O dia em que o Aberdeen de Alex Ferguson copou o Real Madrid

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Pela Recopa Uefa, o surpreendente Aberdeen de Alex Ferguson derrubou Bayern de Munique e Real Madrid até ficar com o título da Recopa Uefa. Título alçou o escocês à fama e ainda é o maior conquistado pelo clube.

Em 1983, Alex Ferguson era apenas mais um treinador em busca de reconhecimento no futebol europeu. No comando do Aberdeen, a quarta força da Escócia, o professor conseguiu levar um time modesto à glória na Europa. Ao conquistar a Recopa Uefa daquela temporada, Ferguson subia de patamar e entrava na mira de grandes clubes que procuravam um estrategista.

Quem vê Ferguson como o Barão do imenso sucesso conseguido pelo Manchester United nas décadas de 1990 e 2000, nem pensa que ele poderia ter tal façanha no currículo. A verdade é que o Aberdeen escalava para chegar ao seu período mais dourado, levantando a Liga escocesa três vezes em cinco anos. Os dois últimos campeonatos dos Dons aconteceram em 1984 e 85, portanto após a arrancada de 1983 em cenário internacional.

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Para montar o time que usaria em busca do caneco da Recopa, Ferguson contava com alguns jogadores que seriam base da seleção escocesa ao fim da década: o meia Gordon Strachan, os zagueiros Alex McLeish e Willie Miller e o goleiro Jim Leighton. No ataque, o jovem Eric Black ia muito bem marcando seus gols acrobáticos e de puro oportunismo. Essa estrutura permitiu que o Aberdeen vencesse a Copa da Escócia em 1981-82 e fosse credenciado a disputar a Recopa Uefa na temporada seguinte. O campeonato, que era o terceiro em relevância na Europa, reunia os campeões das Copas nacionais ao redor do continente.

O caminho até a final

ERIC BLACK GOAL (ABERDEEN). ABERDEEN V REAL MADRID, 11/05/83. EUROPEAN CUP WINNERS CUP 83. CREDIT: COLORSPORT

Ao encaixar um jogo objetivo e focado em uma boa troca de passes e com marcação forte, o Aberdeen foi chegando. Ferguson ficou extasiado no banco de reservas quando os seus pupilos impuseram um 7-0 no Sion, logo na estreia da competição, no Pittodrie. Fora de casa, outro sacode: 4-1 para os escoceses. Na fase seguinte, veio o Dinamo Tirana, da Albânia, que engrossou para o lado da equipe de Fergie: 1-0 na Escócia e 0-0 em solo albanês. A classificação colocou o Lech Poznán no caminho dos Dons, que não tiveram tanta dificuldade para conseguir duas vitórias, em 2-0 e 1-0. Foi aí que a coisa começou a complicar.

O adversário nas quartas de final foi o temido Bayern de Munique. Mas o que era um Bayern diante da primeira grande mágica de Ferguson? O Aberdeen segurou um 0-0 em Munique e conseguiu arrancar um 3-2 em casa, ficando com a vaga para as semifinais. O belga Thor Waterschei não deu nem para o gasto nas duas partidas e levou de 5-1 no Pittodrie. Sem esperanças de reverter o agregado, o time aurinegro apenas fez 1-0 e se contentou com a eliminação. Cinco anos depois, o Waterschei foi dissolvido.

A final e a zebra

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Evidente que um clube do tamanho do Aberdeen seria considerado uma zebra diante do Real Madrid. A final daquela Recopa foi realizada em Gotemburgo, na Suécia, para 17 mil pessoas que foram até o estádio Nya Ullevi. O Real Madrid era treinado por Alfredo Di Stéfano e vinha com força total para o confronto: trazia Johnny Metgod, Jose Antonio Camacho, Juanito, Ricardo Gallego, Uli Stielike e o atacante Santillana.

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Entretanto, quando a bola rolou em 11 de maio de 1983, a zebra tomou conta. E não usou da famosa técnica de time pequeno, esperando o erro adversário. O Aberdeen jogou cada minuto como se fosse o gigante em campo, pressionando o Real e atacando a meta de Agustín. Black, por exemplo, acertou um voleio no travessão e assustou os espanhóis.

Aos sete minutos, o mesmo Black puniu uma falha de posicionamento e pegou o rebote de uma pancada de McLeish. O zagueirão veio de trás, acertou um zagueiro e a bola sobrou limpa para Black cutucar. Aos 14, Santillana saiu livre em disparada e foi derrubado por Leighton na grande área e o juiz deu pênalti. Juanito bateu com competência e deixou tudo igual.

Com o tempo, a chuva castigou o gramado do Nya Ullevi e o jogo mudou de característica. Ao invés dos passes bonitos de ver, os times se forçavam a lançar a bola de um lado para o outro e correr para ocupar espaços. A defesa do Real batia cabeça, mas o Aberdeen não criava chances tão claras de gol para ampliar a vantagem.

Os grandes momentos dos Dons vinham com Strachan e Black, os mais acesos no setor ofensivo do time escocês. Agustín teve de praticar boas defesas para salvar o Real Madrid de levar o segundo. Chegou a prorrogação e os madridistas reagiram, colocaram a bola no chão e tentaram fazer o gol da virada. Ele nunca veio. Pelo contrário.

O Aberdeen cansou e precisou usar a cabeça para vencer. Weir dominou ainda no campo de defesa e lançou na esquerda para McGhee, que foi até a linha de fundo e cruzou na cabeça de Hewitt, desmarcado. Só com Agustín pela frente, o atacante reserva (que entrou na vaga de Black) testou firme e fez o segundo, restando três minutos para o apito final da prorrogação. Os Dons ainda tiveram uma boa chance de ampliar nos pés de Simpson, mas o chute rasteiro passou raspando na trave.

O árbitro Gianfranco Menegali apitou e colocou fim a um momento histórico do futebol internacional. Ali se iniciava a lenda de Alex Ferguson, de longe o maior técnico das últimas décadas. A vitória do treinador escocês foi também um triunfo do futebol de determinação e inteligência, de resiliência, uma marca do trabalho de Fergie através dos anos.

A noite de nó tático em Di Stéfano só foi possível porque Fergie tinha um Strachan inspirado e um perigoso Black na frente. Por último, o oportunismo de Hewitt, que se colocou no momento certo e na hora certa. Nomes que, hoje em dia, pouco representam para o futebol mundial. Mas vá dizer isso para o torcedor apaixonado do Aberdeen. De revelação naquele dia, guardamos Ferguson, o homem que tem mais títulos ganhos do que muito clube por aí.

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