O ano em que Lampard foi para o Swansea aprender uma dura lição

Foto: Four Four Two
Foto: Four Four Two

Meia foi emprestado pelo West Ham do tio Harry Redknapp para desenvolver seu futebol e amadurecer como pessoa. Passagem de Frank pelos Swans foi um ponto de transição na carreira do atleta, mas teve gosto amargo.

Era uma vez um menino de 17 anos que estava querendo se tornar um profissional de sucesso e tinha na própria família dois grandes exemplos. O pai, Frank, e o tio, Harry Redknapp, ambos com boa reputação no West Ham. O ano era 1995 e em outubro, um jovem Frank Lampard Jr. desembarcava no Vetch Field, casa do Swansea, para atuar pelos galeses. Eram tempos muito distintos.

A começar pelo fato de que 20 anos e alguns meses atrás, quem ouvisse o nome de Frank Lampard, provavelmente pensaria no lateral esquerdo que atuou por tanto tempo pelo West Ham. Seu Frank parou de jogar em 1986 e menos de dez anos depois, seu herdeiro estreava no esporte. Frankinho foi formado pelo mesmo West Ham que consagrou o pai. Mas antes de dar os seus primeiros passos no futebol inglês, o segundo Lampard precisou sofrer um pouco.

Na base, era um talento claro. Todos tinham certeza de que se ele fosse treinado da maneira correta, iria estourar no país em pouco tempo. Entretanto, Frank tinha alguns problemas de comportamento e não estava levando tão a sério as rotinas obrigatórias como juvenil. A postura irritou o Tio Harry, que era o técnico do time principal dos Hammers. Às vésperas de ser lançado como titular, pintou uma proposta do Swansea, por empréstimo.

Frankie ao lado de Harry Redknapp e Rio Ferdinand, pelo West Ham/Foto: Pinterest
Frankie ao lado de Harry Redknapp e Rio Ferdinand, pelo West Ham/Foto: Pinterest

Em pratos limpos: Frankie ainda não era ninguém no futebol quando foi mandado para Gales jogar no Swansea. Era apenas um menino, filho do grande Lampard e de Redknapp. O tio treinava os Hammers e o pai era o assistente. O menino ainda precisava mostrar se tinha mesmo bola para vingar no esporte. A transação foi concretizada em outubro de 1995, no meio da disputa da terceira divisão inglesa. O Swansea estava em apuros, muito longe do que conseguiria construir na década seguinte.

O futebol era ruim. O gramado era pior. As condições de treinamento eram lamentáveis e os colegas eram obviamente de uma classe inferior a do próprio Frank, que com seus 17 anos tentou fazer algo decente com a camisa alvinegra para voltar com moral ao West Ham.

O problema para os dois lados é que o time estava lutando contra o rebaixamento e em péssima fase. Ou seja: Frank tinha de dar o dobro do seu talento para sequer ser notado. Usando a camisa 6, o meia estreou contra o Bradford City e não demorou a se apossar da vaga entre os onze iniciais.

Apesar de se tratar de um bom jogador para a época, Lampard não curtiu muito a sua passagem pelo clube. Em sua autobiografia, publicada em 2006, o ídolo do Chelsea deu detalhes sobre a sua insatisfação com o cenário encontrado.

“O centro de treinamentos era bem precário. Eu estava chocado com a falta de estrutura, pouco me importava se a gente conseguisse jogar bem. Eles sabiam que eu não queria ficar nem mais um mês lá. Não por acaso, vencemos apenas dois jogos e pouco mais de mil pessoas estavam nas arquibancadas para ver a gente lutar contra o rebaixamento”.

O Swansea ficou em 22º lugar na tabela final e acabou rebaixado para a quarta divisão. Frank foi bem, mas não o suficiente para virar ídolo ou uma grande referência no clube. A capacidade de melhorar o nível de passe no time fez a diferença e os atletas que ficaram sentiram o declínio técnico do plantel após a sua devolução ao West Ham.

Mais do que isso, Lampard acabou apelidado de “Fat Frank”, ou “Frank Gordo”, por estar visivelmente acima do peso. Nada muito excessivo, mas que serviu para gerar um apelido maldoso ao novato. Diziam que ele era mesmo um cara diferenciado, mas que não imaginavam mesmo em Gales que Lampard iria estourar como estourou no Chelsea, na década seguinte.

Em entrevista ao site da revista Four Four Two, o ex-atacante do Swansea Steven Torpey, que atuou com Lampard naquele ano, afirmou que o companheiro nunca esteve realmente inserido no contexto e no mesmo clima dos demais atletas. Torpey chamou Frank de “arrogante” e acusou o ex-colega de “torcer para o Cardiff”, este comentário em tom de brincadeira para mostrar como o craque de hoje não deixou boa impressão como pessoa em sua passagem pela equipe galesa.

Aliás, Torpey admite que em certo ponto chegou a pegar Lampard pelo colarinho em um pub, aos xingamentos, dizendo para ele arrumar as malas e voltar para Londres. Dito e feito, Frankie voltou em janeiro de 1996 para o Upton Park após nove partidas e um gol. Foi muito bem no West Ham, clube pelo qual estreou logo depois de ser devolvido pelo Swansea. Em 2001, assinou com o Chelsea, irritando muitos Hammers pelo ato de traição.

Bem, Lampard fez 211 gols pelos Blues, foi três vezes campeão inglês, quatro da Copa da Inglaterra, uma vez da Liga dos Campeões e da Liga Europa. Duas décadas depois da visita a Gales, Frank deixou o passado de “gordinho arrogante” para trás e fez com que Seu Frank virasse apenas “o pai do camisa 8 do Chelsea”. A insólita estadia em território galês é a prova cabal de que nem tudo na vida do craque é um conto de fadas.

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