Didi, o “Príncipe Etíope” que causou ciúme na coroa do Real Madrid

Foto: UOL
Foto: UOL

Didi brilhou na Copa de 1958 e foi eleito o melhor jogador do torneio que deu a primeira taça ao Brasil. Anos depois, assinou com o Real Madrid, mas foi boicotado por colegas enciumados. Entre eles, Alfredo Di Stéfano.

Na época em que a Liga dos Campeões ainda era só mato e sem toda a promoção estelar e contratos bilionários de anúncios, o Real Madrid dominava os rivais com o seu esquadrão que mais parecia uma seleção de todos os tempos. E naquele período de muito glamour e romantismo, um homem desafiou a lógica vigente no Santiago Bernabéu.

Se em 1955 o Real começava a pintar o período mais fantástico de um clube na história pela Copa dos Campeões da Europa, Didi estava prestes a deixar o Fluminense, primeiro time grande que defendeu. Nas Laranjeiras, o genial médio-volante venceu o Carioca de 1951 e a Copa Rio de 1952, troféu de enorme prestígio internacional que até hoje é a grande referência de conquistas do Flu.

Didi 1958

Didi tinha uma elegância particular. Magro, de média estatura, se movimentava com intensidade e tinha um toque refinado. Características que deram a ele o célebre apelido de “Mr. Football”, durante a final da Copa do Mundo de 1958 pelo Brasil. Há quem conteste que Pelé foi o craque daquela partida. Para muitos, foram a liderança e o talento de Didi que pavimentaram o caminho da Seleção para a virada contra a mandante Suécia em um épico dos Mundiais. Outro famoso apelido de Didi era o de “Príncipe Etíope”, alcunha criada pelo jornalista Nelson Rodrigues.

Comparações à parte, Didi já era nos anos 1950 uma figura madura no futebol brasileiro. Capaz de resolver jogos com a sua determinação e paciência de explorar a defesa adversária, expondo fragilidades em um passe, sempre aquele toque com manteiga para um colega livre ou que alcança uma linha em potencial por trás dos zagueiros.

Coroado campeão do mundo em 1958, em história que todos nós sabemos ou deveríamos saber de cor, Didi já era conhecido também pelo seu fantástico chute folha seca, onde a bola fazia um arco bem alto e caía de repente para o desespero de goleiros despreparados para esta eventualidade.

O inferno em Madrid

Foto: O Globo
Foto: O Globo

Em 1959, veio o convite do Real Madrid. Didi tinha sido campeão carioca de 1957 pelo Botafogo quando aceitou a transferência e foi jogar no magnífico Real Madrid de Di Stéfano e Puskas. Extremamente popular com a torcida ao redor do mundo, o brasileiro chegou para causar impacto.

No entanto, acabou sofrendo bastante meses depois, quando foi boicotado por Di Stéfano, o líder intelectual e técnico do grupo. Enciumado com a reputação de Didi, o argentino temia perder o posto de referência e fez da vida do colega um inferno. Ainda não se sabe ao certo se houve motivação racial, já que Didi era o único negro do elenco. A razão mais clara e presente em vários livros e reportagens é de que Di Stéfano não gostou de dividir o brilho com o campeão do mundo de 1958.

A verdade é que Didi nunca pertenceu ao Real Madrid como deveria. Deixado de lado pelos espanhóis, que claramente tomaram o lado de Di Stéfano, o volante eventualmente sentiu-se triste por ter deixado o Botafogo e a relação calorosa com a torcida brasileira para ser abandonado na Espanha. A passagem acabou em um ano, e em 1960, Didi voltou ao Rio de Janeiro para novamente defender o Botafogo. Na segunda passagem, venceu ainda mais: conquistou o Carioca de 1961 e 62, além do Torneio Rio-São Paulo de 62.

Péris Ribeiro, autor da biografia “Didi: o gênio da folha seca” explica que naquele ano, o Real Madrid venceu o Troféu Ramón de Carranza em uma atuação espetacular de Didi.

Apesar de ser um homem altamente cerebral, capaz de conter quase sempre as suas emoções, Didi acusou o baque quando o boicote de Di Stefano começou a fazer efeito. De uma hora para outra, ele trocava textualmente o céu pelo inferno. O Real Madrid só foi bicampeão do Torneio Ramon de Carranza por obra e graça do que Didi fez em campo. A sua estreia não podia ser mais triunfante. Acontece que Di Stefano estava lá há um bom tempo. Ele era do tipo dominador – e pra lá de ciumento. As coisas não podiam mesmo acabar bem; não podiam dar certo. Ainda mais com o Didi recebendo milhares de cartas por mês. Com o cartaz de maior astro daquele Brasil campeão do mundo.

A vingança

Brasil x Espanha 1962

Didi reencontrou alguns dos seus colegas de Real Madrid na Copa de 1962, no Chile. Puskas e Gento, por exemplo, alinharam pela Espanha no duelo contra a Seleção na primeira fase. O Brasil venceu por 2×1 com gols de Amarildo, eliminando a Espanha, que ficou em último na chave. Vale lembrar que o time de Aymoré Moreira foi ajudado pela arbitragem em pênalti de Nilton Santos em Enrique Collar. O defensor derrubou o adversário dentro da área, mas deu dois passos para o outro lado da linha, como se quisesse dizer que a falta foi fora. E bem, o resto da história é aquele bicampeonato sem Pelé e baseado na magia de Amarildo e Garrincha.

As grandes histórias de Didi foram mesmo em solo brasileiro. O meia ainda teve uma terceira passagem pelo Bota, depois de voltar do futebol peruano. Aposentou-se em 1966, com a camisa do São Paulo. Podemos dizer que Didi não deu certo no Real Madrid, mas até aí, azar dos madridistas. Se tivessem valorizado o Príncipe Etíope pelo que ele era capaz de fazer, o desfecho teria sido diferente. Mas que seria ainda mais fantástico aquele esquadrão dominar o mundo com Didi no auge…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *