O momento fugaz de glória de Jimmy Glass

Foto: BBC
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Goleiro saiu de sua área para marcar o gol que salvou o Carlisle United de ser rebaixado ao futebol amador na Inglaterra, no último minuto. Lance alçou Jimmy Glass ao estrelato, mas o Carlisle não renovou o seu contrato e o goleiro rodou por vários outros times até se aposentar.

Pouco importa para o torcedor no resto do mundo que o Carlisle United escapou de cair da quarta divisão inglesa para o abismo do futebol amador em 1999. Não é o tipo de coisa que fique marcada nos jornais internacionais ou que passe em clipes dos grandes momentos do futebol mundial.

Sem tradição, o pequeno clube vivia em divisões inferiores sem ambicionar muita coisa. O único ano em que os Cumbrians disputaram um campeonato de elite foi em 1975, fazendo da cidade de Carlisle a mais pequena em população a ter um time na primeira divisão. Aquela escalada ficou marcada como o grande momento da história do Carlisle, mas não foi em 1975 que o time ganhou fama internacional. Duas décadas depois, em crise e correndo risco de rebaixamento para o nível amador, os Blues viveram um dia inesquecível.

O dia era 8 de maio de 1999. Última rodada da Division Three (atual League Two, com a reformulação dos quatro níveis principais regidos pela Football Association), a quarta divisão da Inglaterra. Jogavam Carlisle e Plymouth Argyle no Brunton Park. Era vencer ou vencer. Um empate não serviria e o clube deixaria o profissionalismo após mais de 70 anos.

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Na segunda metade da temporada 1998-99, o goleiro Jimmy Glass esquentava o banco do Swindon Town. Como o Carlisle vendeu o seu goleiro titular e cancelou o empréstimo do reserva por lesão, Glass acabou cedido pelo Swindon para pegar no gol durante os últimos jogos da temporada.

Jimmy estava no futebol desde o fim dos anos 1980, formado pelas categorias de base do Crystal Palace, apesar de nunca ter disputado um jogo sequer no time principal dos Eagles. Também passou pelos juvenis do Chelsea antes se tornar profissional, mas não ficou muito tempo em Stamford Bridge.

De 1989 a 1996, ele rodou por uma porção de times irrelevantes, até acertar com o Bournemouth, que hoje disputa a Premier League, mas de 1996 a 98 estava na terceira divisão. O Bournemouth foi o clube que Glass mais conseguiu defender como titular. Fora isso, quase sempre era reserva, apenas parte do elenco. Jimmy chegou desacreditado para atuar no Carlisle. E em sua terceira partida, o destino dos Cumbrians estava em jogo.

A bola rolou para Carlisle e Plymouth Argyle. O técnico Nigel Pearson (último treinador do Leicester antes de Claudio Ranieri) planejou o dia todo uma forma de conseguir a vitória e escapar do rebaixamento. Para isso, teria de contar com um tropeço do Scarborough na outra partida. Lee Philips abriu o placar para o Plymouth e David Brightwell deixou tudo igual, durante o segundo tempo. O drama continuava pairando no ar. Mas era essencial vencer, já que o Scarborough empatava.

A partida no Brunton Park chegou aos acréscimos, enquanto o Scarborough empatou em 1-1 com o Peterborough. Com essa combinação, o Scarborough escapava da queda e continuava na Division Three. Eis que o improvável Jimmy Glass resolveu aparecer.

Com o placar jogando contra e a promessa do juiz de que haveria um último lance, Jimmy foi incentivado pelo técnico a ir para a área do Plymouth tentar alguma coisa. Em um escanteio vindo da direita, a bola foi desviada, o goleiro do Plymouth espalmou e Glass pegou o rebote, de primeira, mandando para o fundo da rede. O estádio quase foi abaixo.

Depois do ápice

Glass, como preparador de goleiros do Poole Town, em 2011.
Glass, como preparador de goleiros do Poole Town, em 2011.

“Eu sempre fui um atacante frustrado. Olhei para Nigel Pearson e ele me acenou para que eu fosse para a área. Era aquilo mesmo, tudo seria definido no último chute. Se eu pudesse engarrafar aquela sensação que tive naquele momento, seria muito rico. Todo mundo veio na minha direção para me abraçar, foi uma loucura. Você não sente isso dirigindo um táxi. É maravilhoso ter estes momentos no esporte. A mudança no semblante dos torcedores, técnico e jogadores, até os gandulas, que foram do desespero ao êxtase”. (Glass, sobre o gol de sua vida)

O gol encerrou o jogo com 2-1 para o Carlisle. Torcedores invadiram o campo para festejar e os jogadores foram tratados como heróis. Jimmy Glass era o maior deles, com apenas três jogos disputados debaixo das traves.

Jimmy ainda conta foi para uma balada horas depois da partida e que não teve paz, já que a festa lotou e todo mundo queria arrancar um pedaço dele pela façanha de salvar o Carlisle do rebaixamento. Entretanto, o momento de consagração durou pouco.

“É difícil entender isso, mas muita gente vai da fama e fortuna até dirigir um táxi e levar uma vida normal como eu. É complicado entender que de herói inesquecível você vira um simples cara que tem de se preocupar em como vai pagar a próxima conta. Aquele gol é uma parte sensacional da minha vida e está lá para ser curtido. Eu vou aproveitar a sensação sempre, até que enjoem de mim. Alguém nestes jogos decisivos precisa ser o herói ou o vilão. É um sentimento incrível”.

O Carlisle não renovou o seu empréstimo para 1999-00. Nem mesmo o gol fez com que ele fosse titular em algum lugar. Rodou por mais sete clubes de pequeno escalão, sempre como reserva ou quebra-galho. Dois anos depois, Jimmy se aposentava como atleta profissional, jogando pelo Lewes. Depois da aposentadoria aos 27 anos, Glass passou um tempo como vendedor de produtos de informática para sustentar a família. Hoje vive como taxista na cidadezinha de Dorset, com sua mulher e duas filhas.

Jimmy Glass nunca foi lembrado pela lista de grandes goleiros do futebol e nem haveria de ser. Não ganhou uma estátua no estádio do Carlisle e nem assinou contratos milionários de publicidade para alcançar a liberdade financeira que tantos jogadores sonham. Seu maior feito durou menos de cinco segundos, se é que chegou a tanto. O futebol não fez questão de lembrar dele depois daquele gol. Mas o torcedor do Carlisle certamente não vai apagar o seu nome da memória.

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