Da chacota à vitória: A história da Holanda dos anos 80, parte I

Holanda 1983

Série contada por Caio Bitencourt mostra como a Holanda se remontou após fiascos na transição da geração dos anos 1970 para a década de 80. Fora das Copas de 1982 e 86, a Laranja voltou forte para levar a Euro 1988.

Depois da classificação e do fracasso na Euro 1980, onde a Laranja Mecânica caiu na primeira fase da Euro realizada na Itália e da não-classificação para a Copa do Mundo de 1982, a Holanda, já sob o estigma de vice-campeã do mundo, precisava de um título para acabar com a fama de “seleção amarelona”. Tudo isso em meio a entressafra de jogadores, como Krol, Neeskens, entre outros.

Havia uma boa geração desabrochando: uma de artilheiros como Wim Kieft, chuteira de ouro na temporada 1981-82, e de Marco Van Basten, que recebeu o mesmo prêmio na temporada 1985-86. Já estava nascendo aquele timaço de 1988, mas algo impedia a seleção holandesa de se classificar. Primeiro, a dramática vaga perdida para a Espanha na Euro 1984 pelo critério de desempate dos gols pró. Depois, a vaga para a Copa de 1986 foi pelo ralo na repescagem com um gol qualificado para a Bélgica, após derrota holandesa por 1 a 0 em Bruxelas e vitória por 2 a 1 em Roterdã.

As eliminatórias para a Euro 1988 foram muito duras. O velho conhecido Rinus Michels, que era o diretor-técnico da KNVB, voltou a assumir o cargo de treinador da seleção. Entre vitórias contra Hungria e Chipre, houve tropeços contra Polônia e Grécia em casa, ainda que com os poloneses, um triunfo fora de casa ajudasse nessa missão. A Holanda chegava ao jogo contra o Chipre precisando vencer para não chegar com riscos no confronto direto longe de seus domínios diante da Grécia.

Quando a Holanda vencia seu jogo, no De Kuip, em Roterdã, por 1 a 0, um homem de 21 anos atirou uma laranja na cabeça do goleiro cipriota Charitou. O camisa 1 adversário e seus companheiros deixaram o campo por questões de segurança, mas ainda voltaram ao jogo pouco depois: a partida terminou com um sonoro 8 a 0 para os holandeses. Inicialmente a UEFA anulou a vitória e a colocou em julgamento.

Entretanto, a influência do presidente da KNVB ajudaria no caso. Jacques Hogewoning, ainda durante a partida, mandou o médico da federação confirmar as condições de Charitou. E lá o especialista constatou que o goleiro estava em boas condições, como confirmado pelo próprio Charitou e pelo médico da delegação cipriota. Esta informação foi mostrada e utilizada no julgamento, o que certamente ajudou a aliviar a pena holandesa.

A punição para a Laranja acabou sendo menos drástica do que se imaginava. A Uefa ordenou que fosse realizada nova partida diante do Chipre, desta vez com portões fechados. E neste replay, a Holanda venceu novamente, por 4 a 0, garantindo assim a sua vaga para a Eurocopa. Os holandeses ainda venceram a partida contra a Grécia fora de casa por 3 a 0, começando bem a preparação para o torneio disputado na Alemanha, em 1988.

Rinus Michels 1988

Em meio à preparação, Rinus Michels teve algumas conclusões para formar o time titular: Eram jogadores talentosos, mas não o suficiente para fazer algo tão complexo como o Carrossel de 1974. Portanto, o técnico preferiu apostar em um 4-4-2 como formação-base. A convocação dos 20 jogadores seguiria os seus critérios.

Havia a polêmica em torno do goleiro Stanley Menzo, do Ajax. A sua convocação estava em pauta. Ele era melhor jogando com os pés, mas Rinus não queria um estilo mais afeito ao futebol total de 1974, queria um atleta que fosse melhor debaixo das traves. Este homem era Hans van Breukelen, do PSV. Menzo não entrou para a lista e o reserva foi Joop Hiele, do Feyenoord.

Outra polêmica era se Van Basten, do Milan, seria titular. Em meio a uma temporada de muitas lesões, incluindo a sua primeira cirurgia no tornozelo, Rinus, que não gostava muito de Marco pelo seu estilo mais preciosista, preferiu Bosman, do Ajax, que estava em melhor fase. E assim, o famoso goleador milanista começou o torneio no banco.

O próprio van Basten reconheceu que precisaria mostrar talento aos poucos: “Eu estava machucado, no Milan. Precisava entrar em forma novamente, e foi lógico, da parte de Michels, pensar na base do ‘em time que está ganhando não se mexe’”. Naquele momento, era formado o time já pensando na estreia diante da União Soviética.

A torcida holandesa estava animada. A base da seleção era do Ajax finalista da Recopa Europeia, mesclada com a do PSV campeão da Liga dos Campeões, o Mechelen campeão da Recopa sobre o Ajax, e os dois craques do Milan (Rijkaard e Gullit), que vinha com a moral de ser o campeão italiano daquela temporada.

O temido esquadrão da União Soviética. Os russos enfrentaram a Holanda duas vezes na Euro 1988
O temido esquadrão da União Soviética. Os russos enfrentaram a Holanda duas vezes na Euro 1988

Mas apesar da animação do torcedor holandês, havia preocupações com o sistema de jogo que não havia vingado até a Euro. Como uma equipe desorganizada jogaria contra a URSS bem organizada taticamente por Valeri Lobanovsky e com jogadores experientes? Lobanovsky contava com um elenco competente como o goleiro Dasaev e o zagueiro Demianenko, e o trio de ataque de Rats, Mikhailichenko, sem falar no Bola de Ouro de melhor jogador europeu de 1986, Igor Belanov.

Mas dentro de campo quem acabou jogando melhor foram os holandeses, em atuação de destaque dos jogadores de defesa, especialmente de Koeman e Rijkaard, que avançavam como elementos-surpresa, e com a colaboração de Van Tiggelen, Van Aerle e Muhren, que fizeram a Holanda sair com segurança da primeira etapa.

Apesar da ótima atuação de Rijkaard, que impressionou grandes treinadores como o argentino César Luís Menotti e o italiano Arrigo Sacchi, que pediu a Berlusconi sua contratação para o Milan, a Holanda saiu em desvantagem no começo da segunda etapa, aos 7 minutos.

Em falha de van Tiggelen pela esquerda, ele não deu o bote em Khidiatullin, e assim o soviético pôde inverter o jogo para Rats, que bateu de voleio, cruzado, sem chances para van Breukelen, para colocar a URSS na frente. Este placar durou até o final da partida, apesar das inúmeras tentativas do empate, que fizeram até Michels tirar Van Basten do banco, colocando no lugar de Vanenburg. Contudo, o esforço foi insuficiente para impedir a União Soviética de sair na frente no grupo A.

Holanda x Inglaterra 1988 2

A boa atuação na estreia era a esperança holandesa, apesar da derrota, para uma pronta recuperação frente a Inglaterra, que havia perdido para a Irlanda na estreia por 1 a 0. Do outro lado, a equipe treinada por Bobby Robson e com atletas de peso como Lineker, Beardsley e Barnes no ataque, tinha boas chances de se recuperar.

A Holanda precisava ser mais ofensiva. Por isso, Rinus Michels arriscou: mesmo não estando 100% fisicamente, jogou suas fichas em Van Basten no time titular, no lugar de Bosman. Mesmo assim, no jogo contra os ingleses, eram os Three Lions que começavam melhor na primeira etapa, criando muitas chances e colocando duas bolas na trave.

Mas se no primeiro jogo os holandeses sofreram gol após pressionar, a maré virou a favor deles, aos 44 minutos. A estrela de Van Basten começou a brilhar quando o matador recebeu cruzamento de Gullit da esquerda, driblou de maneira linda o zagueiro Tony Adams e bateu forte para abrir o placar em Frankfurt.

Sem desistir do confronto, Bryan Robson empatou para os ingleses. Daí então, coube a Van Basten brilhar outra vez. Ele recebeu outro passe de Gullit após bola mal rebatida pela defesa dos Three Lions, apareceu livre e bateu cruzado para colocar a Holanda na frente. O tiro de misericórdia veio finalmente aos 30 minutos, quando Gullit escorou um escanteio dentro da área e Van Basten bateu de voleio, de primeira, marcando o seu triplete e decidindo a parada.

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