O ano intenso de Maradona como jogador do Sevilla

Foto: Infobae
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El Pibe emprestou seu talento ao Sevilla por uma temporada, após viver inferno de doping e polêmicas no Napoli. Durante um ano, o argentino se preparou no Sánchez Pizjuán para a sua última e amarga Copa do Mundo.

Toda vez que falamos de Maradona, é natural que a memória puxe pelos feitos do craque com a camisa da Argentina, do Napoli, do Boca Juniors ou mesmo do Argentinos Juniors, equipe que lançou Diego ao futebol profissional nos anos 1970. O que pouco se fala é que El Pibe também passou (e bem) pelo Sevilla entre 1992 e 1993, justamente após a sua primeira fase crítica na carreira.

A história de Maradona no Sevilla é uma prova de resistência às torturas a que o gênio foi submetido em seus anos finais no esporte. É inegável o efeito que o envolvimento com drogas teve em sua vida, mas usar os narcóticos como o único motivo para a sua decadência como o maior atleta de sua geração é ignorar o contexto turbulento em que o argentino estava inserido.

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Primeiramente, é preciso dizer que o uso abusivo de drogas puxou os outros problemas que Diego teve em seu auge no Napoli, mas não explica por si só os dramas vividos pelo Pibe. Estressado, pressionado, fora de controle, o craque se perdeu justamente onde encontrou a melhor fase técnica e recheada de títulos em sua vida.

A salada de polêmicas envolvia faltas aos treinos no Napoli, além de um filho fora do casamento, fruto de um caso com Cristiana Sinagra. Não bastasse ter sua vida esmiuçada por tabloides e jornais, o camisa 10 estava sob suspeita de envolvimento com membros da máfia da Camorra, uma das mais temidas da Itália.

O Maradona que desembarcou em 1992 na Espanha era um Maradona diferente. Ele estava visivelmente disposto a dar a volta por cima e recuperar o prestígio perdido no furacão que quase destruiu a lenda em torno dele. Foram 15 meses de espera para retornar ao futebol, depois da punição imposta pela Fifa por doping.

Maradona, Suker e Simeone

Maradona Figurinha Sevilla

Ter um jogador do calibre de Maradona impulsionou uma campanha média do Sevilla na Liga Espanhola. Ao lado do Pibe, que chegou como capitão e camisa 10, estavam o volante Diego Simeone e o atacante Davor Suker. Um time que pelo menos nos estrangeiros, podia se dar ao luxo de ser um dos melhores do país. O problema é que o resto do plantel não estava à altura daquele trio.

Diego tinha 32 anos quando estreou pelo Sevilla, diante do Athletic Bilbao, perdendo por 2-1. Veterano e determinado a alcançar novamente um nível alto de desempenho visando a Copa do Mundo de 1994, o craque entrou em campo 29 vezes e contou com o velho companheiro Carlos Bilardo como técnico. Aquele Sevilla era um simulacro da Argentina nos primeiros anos da década de 1990.

Ao todo, Maradona fez oito gols com a camisa do Sevilla em 1992-93, o que é pouco perto dos lances ofensivos que ele gerou. O papel mais destacado do capitão era mesmo como garçom. E ao contrário do que se pode imaginar, desbancar o meia Rafa Paz como líder do time não trouxe prejuízo para Maradona nos vestiários. Paz entendia que ter um astro no elenco iria trazer mais relevância midiática ao clube e que como nunca aquele time mediano seria tratado como bola da vez na Espanha.

Suker, que ostentou uma reputação de camisa 9 implacável nos anos seguintes, foi lançado ao estrelato graças aos passes de Maradona. O próprio croata reconhece que ter o argentino como seu assistente foi um fator crucial na sua evolução.

“Maradona me deu mais gols do que qualquer outro. Me chamou em uma manhã e disse: “Você corre pouco para um atacante. Quer marcar gols ou não? Então se mexa. Se mexa bastante. A bola vai começar a chegar para você.”

Nunca percebi como ele fazia aquilo. Eu estava de costas para ele, corria e a bola vinha no meu pé. Sou o único croata a ter sido colega de Maradona e tenho um orgulho enorme por isso”, disse Suker, que tinha 24 anos à época.

Diego Superstar

Foto: El Desmarque
Foto: El Desmarque

O desequilíbrio técnico claro entre o trio estrangeiro e o restante do plantel trouxe problemas para Bilardo. Pela Liga, foram 10 vitórias, oito empates e oito derrotas com Maradona em campo. Mesmo com uma grande referência criativa, o Sevilla penava para vencer equipes mais frágeis como Logroñes, Oviedo, Real Sociedad e Cádiz. Ao fim da temporada, uma goleada por 5-0 sofrida contra o Real Madrid colocou uma pá de cal na passagem de Maradona pelo Sánchez Pizjuán. Ele só jogou mais uma vez, contra o Burgos, em empate por 1-1.

Aliás, a diretoria já estava impaciente com o seu camisa 10. Com o tempo, Maradona relaxou e começou a ganhar peso, enquanto ostentava hábitos inaceitáveis para os diretores. Sempre visto fumando seus charutos e dirigindo de forma inconsequente a sua Ferrari pelas ruas da cidade, não era raro que Maradona fosse multado por infrações de trânsito. Mas a postura de estrela foi o que incomodou os cartolas blanquirrojos, a ponto de mandarem detetives para vigiar seus hábitos.

Em certo ponto, a situação ficou insustentável e fez com que Diego tivesse seu contrato rescindido mediante multa paga ao clube. Conforme Maradona se entregava à noite andaluz, o seu rendimento caía e isso foi crucial para a sua saída do clube. Eles não queriam um astro baladeiro. Uma discussão acalorada com Bilardo, durante uma partida pela Liga, também colaborou com o deterioramento do clima entre o argentino e os companheiros. Em junho de 1993, Maradona fora desligado do Sevilla e seguiu para o Newell’s Old Boys, na atuação mais discreta de sua carreira.

A última grande história de Maradona em Sevilla, queridinho da imprensa e assediado durante todo ano em que esteve lá, foi contracenada com Simeone. O ex-meia Rafa Paz conta que após um treino, El Cholo tomava o caminho de casa. De repente, o volante notou que um supercarro esportivo estava lhe perseguindo e resolveu acelerar para fugir dele.

A cena se estendeu até que em um farol vermelho, Simeone brecou forte e o carro suspeito se chocou com a sua traseira. Quando o atleta desceu para tirar satisfação com o outro motorista, viu Maradona rindo com um charuto na boca. Ninguém pode negar que Don Diego tinha um senso de humor admirável.

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