Boban, o craque que ajudou a mudar a história da Croácia

Foto: Robert Belosevic/PIXSELL
Foto: Robert Belosevic/PIXSELL

Idealista, o meia croata Zvonimir Boban foi um dos responsáveis pelo caos em um clássico entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha, em 1990. Conflito entre croatas e sérvios nas arquibancadas gerou tensão que culminou na dissolução da Iugoslávia.

Muita coisa pode acontecer no intervalo de 70 minutos. O destino de todo um país pode ser mudado neste período. Em 1990, no estádio Maksimir, em Zagreb, um chute foi a gênese do caos envolvendo separatistas croatas e sérvios. Como todo clássico na antiga Iugoslávia, a tensão estava implícita. Mas em tempos de campanhas nacionalistas e de desunião dos povos, um barril de nitroglicerina estava prestes a explodir quando os dois lados de um conflito se aproximaram.

O dia era 13 de maio de 1990 e valia pela Liga Iugoslava. Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha duelavam por uma partida sem tanta importância no contexto esportivo. Afinal, o Estrela já havia se sagrado campeão nacional. Entretanto, os acontecimentos daquela tarde na Croácia determinaram uma grande mudança na geopolítica da região.

A confusão acabou sendo um sintoma das eleições que dividiram o país. Pela primeira vez em 50 anos, os povos iugoslavos votaram pela separação. Os croatas já sabiam que queriam ser independentes do comunismo que reinava no país. Ao lado dos eslovenos, o líder da União Democrata, Franjo Tudjman conseguiu uma vitória para transformar a Iugoslávia em uma Federação. O desejo de se separar dos sérvios e das garras do monstro Slobodan Milosevic era evidente. Os croatas só não tinham dito isso em alto e bom som para os vizinhos sérvios. Curiosamente, naquele 13 de maio, eles tiveram a chance de dizer isso. Mas o recado não foi dado apenas com palavras.

O policiamento do Maksimir era quase todo feito por oficiais sérvios, o que serviu para ampliar a tensão. De repente, um grupo de torcedores do Dinamo se rebelou. Um trecho importante do contexto da guerra pode ser contado a partir do tipo dos torcedores que estavam presentes na arquibancada. Muitos membros da organizada Bad Blue Boys, do Dinamo, alinhavam com os ideais nacionalistas croatas e eram integrantes das forças armadas. A mesma inclinação política e ideológica era vista nos Delije, os Heróis, torcedores do Estrela Vermelha que se preparavam para o conflito em facções militares.

Boban, um dos croatas

Boban Dinamo x Estrela

A briga estava crescendo fora das quatro linhas, enquanto a bola rolava. Mas o árbitro optou por paralisar o confronto e evitar assim um desastre. Policiais sérvios batiam nos torcedores locais e desencadearam em uma verdadeira batalha campal. Entre os envolvidos, estava o meia do Dinamo, Zvonimir Boban. Com 22 anos, o atleta resolveu comprar a briga de seus companheiros e partiu para cima dos policiais. Ele já estava descontente com o regime iugoslavo, o que resultou em uma punição da Federação local, tirando-o da equipe que disputou a Copa do Mundo de 1990. Com um chute, Boban incitou de vez o conflito e a coisa saiu de controle. Ele tomou algumas pancadas antes de sair como herói croata de campo.

Os torcedores do Dinamo estavam em maioria contra os sérvios, representados por 3 mil militantes que viajaram de Belgrado até Zagreb. O líder dos visitantes era um guerrilheiro paramilitar conhecido como Arkan. Zeljko Raznatovic, um notório criminoso, tinha uma milícia conhecida como “Os Tigres de Arkan”, que assombrou os Bálcãs no início da década de 1990 durante os conflitos na região. Arkan também era o chefe da organizada do Estrela Vermelha. Anos depois, ele seria indiciado em tribunais internacionais por crimes de guerra.

Boban não tinha medo de Arkan e de nenhum dos sérvios que lá estavam. Ele foi um dos últimos jogadores a sair do campo, em batalha que durou mais de uma hora. A polícia reagiu ao motim com bombas de efeito moral e os torcedores do Estrela arrancavam cadeiras para atirar em direção aos adversários. Conivente com a selvageria dos sérvios, as autoridades presentes no local permitiram que houvesse uma batalha feroz entre torcedores e jogadores. Alguns croatas foram esfaqueados sem que o policiamento oprimisse a violência por parte dos visitantes.

“Os hooligans de Belgrado estavam destruindo nosso estádio. Naquele momento, a polícia não fez absolutamente nada para impedi-los”, disse Boban, em entrevista a Vuk Janic para o documentário “The Last Yugoslav Football Team” (O último time de futebol iugoslavo).

O exílio

Foto: Carlo Fumagalli/AP
Foto: Carlo Fumagalli/AP

A Croácia conseguiu o que queria e virou uma nação independente, dando início a uma guerra na região dos Bálcãs em 1991. A batalha foi a mais sangrenta desde a II Guerra Mundial, causando mais de 140 mil mortes. Até 2001, a Iugoslávia enfrentou várias sanções econômicas que facilitaram a sua completa dissolução em 2006, quando Sérvia e Montenegro se separaram.

Boban, que já havia mostrado ser um jogador diferenciado e muito técnico, saiu em 1991 do seu país para jogar na Itália, fugindo dos horrores da guerra que estourava. Ele fez um grande Mundial sub-20 em 1987, quando a Iugoslávia venceu a Alemanha Ocidental na decisão. No tempo normal, um empate em 1-1 com gols do próprio Boban e de Marcel Witeczek, pelo lado alemão. Os eslavos levaram a melhor nos pênaltis para ficar com a taça.

Inicialmente, Zvonimir acertou para jogar no Milan, mas se viu sem espaço no time titular rossonero e foi cedido ao Bari, onde teve brilho raro em uma campanha trágica de rebaixamento. Chamando a atenção dos milanistas, o croata voltou com moral e se tornou um dos grandes jogadores do clube na década de 1990, em meio a uma verdadeira constelação de craques. Por nove temporadas, Boban foi um dos articuladores mais eficientes de jogadas do time. Se tornou uma crucial na vitória da Liga dos Campeões em 1994 em cima do Barcelona, a goleada do Milan sobre o Dream Team de Johan Cruyff.

O fim da linha

Boban, Suker e Jarni

A apoteose da carreira de Boban foi mesmo a Copa de 1998. Já experiente e dono da camisa 10 da Croácia, o meia teve excelente participação no Mundial. No entanto, na partida contra a França, ele errou feio na saída de bola e perdeu a posse. Thuram empatou para os donos da casa.

A justificativa era que Boban estava sofrendo com dores nas costas e pediu para sair, mas não foi atendido e teve de continuar no sacrifício até a metade do segundo tempo. Os Bleus viraram o jogo e foram até a final para arrebentar o Brasil.

No ano seguinte, Boban se aposentou da seleção. Se dedicou ao Milan, clube pelo qual jogou mais três anos. Ainda passou pelo Celta de Vigo e se aposentou em 2002. Hoje em dia, o ex-atleta é comentarista na TV croata e tem formação em História pela Universidade de Zagreb. Poucos atletas e personalidades da Croácia ficaram tão marcados pela luta ideológica quanto ele. Boban é considerado uma figura importante na causa separatista e não haveria de ser diferente. Em tempos com tantos jogadores que se posicionam de maneira isenta, Zvonimir levou a sua crença até as últimas consequências. O chute foi só uma prova de que ele pegaria em armas se fosse necessário.

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