Plaza Colonia: A humildade do novo campeão uruguaio

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Com colaboração de Leopoldo Bitencourt

Festa do pequeno Plaza Colonia em pleno estádio Campeón del Siglo coroou um novo campeão do Torneo Clausura uruguaio. Equipe patablanca venceu o Peñarol e rompeu um domínio da dupla de gigantes do país.

O dia 29 de maio de 2016 será lembrado por muito tempo no futebol sul-americano. Não pelo amistoso dorminhoco do Brasil contra o Panamá e nem pela rodada do Brasileirão. O domingo foi pintado de verde e branco, as cores do modesto Plaza Colonia, campeão do Torneo Clausura do Uruguai.

Não bastasse sair da posição de presa fácil que exibia até o ano passado, o selecionado patablanca disparou até a ponta da tabela, em uma campanha irretocável e histórica para uma equipe deste porte. Em 2001, o Plaza Colonia saía da segunda divisão para tentar se estabelecer na elite uruguaia. Fundado em 1917, o clube alviverde sempre foi considerado uma força na cidade de Colonia del Sacramento, apesar de ter entrado apenas em 2000 para o profissionalismo nacional. Antes disso, só disputava torneios regionais.

Lugano Plaza Colonia

O ingresso no futebol profissional, aliás, aconteceu na base da perseverança. O plano era propor uma fusão com o rival de Colonia, o Juventud de Colonia, mas a equipe declinou unir forças com o coirmão para um projeto de clube da cidade em caráter nacional. Azar do Juventud. Mirando a elite em pelo menos cinco anos, o Plaza superou todas as suas expectativas e subiu da segunda para a primeira em 2001, no ano seguinte, sob o comando de Diego Aguirre. Um certo Diego Lugano chegou a capitanear o clube alviverde, estreando na primeira divisão em 2002, até chamar a atenção do São Paulo. O resto é história.

Apesar da ascensão rápida, o Plaza nunca foi exatamente uma potência financeira. Muito pelo contrário. A condução das economias do clube sempre foi feita com pé no chão, sem gastos desnecessários, contratação de estrelas ou pagamentos fora da realidade do país. O projeto humilde e com uma folha salarial considerada irrisória foi levado às últimas consequências, tanto que em 2006, os patablancas optaram por não jogar nenhum campeonato, tentando estancar um sangramento econômico.

De 2007 a 2015, o Plaza ficou esquecido na segunda divisão. Voltou apenas nesta temporada, para dar a sua mais gloriosa arrancada até a taça do Clausura. Na tabela, quem esperava ver os tradicionais Nacional, Peñarol ou Defensor, se choca com o fato dos alviverdes de Colonia ocuparem a liderança, com 31 pontos, cinco a mais do que o Peñarol. A trajetória não é de forma alguma um aborto da natureza: em 14 partidas, os colonienses venceram nove, empataram quatro e perderam apenas uma, para o Juventud de las Piedras. Vitórias cruciais contra Nacional e Peñarol marcaram a postura destemida dos alviverdes.

Plaza Colonia
Villoldo e o arqueiro Dawson erguem a taça de campeão do Clausura em plena casa carbonera. Foto: Tenfield

Não bastasse sair do clima quase varzeano da segunda divisão local, o time treinado por Eduardo Espinel foi campeão do segundo turno, ganhando direito a um duelo com o Peñarol para decidir quem será o legítimo campeão do Uruguai na temporada.

Ao que concerne o duelo direto entre os aurinegros e os patablancas, pelo menos neste domingo quem levou a melhor foi o Plaza, que bateu o adversário por 2-1 esbanjando garra e determinação. Nem mesmo toda a história do craque Diego Forlán e seus companheiros serviu para defender a tradição carbonera em 90 minutos.

Dentro do estádio Campeón del Siglo, quem fez a festa foi a pequena caravana de Colonia del Sacramento, com uma rodada de antecedência. O que dá plena confiança aos colonienses para o tira-teima, mais um grande desafio para o competente elenco de Espinel. A fórmula para o sucesso, de acordo com o próprio goleiro Dawson, é a humildade. Em todos os momentos, o grupo comprou a ideia de que poderia sobreviver na elite e assim foi colocando tijolo a tijolo no caminho para a glória.

“Isto é muito louco! Há 16 meses estávamos lutando para não cair para a terceira divisão. Sabíamos que se fôssemos rebaixados, dificilmente poderíamos continuar com nossas carreiras. Hoje, estamos aqui comemorando o título. Tudo isso veio como fruto do esforço da nossa gerência e obviamente dos jogadores e comissão técnica. Nunca cruzamos os braços, sempre trabalhamos duro. Essa dedicação nos permitiu viver algo tão magnífico e inesquecível”, cravou o goleirão Dawson.

Plaza Colonia campeão

Em um esporte cada vez mais enviesado para os grandes, em que a distribuição de receita mata a competitividade dos médios e pequenos, a história mágica do Plaza Colonia serve como um refúgio da obviedade e das hegemonias dos mesmos times de sempre. Ainda ontem lamentávamos que mais uma vez a Liga dos Campeões foi para as mãos do poderoso Real Madrid em detrimento do Atlético, que subverteu a lógica do talento, dos craques milionários e da fama absoluta, chegando longe com a sua valentia em peitar os gigantes.

Como é bom ver um campeão diferente. Seguimos saudando os grandes times e craques, mas sem sombra de dúvida, é um afago na alma de quem respira o futebol testemunhar uma façanha tão incrível quanto a dos patablancas. Por mais surpresas assim. Em nome das zebras, do trabalho cuidadoso e do suor derramado pelos operários alviverdes colonienses, donos da melhor história do futebol uruguaio em muito tempo.

Antes de lutar pela taça máxima do futebol uruguaio, o elenco do Plaza Colonia tem uma missão especial, revela o técnico Espinel:

“Fizemos uma promessa para o caso de sermos campeões do Clausura. Vamos fazer uma caminhada de Colonia até Valdense, onde sempre nos concentramos para as partidas. São mais ou menos 70 quilômetros de distância e a ideia é andar para lembrar tudo o que fizemos neste ano.”

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