Da chacota à vitória: A história da Holanda dos anos 80, parte II

Fußball-EM '88: Europameister Niederlande

Continuação do especial sobre a Holanda mostra como a seleção de Rinus Michels arrancou de uma derrota na estreia da Euro até a conquista histórica diante da União Soviética. O foco desta parte é no clássico contra a Alemanha, um ato de vingança para o povo holandês.

LEIA A PARTE I DO ESPECIAL SOBRE A HOLANDA

A Holanda, com a vitória sobre os ingleses, ganhava confiança, mas a vitória diante da Irlanda, que empatara com a União Soviética por 1 a 1 na rodada anterior, não era certa. O jogo em Gelsenkirchen diante dos irlandeses seria duro. Apesar da nítida vantagem holandesa, a Irlanda treinada por Jack Charlton tinha base defensiva e ataque com atletas cascudos como Frank Stapleton e John Aldridge.

Assim como contra a Inglaterra, sustos irlandeses contra a Holanda aconteceram apenas no começo de jogo: McGrath chegou a mandar uma bola na trave, mas a partir daí, só a Laranja Mecânica trouxe perigo. A dedicação da Irlanda para marcar e desarmar no campo de defesa anulava tudo o que os oponentes tramavam. Seguia a insistência em chuveirinhos na área, apesar do esquema armado em um 4-3-3 que supostamente daria mais fluidez ofensiva. Enquanto isso, o goleiro Pat Bonner fazia milagres e garantia a Irlanda em uma inédita semifinal.

Porém, aos 37 do segundo tempo, veio o gol que tirou a Holanda do sufoco: Gullit cruzou da direita, Ray Houghton tirou de cabeça, Koeman tentou o voleio e pegou mal. A sobrou pra Kieft emendar de cabeça, em um lance que a bola caiu devagar no fundo das redes de Bonner. A classificação veio e a preocupação passou a ser com a eterna rival e dona da casa Alemanha.

Estava escrito o reencontro com a eterna rival. Aquela derrota de virada por 2-1 atravessada na garganta dos holandeses. Havia gente de 1974 nos bancos das duas equipes. Os holandeses, com Rinus Michels, técnico daquele Carrossel. Os alemães-ocidentais, por sua vez, tinham o eterno capitão Franz Beckenbauer como técnico, logo ele que levantou a taça daquela Copa do Mundo, na cara dos holandeses.

Os alemães, em grande fase, eram os favoritos para o clássico. Jogadores como o zagueiro Herget, o meia Rolff (os dois que não foram campeões do mundo em 1990), além de Brehme, Matthaus, Klinsmann e Völler eram os comandados de Beckenbauer naquele ano. O Kaiser tinha em mãos um plantel sólido que fez boa primeira fase, terminando em primeiro no grupo após empatar com a Itália por 1 a 1 e vencer Dinamarca e Espanha por 2-0.

O clássico e a desforra

Alemanha x Holanda 1988

O Volksparkstadion, em Hamburgo, foi o palco do clássico. Ainda havia feridas de Munique em 1974. E até de outros confrontos do passado. A derrota de 1974 ainda era o revés mais emblemático da história do futebol holandês. Tanto que foi batizado como “a mãe de todas as derrotas”.

Não havia como não ter motivação pra esse jogo. E a motivação exagerada atrapalhou os holandeses no primeiro tempo, quando a Holanda pressionava mais com chutes de fora e não entrava na área do gol de Immel. A Alemanha trazia perigo especialmente com Herget e Matthäus, mas não a ponto de tirar o placar do zero.

No segundo tempo a Holanda melhorava, com uma grande partida de Gullit, mas continuava nervosa. Um lance em especial explicou todo esse clima beligerante: Matthäus estava caído próximo a grande área holandesa, pedindo falta, que o juiz romeno Ioan Igna não marcou. Enquanto o camisa 8 alemão estava no gramado, Van Breukelen saiu da área e vociferou perto do adversário: “Eu quero que você se f—”.

Van Breukelen era a tensão holandesa em pessoa. Sempre reclamando com o juiz, peitando alemães até tomar um cartão amarelo, como um goleiro catimbeiro qualquer. A raiva dele continuou quando Igna apitou pênalti aos 10 minutos. Klinsmann cavou um após ser tocado por Rijkaard dentro da área. O arqueiro holandês bateu palmas ironicamente. Matthaus não tinha nada com isso e colocou a Alemanha na frente do marcador.

Rijkaard carrinho

O nervosismo exacerbado era o grande obstáculo para a Laranja na partida. As coisas pareciam piores quando Völler fez cera no gramado, simulando uma lesão após uma falta de Van Aerle. Não bastasse a truculência, o holandês puxou os cabelos do adversário, o que aumentou ainda mais o drama do alemão. Obviamente, tivemos empurra-empurra e discussões acerca da atuação de Völler.

A partir das cenas lamentáveis, a Holanda se acalmou. Rinus Michels colocou Kieft em campo, em busca de vibração ofensiva e as coisas começaram a mudar. A Alemanha se acomodou acreditando nas arrancadas de Klinsmann. E Ioan Igna, em uma noite não muito boa, errou de novo quando Köhler tentou tirar a bola da linha de fundo e tocou Van Basten limpamente. Mas o romeno apitou equivocadamente um pênalti para a Holanda.

Na cobrança, Ronald Koeman, que tradicionalmente tinha rendimento alto batendo pênaltis, marcou o gol de empate em 1-1 aos 28 minutos. Tudo estava equilibrado de novo. As duas seleções seguraram o ímpeto, praticamente já esperando uma prorrogação. Mas algo poderia acontecer. E um descuido fatal da defesa germânica se mostrou crucial.

Aos 44 minutos, em uma jogada que nasceu quase de forma inofensiva no meio-campo, Ronald Koeman fingiu tocar para Gullit e se jogou para a esquerda, levando consigo a marcação de Borowka e Matthäus. O meio ficou livre para Ronald Koeman lançar em profundidade até Wouters, que recebeu a bola, e lançou para Van Basten. O centroavante se antecipou a Köhler e deu um toque sutil de carrinho. Suficiente para tirar a bola do alcance de Immel, que se esticou todo para defendê-la, sem sucesso. Era a virada laranja.

Ja! Ja, Marco van Basten!”, narrou Evert ten Napel, da NOS, a emissora holandesa de TV que transmitia o jogo. Naquele momento, a audiência do jogo já batia os 5,8 milhões de telespectadores em território holandês – fora os 109 países para os quais a Eurocopa era transmitida, o que incluía o Brasil, com a transmissão da Globo. Enquanto Van Basten marcava o gol da virada, a audiência atingiu picos de 8,7 milhões de telespectadores na Holanda.

A Alemanha tentou partir pro abafa, mas com o final se aproximando, era uma sensação de título para os holandeses. A vingança tardou, mas chegou. Não importava que ainda havia uma final pela frente ou se a Alemanha venceria na revanche de 1990. A desforra de Michels e seus pupilos foi estampada na capa do De Telegraaf com o título: “Finalmente a vingança“.

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