisava para marcar gols ou equilibrar o duelo.

A Áustria não se encontrou, esbarrou na marcação redondinha da Hungria e viu seus talentos limitados demais durante os 90 minutos. Com a mesma capacidade que marcava, a equipe magiar que um dia fez sonhar com Puskas, Czibor e Kocsis contou com a humildade desta geração para tentar construir algo bom, tantos anos depois dos anos dourados vividos pelo esporte do país. A vitória por 2-0 anima demais em uma briga pela primeira ou segunda vaga.

Os húngaros podem até não desfrutar de uma seleção recheada de craques, mas não falta inteligência e determinação para fazer história novamente. Que assim seja, então.

Portugal x Islândia: Camarão que dorme, a onda leva

Foto: Uefa
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Tudo bem, a gente sabe que Portugal é um pouco limitado como time de futebol. A super-dependência em Cristiano Ronaldo não é surpreendente e nem se esperava outra coisa da equipe de Fernando Santos. Mas às vezes o óbvio é tão irritante quanto o que não é tão claro assim.

Se Cristiano não jogar, o time por consequência não consegue achar alternativas para vencer. Os primeiros minutos, intensos, deram cabo de mostrar que os lusitanos estavam prontos para o desafio. Pura enganação. Ataques ferozes colocaram a defesa islandesa sob pressão. Como o time grande em campo, era obrigação de Portugal amassar em busca do triunfo.

Aos 31 minutos, Nani furou o bloqueio e abriu o placar, estourando em festejo a massa portuguesa presente em Saint-Etienne. Ele recebeu um passe rasteiro da ponta direita e desviou para a meta. Ao longo do confronto, o goleirão da Islândia, Halldórsson, foi testado pela ofensiva rubro-verde. E passou no teste, bloqueando e espalmando tudo que vinha na sua direção.

Portugal seguia tentando aumentar o marcador, mas não estava tão inspirado. Ronaldo, sumido, ficava atrás da linha em que costuma se posicionar pelo Real Madrid. Bem marcado, criou pouco, sem poder respirar. De tanto cozinhar o adversário, a equipe portuguesa foi punida pela sua postura. A Islândia começou a pressionar aos poucos e teve seu auge no início da segunda etapa. Foi o bastante para que um cruzamento longo atravessasse a área lusitana. A defesa estava muito mal colocada e Bjarnason chegou de voleio para empatar. Um belo gol para fechar o dia.

A necessidade de vencer empurrou Portugal novamente para o campo ofensivo. Fernando Santos mexeu do jeito que podia para tornar o time mais agressivo. Quaresma, o interminável autor de dribles humilhantes e chutes desgraçadamente precisos, entrou para dar um gás lá na frente, arquitetando jogadas pela direita. Como no primeiro tempo, faltou um pouco mais de capricho, talvez até sorte. Porque em todas as falhas de Halldórsson, nenhuma delas era debaixo das traves, necessariamente. O básico, pelo menos, o goleirão islandês fazia.

O último suspiro veio com Cristiano Ronaldo, em duas cobranças de falta nos acréscimos. E o craque ainda teve duas chances, já que errou a primeira e acertou a mão de um defensor que saltou na barreira. Na segunda, falhou a pontaria e chutou na cabeça de outro islandês. Era tudo e o juiz Cuneyt Çakir encerrou o baile com o placar de 1-1, que desanimou um pouco o contingente português em Saint-Etienne. A seleção portuguesa precisa melhorar muito se quiser fazer bonito. E a tendência é que enfrente novas dificuldades ante Hungria e Áustria.

Já a Islândia, com seus dois técnicos (Lars Lagerback e Heimir Hallgrímsson), faz a lição de casa em anular um gigante para somar pontos e continuar viva na luta. Bem organizada e com uma boa transição até o ataque, não seria nenhuma loucura apontar esta seleção carismática como favorita para chegar à segunda fase. Se torcer para Portugal é um respeito aos laços com o povo brasileiro, apoiar a Islândia é acima de tudo gostar que um time atue em seu máximo potencial, jogando uma decisão de vida ou morte por rodada. Essa vibração pode ser crucial lá na frente.

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