O fim do sofrimento da família Milito, dividida pela rivalidade

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Formados em clubes rivais na Argentina, Diego e Gabriel Milito tiveram carreiras distintas no esporte. Em posições opostas, os irmãos dividiram a família em várias oportunidades até o fim da carreira de Gabriel. Laços fraternais eram prontamente cortados dentro de campo quando eles se enfrentavam.

Ser pai ou mãe de um atleta é dedicar uma boa parte da vida a ver as andanças do herdeiro pelo mundo. Para a maioria dos pais, acompanhar o sucesso do pequeno é uma grande recompensa por todos os problemas vividos durante a criação. Eventualmente, a saudade se sobrepõe às lições de vida. No caso de uma certa família argentina da cidade de Bernal, as coisas tomaram um rumo esquisito.

Diego nasceu em 12 de junho de 1979 e ganhou um irmão logo em seu primeiro ano de vida. Gabriel veio ao mundo em 7 de setembro de 1980. A infância dos dois foi repleta de traquinagens. Muito ligados à bola desde crianças, os Milito foram parar em uma escolinha de futebol chamada Viejo Bueno, na vizinhança de Quilmes. Lá, tiveram o primeiro contato com um clube e aprenderam os fundamentos básicos do esporte que pretendiam praticar.

Anos depois, ao fim da década de 1990, tomaram rumos opostos. Dentro das preferências pessoais de cada um, o pai Jorge não quis interferir no destino dos filhos. Diego, o mais velho, escolheu seguir para o Racing, enquanto Gabriel foi jogar no Independiente, esquentando a rivalidade dentro de casa. E com estádios tão próximos em Avellaneda, os irmãos nunca ficaram realmente distantes. Se em geral as histórias de familiares no esporte significam união e parceria, essa lógica foi subvertida no caso dos Milito, separados dentro de campo por paixões conflitantes.

O clássico de Avellaneda

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Diego começou a carreira em 1999, por La Academia. Dois anos depois, já como titular, era campeão argentino. Atacante de muitos talentos, ficou quatro anos no Cilindro e saiu aclamado como ídolo da torcida por resgatar as glórias da equipe albiceleste. Ficou até o fim de 2003 e seguiu para o Genoa em 2004.

Gabriel conhecia as agruras do futebol desde 1997. Zagueiro de origem e que não gostava de perder a viagem em divididas, ganhou reputação como xerifão do Independiente, clube que defendeu até 2003 antes de ser vendido ao Zaragoza. Foi campeão argentino em 2002 como capitão do Rojo. Antes de desembarcar na modesta equipe aragonesa, fez exames no Real Madrid, mas foi recusado porque os médicos consideraram que o seu joelho estava danificado demais.

Os dois deixaram o lar em Bernal de forma definitiva, mas antes da empreitada estrangeira, protagonizaram um clássico curiosíssimo. Racing e Independiente se pegaram em 9 de março de 2003 pelo Nacional. Em Lanús, o dérbi de Avellaneda viveu um capítulo apimentado de sua história. Foi a última vez que os irmãos Milito se enfrentaram antes de saírem para a Europa. E o placar foi de 1-1.

Chama atenção não só o fato de Diego ter marcado um golaço no primeiro tempo, mas também por ter pedido a expulsão de Gabriel após falta em seu companheiro, Juan Manuel Torres. O árbitro Horacio Elizondo acatou o pedido de Diego e mandou o zagueiro do Rojo mais cedo para o chuveiro.

Gabriel não deixou barato e saiu xingando o irmão com veemência. Revoltado, o defensor chegou a chamar o irmão de filho da puta, para indignação da mãe, Mirtha, que acompanhava tudo perplexa das arquibancadas. Dona Mirtha estava aflita ao lado das noras e do marido, Jorge. O pai, por sua vez, achou que os dois estavam malucos e acompanhou a esposa até a saída do estádio. Ela ficou tão nervosa que preferiu ir embora mais cedo do clássico.

A vida na Europa e o retorno

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Os Milito finalmente defenderam o mesmo time de 2005 a 2007, no Zaragoza. Ao lado do irmão, Diego conseguiu despontar como artilheiro depois de sua primeira passagem pelo Genoa, na segunda divisão italiana. Na Espanha, a dupla fez sucesso e alçou novos voos. Gabriel foi contratado pelo Barcelona em 2007 e Diego ficou no clube até o rebaixamento do Zaragoza, em 2008. Depois disso, retornou ao Genoa para mais uma temporada.

Os dois irmãos se enfrentaram outra vez, agora sem brigas, pela Liga Espanhola em 2007, com direito a goleada do Barcelona por 4-1. Diego guardou sua vingança por três anos, até que teve a oportunidade de dar o troco com a camisa de outra equipe. Em 2010, quando o atacante defendia a Internazionale, a batalha com Gabriel valeu pelas semifinais da Liga dos Campeões.

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Os italianos, comandados por José Mourinho, venceram em Milão por 3-1 e seguraram uma derrota por 1-0 em Barcelona para avançar até a final, que ganhariam consequentemente do Bayern, por 2-0. Diego marcou na ida da semifinal e fez os gols da decisão que deu o tricampeonato aos nerazzurri.

Atormentado por graves lesões, Gabriel deixou o Barça em 2011, após o título da Liga dos Campeões. Voltou ao Independiente com status de lenda e o apelido de “Marechal”, pelos feitos na década anterior. Contudo, sem poder ter continuidade em virtude de um problema crônico nos joelhos, se aposentou em 2012.

Já Diego, vive seus últimos meses como profissional. Assim como irmão, voltou ao ponto de origem para defender o Racing em 2014. Capitão e principal craque do time em sua chegada, foi campeão argentino no mesmo ano e está em sua segunda Libertadores consecutiva. Agora como reserva, El Príncipe já anunciou que se aposenta em junho, após a disputa da competição sul-americana.

E assim a história de rivalidade da família Milito se encerrará de vez dentro dos campos. Depois de 19 anos, o futebol não terá mais nenhum membro do clã em atividade. Duas figuras imensas para a Argentina, dois campeões da Europa e do Nacional por clubes rivais. Para Jorge e Mirthes Milito, a aposentadoria de Diego representa, enfim, tempos de paz.

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