Da chacota à vitória: A história da Holanda dos anos 80, parte final

Gullit taça euro

Final da série sobre a Holanda nos anos 1980 reflete a decisão contra a União Soviética, o primeiro título da seleção de Rinus Michels e o que aconteceu após a disputa da Euro 1988.

Leia também as outras partes do especial:

PARTE I

PARTE II

A Holanda comemorou tanto, mas tanto a vitória contra a Alemanha que até baixou o nível, ignorando a esportividade. O zagueiro Koeman trocou de camisa com o meia alemão Olaf Thon e simulou limpar o traseiro com ela. Koeman eventualmente foi criticado pela atitude e logo se desculpou com Thon e com o povo alemão. Não era para menos.

Em todo o país, as pessoas saíram às ruas para provocar alemães, celebrar a vitória e buzinar. Sem exageros: a festa vista em Amsterdã foi considerada a maior desde a libertação do jugo nazista, em 1944. Até por ser outra espécie de libertação, a do fantasma de 1974.

O poema “21-6-88”, de Jules Deelder, exemplifica bem o que a vitória significou para a Holanda: “Oooooo! En wie vergeef/des doelman hand/zich strekte naar de bal/die één minuut/voor tijd/de Duitse doellijn kruiste/zij die vielen/rezen juichend/uit hun graf” (“Oooooo! E quem esquece/a mão do goleiro/que se esticou/para a bola/que um minuto antes do fim/a linha alemã cruzou/aqueles que caíram/das suas tumbas/se levantaram”).

Mas ainda faltava um capítulo para coroar de vez aquela geração. A melhor maneira de afirmar isso era vencer a final, claro. A missão era derrotar a União Soviética, que superou a Itália na semifinal por 2 a 0, com gols de Lytovchenko e Protasov. Um título marcaria aquele time pra sempre, e daria o primeiro título oficial para a Laranja Mecânica.

Com a vaga conquistada, a seleção holandesa foi mais relaxada pra final, que aconteceu no estádio Olímpico de Munique. O ataque soviético era ativo e mais perigoso em campo, com Gotsmanov, Protasov e Belanov trazendo perigo à área, mas a defesa holandesa não sofria em campo, com boas atuações de Rijkaard e Van Tiggelen. No fim das contas, também se tratava de uma vingança pelo resultado da primeira fase.

Cabeçada Gullit

A retaguarda soviética estava desfalcada de Kuznetsov, o melhor zagueiro soviético. Isso explicou o domínio holandês logo de início. Aos 33 minutos do primeiro tempo da decisão, uma trapalhada da defesa da URSS: Erwin Koeman bateu escanteio da esquerda, que foi rebatido e voltou a seus pés. Tentando antecipar os movimentos do adversário, os soviéticos fizeram a linha de impedimento. Entretanto, a tática falhou quando Van Basten desviou de cabeça e Gullit testou firme pro fundo das redes de Dasaev.

Com o gol do 1 a 0, a tranquilidade holandesa se estabeleceu de vez. Embora a pressão soviética tivesse continuado por algum tempo, a organização tática com que o time fora pensado por Rinus Michels facilitava a diminuição do perigo. Uma equipe muito organizada, com muitas virtudes, que fazia cada peça render muito mais do que nos anos anteriores, em meio ao caos que assombrou a Laranja.

No segundo tempo, aos 9 minutos, a União Soviética pressionava, mas Van Tiggelen desarmou um jogador próximo à área holandesa. E o lateral-esquerdo progrediu com a bola até pouco depois do meio-campo, quando passou a Arnold Mühren. Da esquerda, o veterano volante, então, cruzou a bola, de primeira, para Van Basten, que vinha pelo lado oposto, correndo para a grande área. Ao lado de Carel Akemann, no banco de reservas, Rinus Michels estava perplexo: “O que ele está fazendo?!”.

Na área, Van Basten chegava. Um zagueiro aproximou-se dele, mas ouviu Dasaev gritar: “Preste atenção em Gullit!”. E deixou o camisa 12 livre. Pouca chance de haver problemas, até porque o cruzamento de Mühren saíra alto demais, indo além da segunda trave, onde ele pensara em mandar a bola. E o atacante holandês, com quatro gols até então, teria de resolver a jogada daquele modo. Na base do “é tudo ou nada”, Van Basten chutou. Mais distante, testemunhando a jogada, Jan Wouters pensou: “Ele é louco”.

Holanda campeã 1988

O resto é história. Incredulidade dos soviéticos, felicidade para os holandeses. A surpresa pelo épico gol que acabavam de testemunhar também estava em campo nas comemorações dos jogadores, como por exemplo no diálogo entre Wouters e Van Basten:  “Como você fez isso?” “Eu não sei!”. Mas ainda havia jogo, e a União Soviética estava viva.

Pouco depois do gol, Zavarov aproveitou falta pra área e chutou na trave. E aos 29 minutos daquela etapa final, após lançamento para a área mal rebatido, a bola foi para a linha de fundo. Gotsmanov foi pegá-la. Pouca chance de a jogada seguir. Mas Van Breukelen foi perseguir o camisa 18 soviético e o derrubou. O árbitro francês Michel Vautrot viu pênalti.

Van Breukelen, que fora decisivo na final da Liga dos Campeões entre PSV e Benfica, foi decisivo de novo. Belanov bateu no canto direito, forte. E o arqueiro rebateu com tanta força que a bola foi parar fora da área. Mas seu olhar imponente, e até furioso, após defender, deixava claro: a Eurocopa de 1988 já tinha dono. Pela primeira vez na história a Europa se rendia ao poder da Laranja Mecânica e fazer um país entrar em festa.

A insana celebração foi otimamente descrita por Johan Derksen, redator-chefe da revista Voetbal International: “A estrada de Munique até Amsterdã foi uma festa. Não tinha gente mostrando o dedo do meio na parte chamada Autobahn, mas só compatriotas comemorando. A solidariedade era incrivelmente grande. Muçulmanos e cristãos, torcedores do Ajax e do Feyenoord, socialistas e liberais; todos eles foram campeões europeus. Rinus Michels, Jan Wouters, Hans van Breukelen e Marco van Basten são heróis nacionais agora.”

E um país entrava de vez em festa, com um time que fez até a rainha Beatrix se render a esta equipe na casa real. Tudo ao som de “Wij houden van Oranje” (Nós amamos a Laranja), de André Hazes.

A ressaca chegou após o título europeu nas eliminatórias para a Copa do Mundo, no grupo reduzido entre a própria Holanda, a eterna rival Alemanha Ocidental de novo, a Finlândia e País de Gales, em um grupo em que dois iriam para a Copa do Mundo diretamente. No torneio em solo italiano, outro clássico entre a Laranja e os alemães trouxe um clima explosivo. Mas isso daí já é outra história…

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