Dia de Final: Benfica x Milan na Copa dos Campeões de 1963

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Milan conquistou a sua primeira taça europeia diante do grande Benfica de Eusébio em 1963. Final em Wembley na Copa dos Campeões marcou o início da maldição de Béla Guttmann sobre os Encarnados.

Bicampeão da Europa em 1961 e 62, o Benfica alcançava sua era de maior sucesso na história, sob o comando do gênio húngaro Béla Guttmann. Entretanto, a maré virou para os portugueses assim que o time voltou para Lisboa com a segunda taça da Copa dos Campeões. Durante a festa do título, Guttmann pediu ao presidente Antonio Carlos Cabral Fezas Vital um aumento substancial de salário como forma de gratidão pela hegemonia europeia.

O mandatário benfiquista achou absurdo o pedido do treinador e recusou a proposta. Ali, o Benfica perdia não só o seu comandante, mas todas as finais europeias que disputaria no futuro. Tudo isso porque Guttmann resolveu amaldiçoar o clube por não se curvar ao seu desejo. Diante do não do presidente, ele condenou os Encarnados a passarem 100 anos sem vencer outra final europeia.

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O tempo passou e os lusitanos sofreram calados. Até 2014, quando o Benfica perdeu para o Sevilla na final da Liga Europa, foram oito derrotas em decisões europeias. Já se foram 54 e nada dos Águias levantarem outra taça internacional. O que cada vez mais aumenta o mito em torno da praga de Guttmann.

Voltamos para 1963. O Grande Benfica de Eusébio e Coluna voltava a uma partida decisiva da Copa dos Campeões, agora sob o comando do chileno Fernando Riera, que treinou a sua seleção na Copa de 1962 e virou o substituto ideal para Guttmann. Em 22 de maio de 1963, o adversário foi o Milan de Nereo Rocco, um primor do catenaccio e do futebol de contra-ataque, tendência fortíssima na Itália nos anos 1960.

De branco, a equipe milanista começou uma tradição vitoriosa na Europa e uma superstição com cores. Das seis outras finais disputadas e conquistadas, o uniforme vestido foi o branco. Apenas em 1969, contra o Ajax, o Milan vestiu rubro-negro, justamente porque os holandeses jogavam de branco/vermelho.

A final

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Os dois times se opuseram em 90 minutos de bom futebol, diante de 45 mil torcedores no templo londrino do esporte. E pelo menos no início, o domínio foi benfiquista. Eusébio desceu pela direita, mandou uma pancada e abriu o placar aos 19 minutos. Os mais entendidos acharam que isso representaria a arrancada para o tri. Mas estavam enganados.

Obrigado a sair de sua postura defensiva para contra-golpear o Benfica, o Milan do meia Gianni Rivera e de José João Altafini, o Mazzola, foi à luta. De repente, a marcação subiu, o meio-campo tomou conta e os italianos estavam controlando o adversário. O papel de Trapattoni como uma sombra implacável na intermediária fez a diferença e o Milan conseguiu ter mais liberdade para criar. Dino Sani e Rivera ficaram responsáveis pela armação, enquanto Mazzola esperava a bola ideal para fazer o gol.

O Benfica não desistiu do jogo após abrir o placar. Até levou perigo ao gol de Ghezzi, mas errava demais nos arremates. A ineficiência custou caro e Mazzola fez o improvável, com louvor. Desesperado, o Milan esperou até o segundo tempo para começar a amassar o rival. Até que saísse o primeiro gol, foram várias chances perdidas pela ofensiva milanista.

Eis que, aos 12 da segunda etapa, Mazzola recebeu pouco à frente da meia-lua, com espaço. Ele teve tempo de olhar ao redor e meter um chutaço rasteiro no canto da meta de Costa Pereira. Tudo igual. A virada veio aos 23, novamente com Mazzola, em lance que não dava para perder. O camisa 9 rossonero recebeu e arrancou sozinho no meio-campo em direção ao gol, perseguido de longe pela defesa benfiquista. O contragolpe foi fulminante e o brasileiro naturalizado italiano teve tempo de sobra para entrar na área, ajeitar, virar o corpo e escolher o canto: 2-1, um campeão inédito a caminho.

Tomado pela agonia, o Benfica reagiu e partiu para o abafa. Chutes de longe, descidas com Eusébio e finalizações perigosas. No fim, o goleirão Ghezzi alcançou o status de lenda por uma defesa milagrosa em chute de Santana, da entrada da área, já nos minutos derradeiros. A cozinha milanista estava toda ocupada por defensores, volantes e até meias, sob os gritos e orientações do capitão Cesare Maldini. A contenção total dos italianos era o sinal de que Nereo Rocco estava satisfeito com a virada e queria administrar o placar. Por pouco a retranca não foi punida pela ferocidade de Eusébio e seus colegas, mas no fim, falou mais alto a maldição de Guttmann, que ecoou por anos na cabeça da Pantera Negra e dos Encarnados.

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Coube ao capitão e líder defensivo Maldini erguer a taça que abriu o caminho para um dos maiores campeões do mundo. O Milan se sagrava vencedor da Copa dos Campeões de 1963 e eternizava seus primeiros heróis em Wembley.

Já o Benfica, viveu atormentado pelo sobrenatural. Guttmann morreu em 1981, oito anos depois de se aposentar pelo Porto, arquirrival dos Águias. Quando os Encarnados voltaram a enfrentar o Milan na final da Copa dos Campeões de 1990, Eusébio visitou o túmulo de Guttmann em Viena, cidade que recebeu a decisão daquela temporada. O craque deixou flores no jazigo de Béla e implorou para que a maldição fosse quebrada. De nada adiantou: Rijkaard fez o único gol do jogo e deu mais uma taça aos rossoneri.

Aquela foi a última vez que o Benfica jogou uma final do principal torneio de clubes da Europa. Em 1983 (ainda como Copa Uefa), 2013 e 2014, os lusitanos tiveram a chance de vencer o segundo campeonato mais relevante do continente e também perderam para Anderlecht, Chelsea e Sevilla, respectivamente. Mas há quem duvide da força desta maldição…

Milan 2-1 Benfica

22 de maio de 1963, Wembley, Londres
Final da Copa dos Campeões Europeus
Gols: Eusébio, 19′ 1T; Mazzola, 12′ e 23′ 2T

Milan: Ghezzi, David, Maldini, Trebbi, Benítez, Trapattoni, Dino Sani, Rivera, Pivatelli, Mora e Mazzola. Técnico: Nereo Rocco

Benfica: Costa Pereira, Raúl, Cavém, Cruz, Coluna, Humberto, Eusébio, Santana, Augusto, Simões e Torres. Técnico: Fernando Riera

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